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sábado, 20 de dezembro de 2025

Crônicas da Fundação, de Isaac Asimov


Capa do livro Crônicas da Fundação, de Asimov



O romance "Crônicas da Fundação" foi o último livro escrito da série "Fundação"; porém, seguindo a ordem dos acontecimentos, foi o segundo livro da série.
 No primeiro livro, "Prelúdio à Fundação", temos contato com o início da psico-história e com um Seldon — matemático responsável pelo desenvolvimento dessa ciência — ainda jovem, demonstrando insegurança sobre a efetivação dessa junção entre comportamento social e matemática.

Resenha de Crônicas da Fundação

No segundo livro, a psico-história já é uma realidade, faltando apenas alguns ajustes para que ela possa ser utilizada. Contudo — como no primeiro livro — ainda está em perigo, sendo ameaçada tanto por aqueles que querem se apoderar desse conhecimento quanto por aqueles que querem se aproveitar da decadência do Império Galáctico para tomar o poder.

Diferentemente do primeiro livro, no qual a história é narrada em um período de tempo contínuo, sem grandes saltos, no segundo livro temos contato com quase quarenta anos de história, sendo dividida em quatro partes. Em cada uma dessas partes, um personagem é destacado, tendo um papel imprescindível para o desenvolvimento da psico-história.

Na transição de uma parte para outra, ocorre um salto de mais ou menos dez anos no tempo. Com isso, cada história — apesar de ser influenciada pelos acontecimentos da anterior — tem uma certa independência, fazendo com que o livro aparente ser uma coletânea de contos.

O leitor que porventura já tenha lido "Prelúdio à Fundação" irá acompanhar o desenrolar da vida de Seldon com o coração na mão, pois, a cada parte do livro, Seldon fica mais velho e mais perto do fim. Neste livro, acompanhamos o desfecho de todos os personagens que apareceram no primeiro livro, dando um fechamento para a primeira parte da Fundação e uma imensa curiosidade de como a psico-história lidará com o sombrio futuro a caminho.

Crônicas da Fundação foi o último livro da série Fundação escrito por um Asimov que também se aproximava do seu fim. Nele, nos despedimos de um personagem extremamente humano que, nos outros livros, será cultuado como um deus.

Nota: 10.

As sandálias do pescador, de Morris West

 

Capa do livro As Sandálias do Pescador de Morris West


Livro publicado em 1963,tem por tema a eleição e os primeiros meses de papado do pontífice fictício K Lakota. Papa ucraniano que passou 17 anos preso pelos soviéticos. 

Nesse livro,  Morris West contrói uma trama que promete. Após a morte do papa, um sacerdote ucraniano que passou 17 anos na prisão é eleito papa. A eleição de K Lakota causa comoção e apreensão em Roma. Acompanhamos os pensamentos do papa registrados em diário.   Neles, Lakota demonstra toda a sua humanidade, suas dúvidas  e dificuldades de se achegar a Deus. Seus conflitos internos são as melhores partes da história,  bem como sua relação com o mandatário da União soviética, que fora seu carcereiro.

Outras tramas paralelas são construídas,  podendo apontar uma jovem viúva que perdera o rumo e a fé, um padre cientista que busca revolucionar o pensamento da Igreja e um jornalista americano que busca a anulação do casamento de sua amante para poder despojsa-lá. 

Temas como fé,  desgraças,  guerras,  geopolítica,  homossexualidade e outros são tratados nessa história.  Alguns com uma tentativa de profundidade e reflexão,  outros de forma bem estereotipada e rasa. 

Análise de As Sandálias do pescador 

A história demonstra muito potencial no início e apresenta personagens interessantes, contudo alguns acabam não sendo trabalhados ou tendo grande destaque ,enquanto outros patinam sem ir a lugar algum.

No geral , o livro é prazeroso e a história flui ; contudo, terminamos a leitura com um gostinho de que poderia ter sido melhor.

Um bom livro para passar tempo.


quarta-feira, 17 de julho de 2024

Os Negros anos-luz, de Brian Aldiss

 

Capa do livro Os Negros anos-luz de Brian Aldiss

Os Negros Anos-Luz foi publicado em 1964 pelo escritor britânico Brian Aldiss. 

Trata-se de uma interessante ficção científica ambientada em 2035, que narra a descoberta de alienígenas em um planeta explorado pela raça humana.

Resenha de Os Negros anos-luz

 Essas criaturas, parecidas com rinocerontes de seis patas (ou mãos), têm o costume de permanecer em meio às suas fezes, em grandes lamaçais.Os exploradores, enojados pela forma de vida encontrada, logo as tomam como uma espécie animal inferior. Contudo, esses alienígenas apresentam grande sabedoria e conhecimentos. 

No decorrer da história, fica evidente o contraste entre a forma de viver e pensar dos alienígenas e a dos humanos. Em muitos momentos, apesar dos hábitos pouco higiênicos dos alienígenas, acabamos nos enojando mais com a forma de agir e pensar dos humanos, que demonstram grande arrogância, o que os impede de perceber como essa raça alienígena é inteligente e sofisticada.

A título de curiosidade, temos como pano de fundo uma grande guerra entre a Inglaterra e o Brasil, que aparenta ser uma grande potência nesse mundo futurista. 

A escrita de Aldiss é agradável e leve, tornando a experiência de leitura muito prazerosa.

Aproveite e leia as resenhas de outras grandes obras da Ficção científica:

Prelúdio da Fundação, de Asimov;

O caçador de Androides, de Philip Dick.





segunda-feira, 25 de abril de 2022

Dança com a morte, de Jeffery Deaver

Capa do livro Dança com a morte de Jeffery Deaver



Um assassino profissional é contratado para eliminar três testemunhas que irão depor no julgamento de um criminoso poderoso. 

O detetive Rhyme , ex policial genial que ficou tetraplégico, é convocado para tentar capturar um dos assassinos mais temidos e inteligentes,chamado pelo FBI de "dançarino da morte", antes que ele elimine todas as testemunhas . 

Com a ajuda de uma equipe de policiais experientes  e, principalmente, de sua capacidade de raciocínio, Rhyme enfrentará o maior desafio de sua carreira, jogando uma verdadeira partida de xadrez com o maior assassino do mundo.

Homem na cama e mulher olhando para ele


Essa obra é uma continuação do livro " O colecionador de Ossos" , que virou um filme de sucesso estrelado por Denzel Washington e Angelina Jolie. 

O livro é o que chamam de thriller , no qual a narrativa se desenrola em um ritmo frenético. Contudo, a história não se resume apenas a isso .

  Percebe-se um grande cuidado por parte do autor na construção do quebra-cabeça da narrativa , para proporcionar um bom passatempo sem se utilizar tanto dos clichês do gênero. 

Página do livro. Um homem em pé ao lado de uma cadeira de rodas.

A policial Amélia, uma espécie de auxiliar de Rhyme, preenche as lacunas deixadas pela falta de mobilidade do protagonista, sendo seus olhos e ouvidos em campo. A sua impulsividade  contrasta com a frieza, baseada em raciocínio lógico, de Rhyme ,dando uma dinâmica interessante a dupla.

Por fim, é um livro altamente recomendado para aqueles que querem mergulhar em uma rápida e interessante história policial que pode ser lida em poucos dias, sendo um desses livros em que as páginas viram sozinhas.




terça-feira, 19 de abril de 2022

Kaschtanka e outras histórias, de Anton Tchekhov

 

Capa do livro Kaschtanka e outras histórias de Tchekhov

O pequeno livro de contos do escritor russo Anton Tchekhov impressiona pela leveza das histórias. Nesse livro, somos agraciados com sete pequenos contos que retratam com leveza o cotidiano da Rússia pré-revolucionária.

O conto que dá nome ao livro é sobre uma cachorra castanha (daí o nome Kaschtanka, castanho em russo) que se perde de seu dono, habitando na casa de um artista. Apesar de ser o conto mais extenso, outros contos acabam encantando o leitor, como a história de um rapaz em férias que, sempre quando desce um morro em um trenó na companhia de uma amiga, diz "eu te amo". A moça fica sempre indecisa se realmente ouviu aquelas palavras ou se foi o seu nervosismo pregando-lhe uma peça.

Outro conto que se destaca é a história de um oficial que, após um cachorro morder um senhor na rua, fica em dúvida sobre qual atitude tomar, pois teme que o cachorro possa pertencer a alguma autoridade. Essa coletânea de contos pode ser uma boa porta de entrada para o universo de Tchekhov e da literatura russa. 
É uma leitura leve e agradável.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

A vida como ela é... de Nelson Rodrigues

 

Capa do livro A vida como ela é de Nelson Rodrigues

O livro de contos de Nelson Rodrigues, selecionados por Ruy Castro, narra o cotidiano da cidade do Rio de Janeiro cheia de seres humanos alienados em seus desejos sexuais.

Somos apresentados a mais de 40 contos, na maioria com apenas três ou quatro páginas, com a infidelidade como tema principal. Alguns contos são interessantes, contudo muitos são demasiadamente curtos, não dando chance de o leitor se aprofundar na trajetória dos personagens. 

A fórmula da maioria dos contos é a mesma; reina um determinismo sexual baseado em muito senso comum, como:

Homens só pensam em sexo; Mulheres desejam secretamente trair; Casamentos são malsucedidos.

Fotografia de Nelson Rodriguez

Essa é a fórmula da maioria dos contos. Apesar disso, alguns contos são interessantes e auxiliam na reflexão de como a questão sexual era um tabu na época, ao ponto de Nelson Rodrigues ser duramente criticado.


Vale também a menção à série exibida na TV Globo nos anos 90, onde vários desses contos foram adaptados.

Imagem da série da TV globo A vida como ela é





domingo, 7 de junho de 2020

Grandes Esperanças, de Charles Dickens




Capa do Livro Grandes Esperanças de Charles Dickens

Charles Dickens publicou esse romance em 1861, e foi um dos últimos romances publicados pelo autor já consagrado na época. Dickens é conhecido como um escritor capaz de discutir temas relacionados à sociedade inglesa (que vivia o fervor da industrialização) de forma leve, criando personagens marcantes e uma literatura de fácil assimilação pelo público. Ou seja, seus livros eram capazes de atrair as mais variadas camadas da sociedade. Com isso, ainda em vida, Dickens desfrutou de seu sucesso, sendo uma celebridade no Reino Unido.

Fotografia de Charles Dickens


Resenha de Grandes Esperanças


O romance Grandes Esperanças tem por protagonista Pip, um garoto pobre, que após ajudar um prisioneiro foragido, tem sua sorte mudada, tendo a chance de ascender na pirâmide social. Pip mora com sua irmã e o marido dela, seu grande amigo Joe, em uma casa simples. Ele admira muito o seu cunhado, os dois demonstram uma amizade forte e bonita. Sem grandes esperanças, devido à condição financeira, ele espera ser iniciado na profissão de ferreiro, exercida por Joe, quando crescer.

Um dia, enquanto caminhava pelo cemitério da localidade, conhece um foragido que o obriga a ajudá-lo. O menino com medo traz no dia seguinte comida e uma ferramenta para que ele possa se desvencilhar de sua corrente. Pip, devido a um misto de medo e piedade, ajuda o foragido que no dia seguinte acaba capturado.

Anos depois, Pip é convidado por uma senhora que habita um casarão na cidade a frequentar sua casa. Pip passa a visitá-la e a receber aulas de boas maneiras. Essa senhora, devido a uma decepção amorosa, vive reclusa em sua mansão, tendo por única companhia sua filha adotiva. Pip se apaixona pela menina e sonha um dia desposá-la. Após receber a visita de um advogado, Pip descobre ter um benfeitor misterioso que lhe ajuda a se transformar em um cavalheiro. Para tanto, Pip deixa a localidade pobre e vai morar em Londres.

No início da história, Pip tem por esperança ser um ferreiro, após ter sua sorte mudada, suas esperanças aumentam e ele vai aos poucos esquecendo a sua antiga vida e seus parentes. O fato de a sociedade não admitir o contato entre classes sociais faz com que Pip não se sinta à vontade junto aos seus parentes. Com isso, ele vai se afastando enquanto cresce, transformando-se em um estranho.

Capa do livro Grandes Esperanças de Charles Dickens


O amor que ele sente por Estela (filha adotiva da senhora que lhe recebia em sua mansão) faz com que ele fique cego para tudo. Ele acredita que a senhora seja a sua benfeitora e que um dia se casará com Estela, mas para tanto, ele precisa esquecer sua antiga vida e seus parentes.

Existe um abismo separando as classes sociais dominantes das classes sociais mais baixas, o que torna impossível transitar entre as duas. Pip acaba seduzido pelo luxo e comodidades da riqueza e abandona sua família e sua antiga vida, como se fosse incompatível para um homem em sua posição manter contato com os pobres. Contudo, o segredo da identidade daquele que o ajudou a ascender socialmente paira sobre Pip que, futuramente, será confrontado com essa verdade.

Um grande livro, tanto em tamanho, quanto em qualidade. Nota: 10


O continente, de Érico Veríssimo


Capa do Livro O continente de Érico Veríssimo



O romance O Continente é a primeira parte da trilogia "O Tempo e o Vento", do escritor gaúcho Érico Veríssimo. A trilogia tem por tema a vida de duas famílias gaúchas, abarcando mais de 150 anos da história do Rio Grande do Sul e do Brasil. As duas famílias principais são os Terras e os Cambarás. No primeiro romance, temos um contato maior com a família Terra.

Os Terras são agricultores obstinados e, muitas vezes, secos, que lutam para sobreviver em meio a um Rio Grande do Sul do final do século XVIII e início do XIX. Boa parte das tentativas dos Terras para progredir e ter uma vida mais confortável esbarra nas inúmeras guerras em que o Sul do Brasil se envolveu, algumas contra nossos vizinhos latino-americanos, outras entre o próprio povo brasileiro, como a Guerra dos Farrapos. Essas guerras trazem pobreza para o pequeno povoado em que a família vive, além de serem responsáveis por levar os homens da família para morrer no campo de batalha. Entre os Terras, destacam-se os personagens femininos, como Ana Terra e Bibiana (avó e neta).

Ana Terra

Ana Terra, após ter o sítio da família invadido por castelhanos e seu pai e irmão mortos, acaba indo habitar, com seu filho (fruto de um amor proibido), em Santa Fé, um pequeno povoado comandado pela família Amaral. A família Amaral é a grande antagonista tanto da família Terra quanto da família Cambará no transcorrer do romance.

Ana Terra, mesmo após as desgraças que assolaram sua vida, consegue se estabelecer em Santa Fé e criar seu filho, mostrando ser uma mulher forte com uma determinação sem fim. Como já foi dito, os homens da família Terra não são capazes de despertar grande interesse no leitor.


Pintura de casarão em Santa Fé, no Rio Grande doSul

Bibiana

A neta de Ana Terra, Bibiana, também se destaca nesse romance com a determinação e caráter da avó. É através de Bibiana que a família Terra se junta com a família Cambará.

Após chegar em Santa Fé, o capitão Rodrigo Cambará mexe com o pacato vilarejo e acaba casando com Bibiana. Sendo um homem amante de combates, festas e mulheres, Rodrigo se mostra a figura do brasileiro aventureiro, sempre em busca de aventuras e com nenhuma preocupação com o futuro. Ele surge como o primeiro grande protagonista masculino do romance. Podemos dizer que os Terras nos deram grandes protagonistas femininas e os Cambarás grandes protagonistas masculinos (o neto de Rodrigo e Bibiana, Licurgo Cambará, também se mostra um protagonista interessante na última parte do romance).
Pintura de Igreja antiga de Santa Fé no Rio Grande do Sul

Essa primeira parte da trilogia inicia-se no século XVIII e termina no final do século XIX. Somos apresentados às primeiras gerações dos Terras e Cambarás, com destaque para os personagens Ana Terra, Bibiana, capitão Rodrigo Cambará e Licurgo (Cambará). Acompanhamos, também, diversas guerras envolvendo ora disputas por territórios entre os países sul-americanos, ora disputas internas, com destaque para a tentativa do Rio Grande do Sul de ter autonomia em relação ao resto do Brasil.

Personagens marcantes 

Outros personagens, não pertencentes à família dos Terras e Cambarás, também se destacam, como o Padre Alonzo (início do romance), que dá a perspectiva dos espanhóis na época do Brasil colônia, e o personagem doutor Winter, um médico alemão, ateu, desiludido com a vida, que acaba chegando em Santa Fé e permanecendo ali pelo resto de sua vida.

Doutor Winter nos dá a perspectiva do estrangeiro, como uma perspectiva de fora sobre tudo que se passa em Santa Fé, sempre de forma sarcástica e crítica. Winter é o grande personagem intelectual do primeiro romance, sendo através dele trabalhadas algumas questões filosóficas envolvendo a questão do tempo. Contudo, essas questões são trabalhadas de forma desiludida pelo alemão.

A primeira metade de O Continente é fantástica, tornando difícil para o leitor largar o livro e ir fazer outras coisas. Já a segunda parte se arrasta um pouco, contudo também é muito boa e gera expectativas pelo que virá pela frente nos outros livros.

Livro nota 10.






quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Um estranho no ninho, de Ken Kesey

Capa do Livro Um estranho no ninho de Ken Kesey


Um Estranho no Ninho foi publicado nos Estados Unidos no ano de 1962 por Ken Kesey, que trabalhou durante a faculdade em um hospital psiquiátrico, lugar que foi a fonte de inspiração para o romance. O livro marcou época e foi adaptado, na década seguinte, para o cinema. O personagem principal foi interpretado por Jack Nicholson, vencedor do Oscar de melhor ator pela atuação no longa.

Enredo de Um estranho no Ninho

A história se passa em um hospital psiquiátrico, ambiente controlado pela enfermeira Ratched, conhecida como "A Chefona", que, através de jogos psicológicos, coage os pacientes a seguirem uma rotina rígida, que os torna totalmente passivos e destituídos da capacidade de tomarem suas próprias decisões.

O hospital é dividido em alas, e a história é centrada na ala dos pacientes que apresentam pouca propensão à agressividade. Eles são divididos em dois grupos: os agudos e os crônicos. Os crônicos são aqueles que apresentam pouca possibilidade de serem "curados" e retornarem para a sociedade, enquanto que os agudos são aqueles que respondem positivamente às técnicas empregadas pela enfermeira e pelos médicos.

Esse ambiente controlado e opressivo entra em colapso após a chegada de McMurphy, um presidiário transferido para o hospital devido a um comportamento classificado como anormal. Fica claro desde o início que McMurphy arquitetou sua ida para o hospital para fugir dos trabalhos forçados na penitenciária, desejando cumprir seus últimos meses de reclusão em um ambiente mais ameno e confortável.

Ao chegar à ala, McMurphy rapidamente assume o controle do lugar, não dando a menor importância às regras impostas pela "Chefona". McMurphy aposta com os pacientes que será capaz de dobrar a Chefona em uma semana. Contudo, a missão de McMurphy não foi simples, pois a Chefona possuía um arsenal de táticas de controle que garantiram a continuidade da sua ditadura naquele lugar.

A enfermeira Ratched não permite que ele desestabilize o ambiente controlado por ela. Com isso, a história é centrada no embate entre os dois, que rende grandes momentos devido ao confronto de personalidades e à discussão do que seria um comportamento considerado normal e o papel dos mecanismos de controle social na concepção dessa normalidade.


Cena do Filme Um estranho no ninho


Análise de Um estranho no ninho

O romance é narrado em primeira pessoa pelo personagem Chefe, um indígena de dois metros de altura que é um dos pacientes crônicos. O Chefe é tido por todos como surdo e mudo; com isso, os personagens não interagem com ele e, principalmente, os funcionários do hospital não se preocupam com o que dizem quando estão próximos dele.

Nós temos um narrador privilegiado pelo fato de ser quase invisível, apesar dos seus dois metros de altura. Contudo, o fato de o Chefe alternar entre momentos de lucidez e de psicose faz com que ele não possa ser considerado um narrador totalmente confiável. O Chefe acredita que existe uma organização, ligada ao governo, chamada de "A Liga", responsável por monitorar e controlar a sociedade, manipulando-a para que viva conforme os desejos e interesses da Liga.

O Chefe acredita que existem microfones escondidos em todos os cantos do hospital e que ocasionalmente a enfermeira dispersa no ar uma neblina, com o intuito de dificultar a capacidade de os pacientes pensarem e agirem. Também, durante a noite, ele vivencia momentos de terror na sua cama, pois acredita que o chão do dormitório é deslocado para o subsolo e lá, um lugar repleto de máquinas e robôs, os pacientes são torturados.

O fato de o Chefe apresentar psicose dá um toque especial à história, pois suas visões servem como alegorias e metáforas da situação vivenciada pelos pacientes que são a todo o momento sugestionados, podendo citar a música que toca em alto volume na enfermaria durante todo o dia, dificultando o desenvolvimento de pensamentos mais complexos, as medicações que provocam estado de letargia, as sessões em grupo, nas quais os pacientes são obrigados a exporem fatos da vida pessoal para que os demais possam opinar, e os famosos tratamentos com choque.

Um personagem resume bem a terapia com choque:

"Aquelas almas afortunadas lá dentro estão recebendo uma viagem à Lua de graça. Não, pensando bem, não é completamente gratuita. Você paga pelo serviço com células cerebrais em vez de dinheiro, e todo mundo tem bilhões de células cerebrais disponíveis. Você não sentirá falta de algumas delas."

Jack Nicholson Ator e cineasta americano


O romance é excepcional e fácil de ler. Sem dúvida a sua força não está tanto nos acontecimentos narrados ao longo do livro, mas sim nos personagens criados por Kesey, destacando a Chefona, o Chefe e McMurphy. Personagens que ficarão durante muito tempo na memória dos leitores. O filme é excelente e o livro melhor ainda.

Nota: 10
Gosta de romances que viraram filmes de sucesso? Então leia a resenha de outras grandes obras que viraram filmes:
IT: A Coisa, de Stephen king;
O grande Gatsby- Scott Fitzgerald

sábado, 28 de outubro de 2017

O estrangulador, de Sidney Sheldon



Capa do livro O estrangulador de Sidney Sheldon






A novela "O Estrangulador", ambientada em Londres, gira em torno de um assassino em série que tem por fito estrangular mulheres em noites chuvosas. A polícia inglesa tem por únicas informações, acerca do assassino em série, o fato de ele sempre atacar as suas vítimas em noites chuvosas, estrangulando-as com uma corda.

O sargento Sekio assume o caso, tendo a missão de rastrear o assassino em série, que até aquele momento não havia deixado nenhuma pista referente à sua identidade.

Fotografia de uma cidade em dia chuvoso


O contato do sargento Sekio com Akiko, uma moça que sobreviveu ao ataque, faz com que os dois se apaixonem. Paralelamente, o assassino decide procurá-la, pois ela viu o seu rosto. Com isso, temos o coração da trama policial de Sheldon.

Análise de O estrangulador


Diferente de muitos romances de mistério policial, nos quais não sabemos quem é o assassino, neste logo nas primeiras páginas o conhecemos e ainda descobrimos o porquê de ele matar as suas vítimas em noites chuvosas. Com isso, a emoção da novela fica pelo embate entre ele e o sargento Sekio, que vai aos poucos montando as peças do quebra-cabeça das motivações do assassino.

No geral, a novela é uma boa história policial, sendo uma leitura leve e descompromissada, podendo ser realizada em um único dia. O fato de não ter lapidado os personagens, bem como as suas motivações, faz com que a novela seja apenas regular, porém um bom passatempo.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A hora da estrela, de Clarice Lispector


Capa do livro A hora da estrela de Clarice Lispector




Publicado em 1977, A Hora da Estrela é considerado um dos grandes clássicos da literatura brasileira. A história tem duas camadas; na primeira ocorre uma participação ativa do escritor. Ele a todo o momento interrompe a narrativa para conversar com o leitor.

O autor busca justificar o fato de estar contando essa história. Ele afirma, em determinado trecho, que o livro não será lido pelos pobres, pois eles têm fome e quem tem fome não tem tempo para a literatura. A classe média é o leitor potencial e esperado do romance; com isso, o autor busca justificar o motivo de ter a necessidade quase que física de contar esses acontecimentos que fogem do seu cotidiano e do cotidiano daqueles que irão ler.

Enredo de A hora da estrela 

O livro narra a vida de Macabéa, uma imigrante nordestina que deixa o interior de Alagoas e se muda para o Rio de Janeiro.
Fotografia de Clarisse Lispector


Temos contato com a situação de exclusão vivenciada por Macabéa, pois ela faz parte de uma massa de excluídos devido a sua raça/etnia ou devido ao seu baixo capital cultural. Com isso, ela vive uma vida à margem da sociedade em uma das maiores metrópoles brasileiras.

Ela possui uma instrução precária. A sua principal fonte de cultura é um programa de rádio que ela ocasionalmente escuta. Macabéa trabalha em um escritório como datilógrafa, apesar de ter tido uma alfabetização precarizada. O salário dela, que mal dá para sobreviver, faz com que ela viva uma vida de privações, tanto alimentares quanto de lazer.

O fato de ter sido criada pela sua tia — criação fria e destituída de carinho — faz com que ela tenha uma autoestima baixa e dificuldade para sonhar ou ter esperança no futuro. O relacionamento com Olímpico, um metalúrgico paraibano, surge como possibilidade de a protagonista romper o domo que a cerca e se tornar capaz de se relacionar socialmente, mas ela não consegue ultrapassar essa barreira imposta por uma vida de privações.

A ideia de contar essa história parte de um encontro, em uma das ruas do Rio de Janeiro, entre o escritor e uma imigrante nordestina. No breve momento em que ele a vislumbrou, o escritor se sentiu capaz de captar a essência dela e, após esse contato, passou a desenvolver uma necessidade quase física de transportar esse encontro para as páginas de um livro, contando uma história sem nenhum tipo de preparo ou esquematização; simplesmente a história surgia na sua mente, sem ele ter o poder de mudar o destino da personagem.

Fica o questionamento do porquê de ele sentir a necessidade de contar esse relato. Talvez Macabéa seja a materialização de um urbano que foge do controle e extrapola as relações humanas. Em determinado trecho, ele afirma que a cidade é uma máquina e seus habitantes são apenas parafusos.

Imagem do filme A hora da estrela


O consumo em massa, a divisão do trabalho no modo de produção capitalista e o enfraquecimento dos laços afetivos dão pistas da alienação das pessoas que habitam em um grande centro urbano como o Rio de Janeiro.

Ele, enquanto artista, possui sensibilidade e uma aguçada apreensão da realidade, e sente a necessidade de externalizar seus sentimentos referentes à vida na modernidade. Macabéa surge como objeto de construção de sua obra, pois ela é a materialização de um urbano repleto de contradições. Esse urbano é fruto da proximidade espacial das pessoas em determinado território; contudo, apesar de atrair cada vez mais as pessoas, é excludente e impessoal, permanecendo muitos habitantes à margem do social, tal como Macabéa, uma protagonista improvável para um romance escrito para a classe média.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Sonhos de Bunker Hill, de John Fante


Capa do livro Sonhos de Bunker Hill de John Fante


O romance tem por protagonista Arturo Bandini, um jovem escritor que deixa o Colorado para ir morar em Los Angeles. Apesar de o livro ter sido escrito nos anos oitenta, é ambientado nos anos trinta, época de ouro do cinema americano.

Ao chegar em Los Angeles, Bandini, alter ego de Fante, vai morar no subúrbio, no bairro Bunker Hill. Após ficar um tempo trabalhando como garçom, tem um dos seus contos publicado em uma revista.

Fotografia de John Fante

Hollywood engole Bandini


A boa aceitação de seu conto fez com que algumas portas se abrissem para Bandini, que deixa o emprego de garçom para trabalhar em Hollywood como roteirista. Com isso, Bandini rapidamente ascende na pirâmide social, deixando para trás o subúrbio e as dificuldades financeiras. Contudo, a trajetória de Bandini em Hollywood se mostra tortuosa, envolvendo-se tanto com bebidas quanto com mulheres.

Em determinado trecho, Bandini afirma ter a impressão de que as pessoas em Hollywood aparentam ser apenas nomes, ou seja, como se não fossem reais. Aliás, tudo ali parece ser irreal e superficial, fato que fez com que Bandini se sentisse deslocado nesse ambiente — ao contrário de Bunker Hill, onde ele era capaz de ordenar seus pensamentos e se sentir seguro e vivo.

Com isso, vemos que a periferia da cidade, sendo o lugar onde o cotidiano de boa parte da população se dá, tem uma materialidade maior do que Hollywood, lugar de entretenimento e espetáculo, que se mostra frio e impessoal. Conforme a história vai se desenrolando, cada vez mais Bandini vai se perdendo. Quando deixou o Colorado, ele buscava em Los Angeles e na literatura uma forma de sentido para a sua vida; contudo, ele não foi capaz de encontrar esse sentido ali.

Sua formação católica e, consequentemente, dogmática permanece em constante embate com a sua formação artística, de caráter mais liberal. A sua aparente necessidade de sexualizar todas as mulheres, sua constante dificuldade de consumar as relações sexuais e o posterior arrependimento de "estar em pecado" mostram esse embate que ocorre na consciência do personagem, que vive transitando entre o divino e o profano.

A rápida ascensão de Bandini, sem ter uma produção literária consolidada, fez com que ele não se sentisse seguro para escrever, pois ficava com a sensação de que, tão rápida e fácil quanto foi a sua ascensão, a queda seria na mesma medida.
Fotografia do suburbio de Los Angeles

Somou-se a isso a desilusão do personagem com Hollywood e a não valorização ou busca pelo talento verdadeiro. O estúdio que o contrata não lhe dá projetos para trabalhar e, quando lhe dá, o resultado final é completamente diferente daquilo que ele escrevera.

Em uma época em que a indústria do entretenimento alcançava um patamar nunca antes visto, diversos jovens escritores talentosos se dirigiram até Hollywood em busca de fama e reconhecimento; contudo, esse mundo de nomes e não de seres humanos os sugou para dentro de si. Perderam-se muitos talentos em meio a esse turbilhão, restando ao leitor a expectativa referente ao futuro de Bandini.

Nota: 10.




quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O caçador de Androides, de Philip Dick


Capa do livro O caçador de Androides de Philip Dick


O Caçador de Androides é considerado um dos melhores romances de ficção científica já escritos. Seu sucesso colocou em evidência o escritor Philip K. Dick, conhecido pela disseminação de teorias ligadas à artificialidade da nossa existência, tais como as teorias popularizadas pelo filme Matrix, nas quais inteligências superiores, artificiais ou não, são responsáveis pela produção da nossa realidade.
Fotografia de Philip Dick

Dick conseguiu com maestria, no transcorrer do livro, fazer com que o leitor sinta a atmosfera claustrofóbica de um planeta Terra destruído pela raça humana.

O filme estrelado por Harrison Ford, intitulado Blade Runner, contribuiu para a fama da história de Dick; contudo, o livro tem algumas diferenças em relação ao filme, diferenças que contribuem para dar uma voz própria ao romance.

Enredo de O caçador de Androides


Em um mundo futurista destruído após uma grande guerra chamada Terminus, o planeta Terra ficou quase inabitável devido a uma camada de poeira que tomou conta da atmosfera, provocando o fim de muitos ecossistemas.

Os seres humanos que possuíam uma posição social mais elevada migraram para outros planetas, reconstruindo suas vidas em colônias como Marte. Os que não possuíam condições financeiras para tanto foram obrigados a permanecer no que restou do planeta Terra. Com isso, a Terra foi literalmente deixada para aqueles pertencentes a uma classe social mais baixa ou aqueles com algum tipo de deficiência, seja física, provocada pela guerra, seja mental.

Os poucos animais que foram capazes de sobreviver a esse ambiente cada vez mais hostil se transformaram em artigos de luxo, sendo negociados por grandes somas. Nesse mundo, ter um animal de estimação — seja um cachorro, ovelha ou bode — significa um sinal de status, pois, no que restou da vida social, poder ter um animal de estimação é um privilégio para poucos.

Poster do filme Blade Runner


Rick Deckard

O personagem principal, Rick Deckard, é um caçador de androides a serviço da polícia de São Francisco. Os androides foram desenvolvidos para servirem aos humanos nas colônias estabelecidas em outros planetas. Conforme foram criados androides cada vez mais inteligentes, fortes e parecidos com os seres humanos, foi desenvolvido um dispositivo que limitava a vida útil de um androide para, no máximo, quatro anos; ou seja, após quatro anos, eles deixam de funcionar.

Um grupo de androides da última geração foge da colônia e vai para o planeta Terra para viver sem ser escravizado pelos humanos. Deckard é designado para caçá-los e "aposentá-los", expressão sinônimo de extermínio de androides.

Deckard não gosta de sua profissão e não se sente estimulado a praticá-la; contudo, a morte de sua ovelha e a consequente substituição por uma ovelha sintética fazem com que ele busque dinheiro para comprar um animal de verdade. Como já foi dito, ter um animal de verdade é um sinal de status, e Deckard se preocupa com o que seus vizinhos pensam dele.

Com isso, acompanhamos Deckard na caçada aos androides; contudo, conforme ele vai matando-os, questões existencialistas vão aos poucos tomando conta dele.

Os novos androides são muito parecidos com seres humanos; o principal diferenciador é a empatia. Os androides, em tese, são incapazes de sentir empatia, seja por um animal, seja por um humano, seja por outro androide. Contudo, ao realizar os testes nos androides, Deckard percebe que a nova geração consegue ser capaz, em alguns momentos, de ter sentimentos que se aproximam da empatia, podendo ser citado o fato de os androides se auxiliarem durante a fuga, trabalhando em equipe para garantir a sobrevivência de todos.

Arte do filme Blade Runner



No transcorrer do romance, conforme temos contato com os androides — inclusive com os androides que não sabem que são androides — vamos notando o quão parecidos com os humanos eles são; enquanto que, ao termos contato com o modo de vida dos humanos nessa Terra em degradação, vamos percebendo o quão artificiais eles se tornaram. Pode-se citar o aparelho, que quase todos os habitantes possuem em suas casas, responsável por criar artificialmente as mais variadas emoções, indo desde a alegria até a tristeza. Nesse mundo, os seres humanos passam cada vez mais imersos em si mesmos, tendo pouco contato interpessoal, fato que gera uma sociedade cada vez mais desumanizada, seja pelo planeta em degradação, seja pela artificialidade cada vez mais necessária para que os mesmos fujam da realidade.

Com isso, a todo o momento, diante da humanização dos androides e da desumanização dos humanos, nos perguntamos quem são os verdadeiros humanos, ou até que ponto a ciência pode ser capaz de tanto criar novas formas de vida quanto tornar a vida humana o mais artificial possível.

O Caçador de Androides é um livro fantástico, no qual , ao nos debruçarmos sobre o mesmo, diversas questões existencialistas nos acometem, gerando uma reflexão sobre o que é ser humano.

Nota: 10.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A Humilhação, de Philip Roth



CAapa do livro A Humilhação, de Philip Roth


Philip Roth foi um dos mais prestigiados escritores americanos da segunda metade do século vinte e início do século vinte e um. Falecido recentemente, deixou de publicar livros alguns anos antes de morrer.

Diversas de suas obras foram transpostas para o cinema; seus personagens foram interpretados por grandes atores, tais como Al Pacino e Anthony Hopkins.

A sociedade americana é o grande tema dos livros de Roth. Ele é um grande intérprete da cultura americana, sempre focando suas obras em temas controversos e em personagens problemáticos e profundos.

Fotografia de Philip Roth


Resenha de A Humilhação, de Philip Roth


O romance "A Humilhação", publicado em 2009, foi um dos últimos livros publicados por Roth. A história gira em torno de um grande astro do teatro americano que, de uma hora para a outra, torna-se incapaz de interpretar.

Após seu último trabalho no teatro ser um fracasso total de público e crítica, Axler se refugiou na sua mansão e começou a ter pensamentos suicidas diante do fracasso naquilo que fazia dele uma pessoa especial.

Após Axler se tornar incapaz de atuar, ele perdeu o seu chão, pois perdeu aquilo que o tornava vivo; ou seja, tudo deixou de fazer sentido, restando apenas a morte para ele. Nesse momento, Axler se encontrou em uma encruzilhada na qual necessitava de uma mudança radical na sua vida para que pudesse continuar em frente.

Ao se aproximar da filha de antigos amigos — uma lésbica vinte e cinco anos mais nova do que ele, que passava por um momento parecido com o de Axler no sentido de se encontrar em uma encruzilhada, sem saber que caminho tomar — os dois acabam vivendo um romance nada convencional.

Cena do filme A Humilhação


Algumas questões permeiam a obra, deixando o leitor em suspenso, podendo ser citadas: que humilhação é essa que dá o título à história? Será que Axler voltará a atuar?

Philip Roth desenvolveu uma história envolvente e profunda sobre a tentativa daqueles que viveram como reis, sempre com a sensação de que poderiam fazer qualquer coisa, de se reerguerem após a queda e o mergulho em uma realidade frustrante.

Nota: 8.

domingo, 10 de setembro de 2017

A longa Marcha, de Stephen King


Capa do livro A longa Marcha, de Stephen King


Stephen King publicou alguns de seus livros com o pseudônimo de Richard Bachman. Segundo ele, o objetivo era testar o quão era capaz de vender livros sem a influência de seu nome; ou seja, ele queria saber até que ponto era capaz de criar boas histórias sem que a sua fama influenciasse a avaliação do leitor. A Longa Marcha foi um desses livros.

Publicado em 1979, se tornou um dos livros preferidos entre os leitores de King, sempre citado entre os melhores nas diversas listas publicadas na internet.

Fotografia de Stephen King


Resenha de A longa Marcha, de Stephen King

A história pode ser considerada uma distopia, pois ela se passa em um futuro sombrio;nou seja, difere da visão de futuro no qual a humanidade estaria caminhando a passos largos para um mundo melhor, no qual a humanidade finalmente realizaria o sonho do paraíso na Terra.

Na história, somos apresentados, logo no início, ao personagem Garraty, um rapaz de 17 anos nascido e criado no Maine, que se prepara para participar de um reality show intitulado "A Longa Marcha".

Basicamente, o reality show se resume a um grupo de 100 jovens entre 15 e 18 anos que iniciam uma caminhada no estado do Maine, indo em direção ao sul da América. Os competidores não podem parar de andar e nem sair da estrada. Cada vez que, por qualquer motivo, algum jovem para de andar, ele é advertido; e, após três advertências, é eliminado. O último que continuar andando vence e ganha o prêmio, que é o que ele quiser.

A Longa Marcha é transmitida pela televisão, sendo o evento de maior audiência na TV americana. Ao longo do trajeto, milhares de americanos se posicionam na beirada da estrada para acompanhar ao vivo a marcha; ou seja, é o principal evento de entretenimento dos Estados Unidos.

Arte do livro A longa Marcha, de Stephen King. Uma estrada e pessoas cansadas caminhando

O que torna a Longa Marcha terrível é o fato de que todo jovem que não consegue mais andar é literalmente eliminado. Soldados armados de metralhadoras acompanham o trajeto dos garotos, sendo responsáveis por aplicar as advertências e eliminar, através de uma saraivada de balas, os competidores que, porventura, parem.

Durante a leitura, duas questões se apresentam ao leitor, sendo elas: por que jovens aceitariam participar de um reality show desses? E por que as pessoas gostariam de acompanhar esse entretenimento macabro?

Stephen King vai, no transcorrer das páginas, contando aos poucos a história de vida dos principais personagens, mostrando como e por que eles se inscreveram na Longa Marcha; junto a isso, ele vai, ao descrever os espectadores da caminhada, mostrando o quão capazes são as pessoas de, apesar desse verniz de racionalidade e civilização, cultuarem o grotesco e o sórdido.

Fica evidente que os espectadores acompanham a marcha com a expectativa de ver os rapazes serem eliminados, e ficamos a todo o momento com a impressão de que eles perderam a noção de que aquilo é real; ou seja, não são mais capazes de separar a fantasia da realidade.

O livro é muito bom, sendo capaz de prender a atenção do leitor até o seu desfecho. O curioso é que o leitor acaba partilhando com a multidão da posição de espectador desse entretenimento macabro, torcendo por determinados personagens e odiando outros.

A Longa Marcha é uma história incrível e envolvente como só Stephen King é capaz de criar, sendo um livro fundamental para os fãs do gênero do terror.

Nota: 9.

Gosta de Stephen King? Leia outras resenhas de obras do autor:
Mr. Mercedes, de Stephen King;
IT: A Coisa, de Stephen king.







segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski


Capa de O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski


O Sonho de um Homem Ridículo é uma narrativa fantástica publicada por Dostoiévski em 1877, em uma revista mantida pelo autor. A história pode ser considerada um conto devido ao seu tamanho, de cerca de trinta páginas. Na edição da Editora 34, foi publicada juntamente com o conto "A Dócil", sendo ambas narrativas que envolvem o tema do suicídio.

Resenha de O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski 

Apesar de tratar de um tema bastante real, a narrativa é considerada fantástica pois, após um sonho extremamente vívido, porém irreal, o personagem decide mudar o rumo de sua vida.

A história é narrada em primeira pessoa por um homem que não só é tido como ridículo por aqueles que o conhecem, mas que também se considera ridículo. O fato de rirem dele e fazerem de seus hábitos motivos de chacota apenas confirma uma visão extremamente depreciativa que ele tem de si mesmo. Contudo, tudo muda após ele chegar ao fundo do poço e decidir cometer suicídio.

Pintura simbolizando um homem atormentado no inferno

O desejo de cometer suicídio surge após a constatação de que ele não era nada e que tudo no mundo também não era nada; ou seja, para ele tudo era indiferente. Com isso, não havia razão para continuar vivo, haja vista que nada fazia sentido ou valia a pena.

Antes de cometer o suicídio, ele adormece em sua poltrona, tendo um sonho no qual ele, após cometer suicídio, é carregado por um ser até um outro planeta Terra. Nesse planeta Terra, os seres humanos são perfeitos e vivem uma vida livre de doenças e crimes. Nessa Terra, todos trabalham pelo bem comum e se amam, sem haver espaço para qualquer tipo de distinção social. Nesse lugar, em uma dimensão paralela à nossa, o pecado original — ou seja, o pecado de Adão e Eva — não ocorreu. Com isso, os seres humanos não tiveram a sua perfeição corrompida.

Apesar de se maravilhar com esse mundo perfeito, o personagem, longe de compartilhar essa perfeição, questiona o fato de eles não possuírem a nossa ciência. O fato de não serem contaminados com o pecado e serem plenamente felizes fez com que não sentissem a necessidade do conhecimento que move a nossa humanidade, além do fato de não terem a necessidade de transformar a vida deles. Eles, vivendo uma vida perfeita, não tinham a necessidade de criar leis para os guiar até um mundo melhor.

Também a relação deles com a natureza é totalmente diferente da relação que mantemos com ela. Enquanto buscamos dominá-la e transformá-la, eles buscavam um relacionamento orgânico com a natureza.

Desenho de uma pessoa deitada com o coração partido

Sendo imperfeito, o personagem sentiu a necessidade de tentar impressioná-los com as maravilhas do nosso mundo e, com isso, acabou pervertendo-os.

Ele lhes ensinou a mentira, a volúpia, o ciúme, entre outros. Com isso, eles começaram a lutar entre si, gerando um mundo violento, tal como o nosso. Conforme o caos foi tomando esse planeta, eles começaram a criar leis para tentar contornar esse mal. Com isso, surgiu a justiça e a organização social segundo uma série de regras estabelecidas pelos governos. Eles se esqueceram de que já foram inocentes um dia e começaram a buscar, através da ciência, um mundo perfeito. A busca por esse mundo melhor através do conhecimento esbarrou nos desejos individuais de cada um, e guerras foram travadas em nome de um mundo melhor.

Ele tentou exortá-los a retornarem para aquela essência perdida no passado — essência essa que não se conquista com a ciência criada pelo homem —, mas eles não acreditavam mais nessa essência e o ignoraram.

O Homem Ridículo acordou do sonho transformado, com a convicção de que as pessoas podem ser felizes na Terra, pois o mal não é o estágio inicial do homem; a humanidade nasceu da perfeição e tem, na sua origem, o amor como principal meta de vida.

Com isso, ele passou a desconfiar da capacidade de a ciência transformar o mundo, pois não somos fruto de uma evolução como ele acreditava antes. Ou seja, não estamos evoluindo de um estágio primitivo para um estágio superior através da ciência, mas sim partimos de um estágio superior para um inferior devido ao fato de depositarmos as nossas esperanças no conhecimento do homem, esquecendo nossa origem divina e perfeita.

sábado, 12 de agosto de 2017

A garota no trem, de Paula Hawkins


Capa do livro A garota no trem, de Paula Hawkins


A Garota no Trem, romance de estreia da escritora inglesa Paula Hawkins, é um thriller policial publicado no ano de 2015. Seu sucesso, sendo comparado ao romance "Garota Exemplar", rendeu fama a Hawkins e a adaptação da história para o cinema.

Resenha de A garota no trem, de Paula Hawkins

O romance tem por protagonista uma mulher na casa dos trinta anos, chamada Rachel, que passa pelo pior momento da sua vida. Seu casamento fracassou devido ao seu vício em bebidas e à impossibilidade de engravidar; e, para completar, ela perdeu o emprego após chegar bêbada ao trabalho.

Cena do filme A garota no trem. Uma mulher olhando pela janela


Ela mora na casa de uma amiga de faculdade e passa seus dias tentando esconder de todos a perda do emprego e o seu vício em bebidas. Para tanto, todos os dias de manhã, ela pega o trem na cidade em que mora e viaja até Londres, onde ficava o seu antigo trabalho, passando o dia vagando pela cidade para, no fim do dia, retornar para a cidade em que mora. Com isso, todos que a conhecem acham que ela continua trabalhando.
Nesse trajeto diário de trem, ela passa na frente da casa em que morou antes da separação; atualmente, seu ex-marido mora com a atual esposa no local. Apesar da separação, Rachel não consegue esquecer seu ex-marido e sua antiga vida; com isso, fica perseguindo-o, principalmente nos momentos em que está bêbada.

Rachel tem por principal passatempo ficar observando pela janela do trem as paisagens do trajeto, sempre imaginando como seria a vida das pessoas que ela observa. Um jovem casal, Tom e Megan, que comprou a casa vizinha à sua antiga casa, chama a atenção de Rachel devido à beleza do casal, além da sintonia que os dois demonstram nos raros momentos em que Rachel consegue avistá-los do trem.

Essa rotina de Rachel muda após ela ver a mulher idealizada beijando outro homem em um bar. Dias depois, em um de seus momentos de embriaguez, Rachel vai até a casa de seu ex para confrontá-lo. No dia seguinte, ela não se lembra de nada do que aconteceu na noite anterior. Contudo, a notícia de que Megan desapareceu na noite anterior faz com que Rachel suspeite de que tenha visto algo enquanto passava pela rua em que eles moram.

Rachel, apesar de nunca ter tido contato com o casal, se solidariza com a tragédia, principalmente com o marido, que é tido como o principal suspeito. Com isso, ela decide ajudar na solução do desaparecimento de Megan, envolvendo-se diretamente na trama.

Cena do filme A garota no trem. uma mulher andando na estrada sozinha



O romance é narrado em primeira pessoa por três personagens femininas, sendo elas: Rachel, Megan e Anna (atual esposa do ex-marido de Rachel). A narrativa se dá em formato de diário, sempre com cada uma delas contribuindo com uma peça do quebra-cabeça da história. O interessante desse formato de narrativa é que ele proporciona três olhares diferentes sobre o que está acontecendo na trama, auxiliando o leitor na compreensão do enredo. Contudo, o leitor deve ficar atento para o fato de que nem sempre o relato de cada uma delas poderá ser tomado como verdade; inclusive, uma acaba sempre contradizendo a visão da outra.

O romance é claramente inspirado no filme "Janela Indiscreta", de Hitchcock; contudo, a autora foi capaz de dar vida própria à sua história, sendo uma boa história policial, capaz de prender o leitor, que em nenhum momento se cansa da leitura. Sem dúvida, um bom livro do gênero policial.

Nota: 8.





sábado, 5 de agosto de 2017

Não conte a ninguém, de Harlan Coben


Capa do livro Não conte a ninguém, de Harlan Coben

Harlan Coben é um dos escritores americanos mais lidos na atualidade. Seus livros vendem milhões de cópias, tornando-se facilmente best-sellers. Seu estilo de escrita é simples, buscando, com imagens impactantes em sequência e sem perder muito tempo com reflexões, gerar um clima de suspense eletrizante. Com isso, seus livros têm por principal característica a fácil assimilação por parte do leitor.

Cena do filme Não conte a ninguém, de Harlan Coben. Homem e mulher diante de um computador



O romance "Não Conte a Ninguém", publicado originalmente em 2001, é um thriller policial capaz de tirar o fôlego do leitor que acompanha, no transcorrer da história, o desenrolar de uma trama que se inicia como um conto de fadas para rapidamente se converter em um pesadelo.

Resenha de Não Conte a Ninguém

Um jovem casal apaixonado é atacado por um assassino em série no dia do aniversário de namoro. Apenas o rapaz, o doutor David, sobrevive, vivendo os posteriores oito anos de sua vida sem superar a tragédia, mesmo sabendo que o assassino foi julgado e condenado.

Tudo muda no dia do aniversário de namoro dos dois, quando David recebe um e-mail que o leva a crer que sua mulher está viva. Junto a isso, o surgimento de dois corpos próximos ao local onde ele e sua mulher foram atacados faz com que a polícia reabra o caso, sendo David o principal suspeito de matar a sua mulher.

Enquanto David investiga a origem daqueles e-mails e enfrenta as acusações da polícia, um poderoso homem de negócios, ligado a atividades criminosas, coloca seus homens na cola de David por motivos que David desconhece. Com isso, temos as peças que compõem o quebra-cabeça da trama.

A história é narrada, na maior parte do livro, em primeira pessoa por David, que vai aos poucos desvendando o mistério que o cerca, enquanto foge da polícia e da organização criminosa. O leitor partilha da confusão vivida por David, descobrindo aos poucos os motivos por trás dos e-mails e de sua perseguição.
Cartaz do filme Não conte a ninguém


O título está relacionado a uma exigência feita por quem está mandando os e-mails para David: a exigência de ele não contar a ninguém sobre o que estava acontecendo. Com isso, fica evidente que todos são suspeitos e David não pode confiar em ninguém.

O romance "Não Conte a Ninguém" é um bom thriller policial, fazendo jus à fama de Coben de criar histórias capazes de envolver o leitor até as últimas páginas, sendo uma leitura leve, prazerosa e descompromissada.

Nota: 8.