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terça-feira, 19 de abril de 2022

Kaschtanka e outras histórias, de Anton Tchekhov

 

Capa do livro Kaschtanka e outras histórias de Tchekhov

O pequeno livro de contos do escritor russo Anton Tchekhov impressiona pela leveza das histórias. Nesse livro, somos agraciados com sete pequenos contos que retratam com leveza o cotidiano da Rússia pré-revolucionária.

O conto que dá nome ao livro é sobre uma cachorra castanha (daí o nome Kaschtanka, castanho em russo) que se perde de seu dono, habitando na casa de um artista. Apesar de ser o conto mais extenso, outros contos acabam encantando o leitor, como a história de um rapaz em férias que, sempre quando desce um morro em um trenó na companhia de uma amiga, diz "eu te amo". A moça fica sempre indecisa se realmente ouviu aquelas palavras ou se foi o seu nervosismo pregando-lhe uma peça.

Outro conto que se destaca é a história de um oficial que, após um cachorro morder um senhor na rua, fica em dúvida sobre qual atitude tomar, pois teme que o cachorro possa pertencer a alguma autoridade. Essa coletânea de contos pode ser uma boa porta de entrada para o universo de Tchekhov e da literatura russa. 
É uma leitura leve e agradável.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski


Capa de O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski


O Sonho de um Homem Ridículo é uma narrativa fantástica publicada por Dostoiévski em 1877, em uma revista mantida pelo autor. A história pode ser considerada um conto devido ao seu tamanho, de cerca de trinta páginas. Na edição da Editora 34, foi publicada juntamente com o conto "A Dócil", sendo ambas narrativas que envolvem o tema do suicídio.

Resenha de O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski 

Apesar de tratar de um tema bastante real, a narrativa é considerada fantástica pois, após um sonho extremamente vívido, porém irreal, o personagem decide mudar o rumo de sua vida.

A história é narrada em primeira pessoa por um homem que não só é tido como ridículo por aqueles que o conhecem, mas que também se considera ridículo. O fato de rirem dele e fazerem de seus hábitos motivos de chacota apenas confirma uma visão extremamente depreciativa que ele tem de si mesmo. Contudo, tudo muda após ele chegar ao fundo do poço e decidir cometer suicídio.

Pintura simbolizando um homem atormentado no inferno

O desejo de cometer suicídio surge após a constatação de que ele não era nada e que tudo no mundo também não era nada; ou seja, para ele tudo era indiferente. Com isso, não havia razão para continuar vivo, haja vista que nada fazia sentido ou valia a pena.

Antes de cometer o suicídio, ele adormece em sua poltrona, tendo um sonho no qual ele, após cometer suicídio, é carregado por um ser até um outro planeta Terra. Nesse planeta Terra, os seres humanos são perfeitos e vivem uma vida livre de doenças e crimes. Nessa Terra, todos trabalham pelo bem comum e se amam, sem haver espaço para qualquer tipo de distinção social. Nesse lugar, em uma dimensão paralela à nossa, o pecado original — ou seja, o pecado de Adão e Eva — não ocorreu. Com isso, os seres humanos não tiveram a sua perfeição corrompida.

Apesar de se maravilhar com esse mundo perfeito, o personagem, longe de compartilhar essa perfeição, questiona o fato de eles não possuírem a nossa ciência. O fato de não serem contaminados com o pecado e serem plenamente felizes fez com que não sentissem a necessidade do conhecimento que move a nossa humanidade, além do fato de não terem a necessidade de transformar a vida deles. Eles, vivendo uma vida perfeita, não tinham a necessidade de criar leis para os guiar até um mundo melhor.

Também a relação deles com a natureza é totalmente diferente da relação que mantemos com ela. Enquanto buscamos dominá-la e transformá-la, eles buscavam um relacionamento orgânico com a natureza.

Desenho de uma pessoa deitada com o coração partido

Sendo imperfeito, o personagem sentiu a necessidade de tentar impressioná-los com as maravilhas do nosso mundo e, com isso, acabou pervertendo-os.

Ele lhes ensinou a mentira, a volúpia, o ciúme, entre outros. Com isso, eles começaram a lutar entre si, gerando um mundo violento, tal como o nosso. Conforme o caos foi tomando esse planeta, eles começaram a criar leis para tentar contornar esse mal. Com isso, surgiu a justiça e a organização social segundo uma série de regras estabelecidas pelos governos. Eles se esqueceram de que já foram inocentes um dia e começaram a buscar, através da ciência, um mundo perfeito. A busca por esse mundo melhor através do conhecimento esbarrou nos desejos individuais de cada um, e guerras foram travadas em nome de um mundo melhor.

Ele tentou exortá-los a retornarem para aquela essência perdida no passado — essência essa que não se conquista com a ciência criada pelo homem —, mas eles não acreditavam mais nessa essência e o ignoraram.

O Homem Ridículo acordou do sonho transformado, com a convicção de que as pessoas podem ser felizes na Terra, pois o mal não é o estágio inicial do homem; a humanidade nasceu da perfeição e tem, na sua origem, o amor como principal meta de vida.

Com isso, ele passou a desconfiar da capacidade de a ciência transformar o mundo, pois não somos fruto de uma evolução como ele acreditava antes. Ou seja, não estamos evoluindo de um estágio primitivo para um estágio superior através da ciência, mas sim partimos de um estágio superior para um inferior devido ao fato de depositarmos as nossas esperanças no conhecimento do homem, esquecendo nossa origem divina e perfeita.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Notas do Subsolo, de Fiodor Dostoievski


Capa do livro Notas do Subsolo, de Dostoievski

Ao ler Notas do Subsolo, romance publicado em 1864, adentramos de cabeça no labirinto escuro da mente humana. A inteligência e a cultura do autor das memórias não facilitam essa viagem, porquanto, ao racionalizar todos os fatos relacionados à existência humana, o autor traz mais questionamentos do que certezas sobre os mais variados temas.

Resenha de Notas do Subsolo

Pintura de um jovem na natureza olhando para o nada

Todos os fatos relacionados à vida do autor das memórias são apresentados pelo próprio autor; com isso, não somos capazes de separar as verdades das mentiras. Enxergamos todos os eventos pelos olhos do narrador, que, em diversos momentos, nos alerta a não confiar no que ele diz.

No transcorrer da primeira parte do romance, o autor das memórias busca desmistificar, através do questionamento, fatos e certezas largamente propagados pelas ciências humanas no século XIX. O positivismo, bem como as ideias naturalistas, são amplamente atacados.

Os ideais capitalistas e socialistas também são alvos, porquanto, segundo ele, buscam revelar um mundo em que o ser humano segue um determinado padrão ou regra. Seja o capitalismo, onde se acredita que a busca pelo desenvolvimento pessoal e a livre concorrência contribuem para o desenvolvimento da sociedade, ou pelas ideias socialistas, onde o bem-estar social e a coletividade estariam no centro da preocupação humana, contribuindo para um mundo melhor.

"O homem, invariavelmente e em todo lugar, quem quer que ele seja, sempre gostou de fazer o que quis, e não como mandam a razão e o interesse próprio; ele, inclusive, pode querer algo contra seus próprios interesses, e às vezes até deve indubitavelmente querê-lo."

Para ele, o ser humano é guiado pelas suas vontades, sendo boa parte delas inexplicáveis e incompreensíveis; com isso, não há como, através da razão, racionalizá-las ou prevê-las.

"E por que os senhores estão assim tão firmes e solenemente convencidos de que apenas o que é normal e positivo, ou seja, o bem-estar, é vantajoso para o homem? A razão não estará cometendo um erro quanto às vantagens? Quem sabe o homem ame não apenas o bem-estar? Quem sabe ele ame igualmente o sofrimento? Quem sabe o sofrimento é para ele tão vantajoso quanto o bem-estar? O homem, às vezes, ama o sofrimento de maneira terrível, apaixonada; isso é um fato."

O autor questiona os valores modernos embasados na racionalidade, mostrando quão perverso e inconstante o ser humano pode ser. Segundo ele, existem dois tipos de homens: os homens de ação e os homens de consciência amplificada.

Para ele, o homem de ação não está preocupado com as implicações filosóficas de seus atos; ele simplesmente encontra um objetivo e lança-se a ele sem pensar muito. Esse homem, diante de sua vontade, é capaz de se apegar a qualquer justificativa, por mais absurda que seja, para o seu ato. Ele é um imbecil, sendo o verdadeiro homem criado pela mãe natureza.

"Ele é um imbecil, indiscutivelmente, mas pode ser que o homem normal deva ser mesmo um imbecil, quem sabe? Pode ser que isso seja até muito bonito."

Já o homem de consciência amplificada é a antítese do homem normal, sendo que, ao contrário deste, ele não surgiu da natureza, mas sim de um tubo de ensaio. Ele é fruto de sua época, introjetando todo o discurso científico e lógico com o qual tem contato. Contudo, essa consciência faz com que o mesmo seja incapaz de agir, porquanto a consciência acaba sendo uma doença, por levar o homem a uma série de questionamentos, impedindo-o de agir e gerando um estado de inércia.

"O homem de proveta às vezes vai dobrar-se tanto diante de sua antítese que, com toda a sua consciência amplificada, honestamente vai se considerar um camundongo, e não um homem."

"Por acaso um homem com consciência pode ter amor-próprio?"

Segundo o autor das memórias, o homem de ação é ativo pois é limitado; ele é capaz de rapidamente se vestir de qualquer motivo para legitimar sua causa, sem questionar-se sobre esses motivos, ele simplesmente age. Já o homem de consciência amplificada possui muitas dúvidas e incertezas e está sempre pronto a rever seus motivos, inutilizando, com isso, a ação.

"Onde estão os fundamentos? De onde vou tirá-los? Faço uma ginástica mental e, em consequência, cada motivo original imediatamente arrasta atrás de si outro, ainda mais original, e vai por aí fora, até o infinito."

Esse homem questionador não irá encontrar o seu lugar no mundo, indo habitar no subsolo. Com isso, o mesmo não é arrastado para o subsolo, mas sim, de boa vontade, o habita. Não há outro lugar para ele; o mundo pertence ao homem de ação, sendo o subsolo o local destinado ao homem de consciência amplificada, por ser incapaz de se enganar.

Em uma Europa dominada pelo culto à razão, justamente a mesma acaba sendo responsável por impossibilitar o convívio em sociedade, sendo o ato de se iludir necessário para se viver em sociedade.

"Eu apenas levei às últimas consequências na minha vida aquilo que os senhores não tiveram coragem de levar nem à metade, e ainda por cima acharam que sua covardia era bom-senso, consolando-se e enganando a si próprios com isso."

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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Os demônios -Fiódor Dostoiévski



Capa do livro Os demônios -Fiódor Dostoiévski

Apesar de Dostoiévski ser reconhecidamente um dos maiores nomes da literatura mundial, ele não era bem visto na União Soviética. Seus livros causavam certo desconforto no regime, não servindo para a propagação dos ideais comunistas. Com isso, Dostoiévski foi tachado de reacionário, relegado a um segundo plano em detrimento de outros escritores contemporâneos a ele.

O desconforto criado pelos seus livros se deve ao fato de Dostoiévski procurar, em suas obras, compreender e discutir as influências das paixões e sensações na caracterização psicológica do indivíduo, podendo ser considerado um existencialista. Para ele, o ser humano é dividido em duas vertentes: uma racional e outra mística.

Vale lembrar que, no século XIX, predominavam na Europa os ideais positivistas. Ou seja, em oposição às ideias religiosas que predominavam na Idade Média — ideias essas embasadas no criacionismo —, buscava-se organizar a sociedade através do conhecimento racional e científico, tido como verdadeiro. Contudo, Dostoiévski ia na contramão desse movimento, porquanto acreditava que o ser humano não poderia apenas ser entendido através de suas ações racionais. Para ele, o ser humano possui uma vertente mística, no sentido de não ser possível compreender determinados comportamentos através da análise científica racional.

Para ele, o ser humano é dotado de subjetividade, sendo seu comportamento fruto da racionalidade juntamente com as paixões. Após ser preso por tramar contra a vida do czar russo, Dostoiévski passou alguns anos em uma prisão na Sibéria. Essa experiência resultou no livro "Recordações da Casa dos Mortos". Na prisão, Dostoiévski conviveu com perigosos detentos, muitos deles assassinos. Ao compartilhar do mesmo cotidiano com esses detentos, Dostoiévski verificou que eles não eram  diferentes das pessoas tidas como normais. Muitos desses assassinos partilhavam das mesmas paixões e desejos encontrados em todas as pessoas, sendo capazes de ser sensíveis, simpáticos e de amarem.

Para Dostoiévski, o que os diferencia do resto da sociedade é o fato de terem cruzado a linha que determina o comportamento socialmente aceito. Com isso, Dostoiévski mostrará, através de seus livros, que as paixões humanas têm um papel importante na formação humana, sendo parte constituinte do ser humano, estando, com isso, o indivíduo em constante embate entre seu lado racional e emocional.

Resenha de Os Demônios


Em uma União Soviética que propagava ideais comunistas pautados na coletividade, essa subjetividade humana não teria espaço, porquanto haveria problemas para a efetivação desse pensamento coletivista em um mundo onde predominam as paixões individuais. O romance "Os Demônios" chegou a ser censurado na União Soviética, porquanto é tido como uma crítica aos ideais revolucionários de esquerda. Dostoiévski compara a história do romance à passagem bíblica em que Jesus encontra-se com um endemoniado. Segundo ele, os indivíduos influenciados por essa ideologia de esquerda assemelham-se ao endemoniado da passagem bíblica, devido ao fato de estarem possuídos por essa ideologia, sendo que acabam, através de coerções, transformando-se em marionetes.

Segundo o personagem Chatov, os movimentos socialistas do século XIX buscavam, através da ciência e da razão, compreender todos os aspectos da existência humana. Para ele, esses movimentos acabavam por excluir de suas análises esse lado místico do homem, criando, com isso, um modelo de sociedade que excluía os sentimentos humanos tão importantes para a compreensão do ser humano.

"Povo nenhum pôde jamais se organizar sobre a terra em bases científicas e racionais; povo nenhum o conseguiu, salvo talvez pela duração de um instante, e por estupidez pura. O socialismo na sua essência é ateu, porque proclamou desde o início que se propõe a edificar uma sociedade baseada unicamente na ciência e na razão. Por toda a parte e sempre, desde o começo dos tempos, a razão e a ciência só desempenharam na existência dos povos um papel subalterno, a serviço da vida; e assim será sempre, até o fim dos séculos."

Pintura de Dostoiévski

Para Chatov, a ciência e a razão só desempenharam um papel subalterno na existência dos povos, sendo guiados, na maior parte do tempo, pelas paixões. Muitos modelos de sociedades socialistas, pautados no coletivismo, foram idealizados sem que se fosse pensado como se dariam as relações do cotidiano entre as pessoas — relações essas impregnadas de sentimentos relacionados às características individuais, características essas que, muitas vezes, não podem ser equacionadas pela razão.

"Os povos se constituem e se desenvolvem movidos por uma força diferente, uma força soberana, cuja origem se mantém desconhecida e inexplicável. Essa força é o desejo inextinguível de atingir um fim e ao mesmo tempo a negação desse fim."

As críticas ao socialismo presentes no livro, escrito décadas antes da Revolução de 1917, acabaram se concretizando no regime soviético, pautado pela violência devido à necessidade dos governantes de controlar as paixões humanas, buscando sempre suprimir o individualismo. Contudo, a crítica aos modelos de sociedades socialistas não faz com que Dostoiévski possa ser considerado um capitalista. Em diversos trechos de seus livros, ele critica o sistema capitalista, que em muitos casos busca se aproveitar das paixões humanas para lucrar mais; vide a indústria cultural e a alienação do consumo.

Dostoiévski, como um estudioso da mente humana, traz elementos indispensáveis para o debate dos rumos que a sociedade pode tomar, devendo o fato de sua visão tornar as relações sociais mais complexas ser visto como possibilidade de uma nova compreensão das relações sociais.

Leia a resenha de outros livros de Dostoiévski:



 

domingo, 18 de outubro de 2015

Pais e Filhos - Ivan Turgueniev



Capa do livro Pais e Filhos - Ivan  Turgueniev. Vermelha


O romance de Turguêniev tem por temática a transição, ocorrida na Europa, de um pensamento econômico, político e cultural pautado em uma lógica feudal baseada em laços de subordinação tidos como naturais. Nesse modelo, a posição do indivíduo na sociedade é definida por leis de sangue tidas como divinas, tendo como base desse sistema a servidão. Essa lógica transita para um pensamento capitalista, sendo a sociedade baseada na capacidade do indivíduo de acumular capital e tendo como base do edifício social o conhecimento científico positivo, em contraposição ao pensamento religioso dominante no período feudal.

Com isso, houve a mudança de uma produção de bens baseada na servidão para uma produção baseada no trabalho assalariado, devido à necessidade capitalista de circulação de riquezas através do poder de compra, desenvolvendo um mercado consumidor. Esta transição gerou uma nova reorganização da sociedade europeia, tanto econômica quanto política e culturalmente, devido ao fato de a organização social passar a se basear na acumulação de capital, sendo o desenvolvimentismo técnico-científico o motor desse processo.

Apesar de esses processos estarem a todo o vapor, em meados do século XIX, na Europa, a Rússia começava a participar ativamente dessa transição. Na época, a Rússia tinha um acanhado desenvolvimentismo industrial e um sistema econômico baseado na agricultura, além de um sistema político retrógrado: o tsarismo. Entretanto, a Rússia começava a se adequar à nova ordem europeia, podendo-se destacar o fim da servidão, que gerou o trabalho assalariado. Com isso, o mujique, que antes era tido como um servo, passou a ser encarado como igual, partilhando de uma relação de trabalho com o que antes era o seu senhor.

Resenha de Pais e Filhos


Cena da peça Pais e Filhos. Homens conversando em uma mesa

No romance, vemos como este processo modificou as relações sociais no país através do embate ideológico entre os pais, homens aristocratas partidários de um sistema social baseado em laços naturais quase místicos, e os filhos, jovens que se intitulam niilistas. Estes têm por premissa a negação de qualquer tipo de convenção social imposta por qualquer tipo de autoridade, buscando enxergar o mundo com uma visão crítica, baseando-se apenas no conhecimento científico positivista.

"Niilista é o homem que não se curva perante nenhuma autoridade e que não admite como artigo de fé nenhum princípio, por maior respeito que mereça".

Esses jovens se interessam apenas pelo conhecimento científico, desprezando qualquer experiência que não possa ser observada, descrita e quantificada pela ciência, como, por exemplo, as emoções e a arte. O personagem Bazarov, niilista, ao ser questionado sobre a importância da arte, afirmou ser um bom químico vinte vezes mais útil que um poeta. Com isso, vemos a influência do positivismo no pensamento do personagem, ao acreditar ser possível, através da ciência, compreender e interpretar a realidade, podendo tudo ser explicado pelas leis da natureza.

"Que relações misteriosas são essas entre o homem e a mulher? Nós, fisiologistas, conhecemo-las muito bem. Estude um pouco a anatomia do globo ocular: encontrará ali algo que signifique um olhar enigmático? Tudo não passa de romantismo, fantasia, podridão, artifício".

Outro frequente motivo de discussões era a decadência da aristocracia neste novo sistema, devido à transição de uma sociedade que tinha a aristocracia como modelo do que era socialmente aceito para uma sociedade tendo a ciência como base da organização social. Segundo o personagem defensor da aristocracia, a personalidade e a noção de dignidade presente na aristocracia mantêm sólido o edifício social, sendo a sociedade construída e civilizada graças à aristocracia.

Bazarov, por sua vez, nega a utilidade dessa aristocracia que não tem, segundo ele, utilidade prática para a sociedade, sendo somente aceitável para o niilista algo que traga benefícios para a evolução da espécie humana. Segundo ele, a ciência não é importante por si só, mas sim pelo uso positivo da mesma. Sendo assim, todas as convenções sociais que não geram uma transformação humana racional são dispensáveis, devendo a sociedade se pautar somente no conhecimento positivista.


Percebe-se nos niilistas uma negação de tudo que não seja científico, comprovado e perfeitamente posto em prática. Para eles, os sentimentos não têm importância; inclusive, muitas vezes buscam, através da ciência, explicá-los de modo a desmistificá-los. Contudo, Bazarov acabou, de certa forma, traindo sua ideologia, devido ao fato de em determinado momento ter se desviado de sua busca científica positiva após ter um contato mais íntimo com uma condessa que, de certa forma, representava o modo de vida aristocrático.

Diante disso, fica o questionamento: será possível pensar em uma sociedade somente pautada na ciência positiva? Uma sociedade sem sentimentos, sem arte ou amor? No século XIX, muitos acreditavam ser possível através da ciência positiva; contudo, este pensamento levou a uma desumanização do ser humano, pois muitos dos sentimentos e sensações são partes constituintes do que nos faz seres humanos, podendo uma busca racional totalmente alheia aos sentimentos levar a humanidade ao caos e ao surgimento de ideologias racionalmente compreendidas, mas que ferem nossos sentimentos, como o nazismo e o fascismo.

Gosta de clássicos da Literatura russa ? Leia outras resenhas da era de ouro da literatura russa. 

O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski;
Notas do Subsolo, de Dostoievski;
Os demônios -Fiódor Dostoiévski;
Um jogador- Dostoiévski
Crime e castigo - Dostoievski.


 





sábado, 14 de fevereiro de 2015

Crime e castigo, de Fiodor Dostoievski



Capa do livro Crime e castigo, de Fiodor Dostoievski. Fotografia do autor na capa.



Um dos maiores romances de Fiodor Dostoievski, autor de Crime e Castigo, Os demônios e Notas do subsolo.
O romance Crime e Castigo tem por personagem principal o russo Raskólnikov, que desenvolve uma teoria que exerce papel predominante nas suas ações, as quais culminam em um duplo homicídio.

Resenha de Crime e castigo, de Fiodor Dostoievski


Raskólnikov, filho de uma família de aristocratas empobrecidos, deixa a sua mãe e a sua irmã na província para ir estudar Direito em São Petersburgo, permanecendo três anos sem vê-las. Durante seus estudos, ele publica um artigo em um jornal da cidade no qual divide a raça humana em dois tipos de seres: os extraordinários e os vulgares.

Os extraordinários são homens que — levando-se em conta a premissa niilista de que Deus está morto — possuem capacidade intelectual elevada e se tornam legisladores da raça humana. Ou seja, são responsáveis pelo destino da humanidade, possuindo o poder de criar e de revogar leis. Para Raskólnikov, esses homens estão acima do certo e do errado, devido ao fato de terem o poder de decidir o que é correto e o que é incorreto. Os vulgares são homens que vivem segundo as leis criadas pelos legisladores.

Para Raskólnikov, um traço capital que distingue os extraordinários dos vulgares é a facilidade com que passam por cima de seus obstáculos, mesmo que seja preciso, para isso, burlar leis. Entre as leis que os extraordinários burlam está, talvez, a mais importante lei do cristianismo: não matarás. Os extraordinários são capazes de matar, se preciso, sem que haja um julgamento interno com respeito à legitimidade do ato. Ou seja, não sentem remorso por tirarem vidas na busca pelos seus objetivos. Para eles, se for necessário sacrificar algumas vidas para a humanidade alcançar determinado estágio, o mesmo será feito sem que haja algum tipo de remorso ou julgamento por parte da consciência.

Raskólnikov acreditava ser um desses homens extraordinários; mas, para conseguir alcançar seus objetivos, precisava de dinheiro. Com isso, surgia o seu primeiro obstáculo. Ao ser obrigado a penhorar alguns bens para se alimentar, ele conhece uma velha usurária. Raskólnikov via a senhora como um "piolho", pois a mesma não tinha nenhuma utilidade para a raça humana; com isso, ele decide matá-la para tomar para si o dinheiro.

Se a teoria de Raskólnikov estivesse correta, ele não sentiria remorso pelo homicídio, porquanto se considerava um extraordinário, ou seja, acima do certo e do errado. Com isso, Raskólnikov planeja e executa o homicídio, sendo que, logo após assassinar a usurária, acaba matando a irmã dela, que presenciou o ato. Após o duplo homicídio, Raskólnikov — devido às pressões psicológicas impostas pelo detetive Porfíri e pela sua própria consciência — vê-se dominado por uma grande angústia.
O romance Crime e Castigo tem por tema o embate entre a razão e a consciência, embate esse acentuado após o surgimento de diversas ideologias que vão contra os conceitos de certo e errado presentes na sociedade ocidental. 
O romance demonstra, em um mundo dominado pelo raciocínio, o poder da consciência no comportamento humano, estando as pessoas imersas em um conflito interno entre a razão e a consciência.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Um jogador, de Fiodor Dostoiévski



Capa do livro Um jogador, de Fiodor Dostoiévski


O romance Um Jogador tem por temática o vício adquirido no jogo de azar. A história se desenrola em uma cidade balneária da Prússia — antiga Alemanha antes da unificação — por volta do ano de 1866. Naquela época, o jogo de azar era proibido na maior parte do continente europeu, sendo permitido apenas em algumas cidades prussianas. Com isso, indivíduos de diversos lugares dirigiam-se aos cassinos dessas cidades para tentar a sorte na roleta.

Na trama, os personagens do romance encontram-se hospedados em um dos muitos hotéis da cidade, desfrutando de momentos de lazer nos pontos turísticos do balneário enquanto esperam um telegrama anunciando a morte de uma parente rica. A família — composta por um general, seu filho e sua enteada — passa por graves problemas financeiros, vislumbrando na morte da parenta rica a salvação de seus problemas financeiros.

O enredo do romance gira em torno da paixão avassaladora que o personagem Alexei, contratado como tutor do filho do general, nutre por Pauline, enteada do general. O personagem Alexei é retratado como um jovem de vinte e cinco anos que exerce a profissão de professor do filho do general. É importante salientar que, naquela época, um professor particular era visto como membro da criadagem, sem possuir privilégios especiais dentro das famílias; ou seja, um mero subalterno.

A tia rica do general é retratada como uma senhora de mais de setenta anos que, apesar de estar entravada em uma cadeira de rodas, mostra-se extremamente ativa e lúcida. Ela possui uma personalidade forte e autoritária, julgando-se conhecedora de todos os mistérios da vida. Ela não demonstra respeito pelo general, vendo-o como um parasita, indigno de respeito e consideração.

Para a surpresa geral, em vez de chegar um telegrama anunciando a sua morte, a mesma, em carne e osso, chega ao balneário, indo diretamente para as mesas de jogo perder a sua fortuna. É interessante notar o poder que o jogo tem sobre algumas pessoas, inclusive pessoas que aparentam estar imunes a seus artifícios, como a tia rica. Após ganhar nas primeiras rodadas, ela se acha dona da própria sorte, continuando confiante mesmo depois de seguidas derrotas. Talvez a possibilidade de vitória — ou de reverter uma derrota a apenas um passo — acorrente o indivíduo à mesa de jogo, sempre acreditando que sua sorte mudará.

No início do romance, apesar de estarem em um cassino, a possibilidade de mudança em suas vidas estava atrelada a um fator natural: a morte da tia rica. Todos apostaram nesse desfecho, como um jogador que aguarda a bolinha cair no número escolhido. Após a chegada da tia, o fator natural deixa de ser decisivo em detrimento do fator jogo de azar. Com isso, o jogo de azar passa a possuir papel decisivo para a sorte de todos, devido ao fato de que, se a tia perder tudo, todos perdem junto com ela.

Talvez um jogador não seja diferente de um cidadão que não jogue, pois ambos apostam o seu futuro em acontecimentos que estão longe do seu controle. Muitas vezes nos apegamos à possibilidade de possíveis acontecimentos de forma cega e viciante, como um jogador que se apega à mesa de jogo.
 
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