segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A Humilhação, de Philip Roth



CAapa do livro A Humilhação, de Philip Roth


Philip Roth foi um dos mais prestigiados escritores americanos da segunda metade do século vinte e início do século vinte e um. Falecido recentemente, deixou de publicar livros alguns anos antes de morrer.

Diversas de suas obras foram transpostas para o cinema; seus personagens foram interpretados por grandes atores, tais como Al Pacino e Anthony Hopkins.

A sociedade americana é o grande tema dos livros de Roth. Ele é um grande intérprete da cultura americana, sempre focando suas obras em temas controversos e em personagens problemáticos e profundos.

Fotografia de Philip Roth


Resenha de A Humilhação, de Philip Roth


O romance "A Humilhação", publicado em 2009, foi um dos últimos livros publicados por Roth. A história gira em torno de um grande astro do teatro americano que, de uma hora para a outra, torna-se incapaz de interpretar.

Após seu último trabalho no teatro ser um fracasso total de público e crítica, Axler se refugiou na sua mansão e começou a ter pensamentos suicidas diante do fracasso naquilo que fazia dele uma pessoa especial.

Após Axler se tornar incapaz de atuar, ele perdeu o seu chão, pois perdeu aquilo que o tornava vivo; ou seja, tudo deixou de fazer sentido, restando apenas a morte para ele. Nesse momento, Axler se encontrou em uma encruzilhada na qual necessitava de uma mudança radical na sua vida para que pudesse continuar em frente.

Ao se aproximar da filha de antigos amigos — uma lésbica vinte e cinco anos mais nova do que ele, que passava por um momento parecido com o de Axler no sentido de se encontrar em uma encruzilhada, sem saber que caminho tomar — os dois acabam vivendo um romance nada convencional.

Cena do filme A Humilhação


Algumas questões permeiam a obra, deixando o leitor em suspenso, podendo ser citadas: que humilhação é essa que dá o título à história? Será que Axler voltará a atuar?

Philip Roth desenvolveu uma história envolvente e profunda sobre a tentativa daqueles que viveram como reis, sempre com a sensação de que poderiam fazer qualquer coisa, de se reerguerem após a queda e o mergulho em uma realidade frustrante.

Nota: 8.

domingo, 10 de setembro de 2017

A longa Marcha, de Stephen King


Capa do livro A longa Marcha, de Stephen King


Stephen King publicou alguns de seus livros com o pseudônimo de Richard Bachman. Segundo ele, o objetivo era testar o quão era capaz de vender livros sem a influência de seu nome; ou seja, ele queria saber até que ponto era capaz de criar boas histórias sem que a sua fama influenciasse a avaliação do leitor. A Longa Marcha foi um desses livros.

Publicado em 1979, se tornou um dos livros preferidos entre os leitores de King, sempre citado entre os melhores nas diversas listas publicadas na internet.

Fotografia de Stephen King


Resenha de A longa Marcha, de Stephen King

A história pode ser considerada uma distopia, pois ela se passa em um futuro sombrio;nou seja, difere da visão de futuro no qual a humanidade estaria caminhando a passos largos para um mundo melhor, no qual a humanidade finalmente realizaria o sonho do paraíso na Terra.

Na história, somos apresentados, logo no início, ao personagem Garraty, um rapaz de 17 anos nascido e criado no Maine, que se prepara para participar de um reality show intitulado "A Longa Marcha".

Basicamente, o reality show se resume a um grupo de 100 jovens entre 15 e 18 anos que iniciam uma caminhada no estado do Maine, indo em direção ao sul da América. Os competidores não podem parar de andar e nem sair da estrada. Cada vez que, por qualquer motivo, algum jovem para de andar, ele é advertido; e, após três advertências, é eliminado. O último que continuar andando vence e ganha o prêmio, que é o que ele quiser.

A Longa Marcha é transmitida pela televisão, sendo o evento de maior audiência na TV americana. Ao longo do trajeto, milhares de americanos se posicionam na beirada da estrada para acompanhar ao vivo a marcha; ou seja, é o principal evento de entretenimento dos Estados Unidos.

Arte do livro A longa Marcha, de Stephen King. Uma estrada e pessoas cansadas caminhando

O que torna a Longa Marcha terrível é o fato de que todo jovem que não consegue mais andar é literalmente eliminado. Soldados armados de metralhadoras acompanham o trajeto dos garotos, sendo responsáveis por aplicar as advertências e eliminar, através de uma saraivada de balas, os competidores que, porventura, parem.

Durante a leitura, duas questões se apresentam ao leitor, sendo elas: por que jovens aceitariam participar de um reality show desses? E por que as pessoas gostariam de acompanhar esse entretenimento macabro?

Stephen King vai, no transcorrer das páginas, contando aos poucos a história de vida dos principais personagens, mostrando como e por que eles se inscreveram na Longa Marcha; junto a isso, ele vai, ao descrever os espectadores da caminhada, mostrando o quão capazes são as pessoas de, apesar desse verniz de racionalidade e civilização, cultuarem o grotesco e o sórdido.

Fica evidente que os espectadores acompanham a marcha com a expectativa de ver os rapazes serem eliminados, e ficamos a todo o momento com a impressão de que eles perderam a noção de que aquilo é real; ou seja, não são mais capazes de separar a fantasia da realidade.

O livro é muito bom, sendo capaz de prender a atenção do leitor até o seu desfecho. O curioso é que o leitor acaba partilhando com a multidão da posição de espectador desse entretenimento macabro, torcendo por determinados personagens e odiando outros.

A Longa Marcha é uma história incrível e envolvente como só Stephen King é capaz de criar, sendo um livro fundamental para os fãs do gênero do terror.

Nota: 9.

Gosta de Stephen King? Leia outras resenhas de obras do autor:
Mr. Mercedes, de Stephen King;
IT: A Coisa, de Stephen king.







segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski


Capa de O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski


O Sonho de um Homem Ridículo é uma narrativa fantástica publicada por Dostoiévski em 1877, em uma revista mantida pelo autor. A história pode ser considerada um conto devido ao seu tamanho, de cerca de trinta páginas. Na edição da Editora 34, foi publicada juntamente com o conto "A Dócil", sendo ambas narrativas que envolvem o tema do suicídio.

Resenha de O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski 

Apesar de tratar de um tema bastante real, a narrativa é considerada fantástica pois, após um sonho extremamente vívido, porém irreal, o personagem decide mudar o rumo de sua vida.

A história é narrada em primeira pessoa por um homem que não só é tido como ridículo por aqueles que o conhecem, mas que também se considera ridículo. O fato de rirem dele e fazerem de seus hábitos motivos de chacota apenas confirma uma visão extremamente depreciativa que ele tem de si mesmo. Contudo, tudo muda após ele chegar ao fundo do poço e decidir cometer suicídio.

Pintura simbolizando um homem atormentado no inferno

O desejo de cometer suicídio surge após a constatação de que ele não era nada e que tudo no mundo também não era nada; ou seja, para ele tudo era indiferente. Com isso, não havia razão para continuar vivo, haja vista que nada fazia sentido ou valia a pena.

Antes de cometer o suicídio, ele adormece em sua poltrona, tendo um sonho no qual ele, após cometer suicídio, é carregado por um ser até um outro planeta Terra. Nesse planeta Terra, os seres humanos são perfeitos e vivem uma vida livre de doenças e crimes. Nessa Terra, todos trabalham pelo bem comum e se amam, sem haver espaço para qualquer tipo de distinção social. Nesse lugar, em uma dimensão paralela à nossa, o pecado original — ou seja, o pecado de Adão e Eva — não ocorreu. Com isso, os seres humanos não tiveram a sua perfeição corrompida.

Apesar de se maravilhar com esse mundo perfeito, o personagem, longe de compartilhar essa perfeição, questiona o fato de eles não possuírem a nossa ciência. O fato de não serem contaminados com o pecado e serem plenamente felizes fez com que não sentissem a necessidade do conhecimento que move a nossa humanidade, além do fato de não terem a necessidade de transformar a vida deles. Eles, vivendo uma vida perfeita, não tinham a necessidade de criar leis para os guiar até um mundo melhor.

Também a relação deles com a natureza é totalmente diferente da relação que mantemos com ela. Enquanto buscamos dominá-la e transformá-la, eles buscavam um relacionamento orgânico com a natureza.

Desenho de uma pessoa deitada com o coração partido

Sendo imperfeito, o personagem sentiu a necessidade de tentar impressioná-los com as maravilhas do nosso mundo e, com isso, acabou pervertendo-os.

Ele lhes ensinou a mentira, a volúpia, o ciúme, entre outros. Com isso, eles começaram a lutar entre si, gerando um mundo violento, tal como o nosso. Conforme o caos foi tomando esse planeta, eles começaram a criar leis para tentar contornar esse mal. Com isso, surgiu a justiça e a organização social segundo uma série de regras estabelecidas pelos governos. Eles se esqueceram de que já foram inocentes um dia e começaram a buscar, através da ciência, um mundo perfeito. A busca por esse mundo melhor através do conhecimento esbarrou nos desejos individuais de cada um, e guerras foram travadas em nome de um mundo melhor.

Ele tentou exortá-los a retornarem para aquela essência perdida no passado — essência essa que não se conquista com a ciência criada pelo homem —, mas eles não acreditavam mais nessa essência e o ignoraram.

O Homem Ridículo acordou do sonho transformado, com a convicção de que as pessoas podem ser felizes na Terra, pois o mal não é o estágio inicial do homem; a humanidade nasceu da perfeição e tem, na sua origem, o amor como principal meta de vida.

Com isso, ele passou a desconfiar da capacidade de a ciência transformar o mundo, pois não somos fruto de uma evolução como ele acreditava antes. Ou seja, não estamos evoluindo de um estágio primitivo para um estágio superior através da ciência, mas sim partimos de um estágio superior para um inferior devido ao fato de depositarmos as nossas esperanças no conhecimento do homem, esquecendo nossa origem divina e perfeita.

sábado, 12 de agosto de 2017

A garota no trem, de Paula Hawkins


Capa do livro A garota no trem, de Paula Hawkins


A Garota no Trem, romance de estreia da escritora inglesa Paula Hawkins, é um thriller policial publicado no ano de 2015. Seu sucesso, sendo comparado ao romance "Garota Exemplar", rendeu fama a Hawkins e a adaptação da história para o cinema.

Resenha de A garota no trem, de Paula Hawkins

O romance tem por protagonista uma mulher na casa dos trinta anos, chamada Rachel, que passa pelo pior momento da sua vida. Seu casamento fracassou devido ao seu vício em bebidas e à impossibilidade de engravidar; e, para completar, ela perdeu o emprego após chegar bêbada ao trabalho.

Cena do filme A garota no trem. Uma mulher olhando pela janela


Ela mora na casa de uma amiga de faculdade e passa seus dias tentando esconder de todos a perda do emprego e o seu vício em bebidas. Para tanto, todos os dias de manhã, ela pega o trem na cidade em que mora e viaja até Londres, onde ficava o seu antigo trabalho, passando o dia vagando pela cidade para, no fim do dia, retornar para a cidade em que mora. Com isso, todos que a conhecem acham que ela continua trabalhando.
Nesse trajeto diário de trem, ela passa na frente da casa em que morou antes da separação; atualmente, seu ex-marido mora com a atual esposa no local. Apesar da separação, Rachel não consegue esquecer seu ex-marido e sua antiga vida; com isso, fica perseguindo-o, principalmente nos momentos em que está bêbada.

Rachel tem por principal passatempo ficar observando pela janela do trem as paisagens do trajeto, sempre imaginando como seria a vida das pessoas que ela observa. Um jovem casal, Tom e Megan, que comprou a casa vizinha à sua antiga casa, chama a atenção de Rachel devido à beleza do casal, além da sintonia que os dois demonstram nos raros momentos em que Rachel consegue avistá-los do trem.

Essa rotina de Rachel muda após ela ver a mulher idealizada beijando outro homem em um bar. Dias depois, em um de seus momentos de embriaguez, Rachel vai até a casa de seu ex para confrontá-lo. No dia seguinte, ela não se lembra de nada do que aconteceu na noite anterior. Contudo, a notícia de que Megan desapareceu na noite anterior faz com que Rachel suspeite de que tenha visto algo enquanto passava pela rua em que eles moram.

Rachel, apesar de nunca ter tido contato com o casal, se solidariza com a tragédia, principalmente com o marido, que é tido como o principal suspeito. Com isso, ela decide ajudar na solução do desaparecimento de Megan, envolvendo-se diretamente na trama.

Cena do filme A garota no trem. uma mulher andando na estrada sozinha



O romance é narrado em primeira pessoa por três personagens femininas, sendo elas: Rachel, Megan e Anna (atual esposa do ex-marido de Rachel). A narrativa se dá em formato de diário, sempre com cada uma delas contribuindo com uma peça do quebra-cabeça da história. O interessante desse formato de narrativa é que ele proporciona três olhares diferentes sobre o que está acontecendo na trama, auxiliando o leitor na compreensão do enredo. Contudo, o leitor deve ficar atento para o fato de que nem sempre o relato de cada uma delas poderá ser tomado como verdade; inclusive, uma acaba sempre contradizendo a visão da outra.

O romance é claramente inspirado no filme "Janela Indiscreta", de Hitchcock; contudo, a autora foi capaz de dar vida própria à sua história, sendo uma boa história policial, capaz de prender o leitor, que em nenhum momento se cansa da leitura. Sem dúvida, um bom livro do gênero policial.

Nota: 8.





sábado, 5 de agosto de 2017

Não conte a ninguém, de Harlan Coben


Capa do livro Não conte a ninguém, de Harlan Coben

Harlan Coben é um dos escritores americanos mais lidos na atualidade. Seus livros vendem milhões de cópias, tornando-se facilmente best-sellers. Seu estilo de escrita é simples, buscando, com imagens impactantes em sequência e sem perder muito tempo com reflexões, gerar um clima de suspense eletrizante. Com isso, seus livros têm por principal característica a fácil assimilação por parte do leitor.

Cena do filme Não conte a ninguém, de Harlan Coben. Homem e mulher diante de um computador



O romance "Não Conte a Ninguém", publicado originalmente em 2001, é um thriller policial capaz de tirar o fôlego do leitor que acompanha, no transcorrer da história, o desenrolar de uma trama que se inicia como um conto de fadas para rapidamente se converter em um pesadelo.

Resenha de Não Conte a Ninguém

Um jovem casal apaixonado é atacado por um assassino em série no dia do aniversário de namoro. Apenas o rapaz, o doutor David, sobrevive, vivendo os posteriores oito anos de sua vida sem superar a tragédia, mesmo sabendo que o assassino foi julgado e condenado.

Tudo muda no dia do aniversário de namoro dos dois, quando David recebe um e-mail que o leva a crer que sua mulher está viva. Junto a isso, o surgimento de dois corpos próximos ao local onde ele e sua mulher foram atacados faz com que a polícia reabra o caso, sendo David o principal suspeito de matar a sua mulher.

Enquanto David investiga a origem daqueles e-mails e enfrenta as acusações da polícia, um poderoso homem de negócios, ligado a atividades criminosas, coloca seus homens na cola de David por motivos que David desconhece. Com isso, temos as peças que compõem o quebra-cabeça da trama.

A história é narrada, na maior parte do livro, em primeira pessoa por David, que vai aos poucos desvendando o mistério que o cerca, enquanto foge da polícia e da organização criminosa. O leitor partilha da confusão vivida por David, descobrindo aos poucos os motivos por trás dos e-mails e de sua perseguição.
Cartaz do filme Não conte a ninguém


O título está relacionado a uma exigência feita por quem está mandando os e-mails para David: a exigência de ele não contar a ninguém sobre o que estava acontecendo. Com isso, fica evidente que todos são suspeitos e David não pode confiar em ninguém.

O romance "Não Conte a Ninguém" é um bom thriller policial, fazendo jus à fama de Coben de criar histórias capazes de envolver o leitor até as últimas páginas, sendo uma leitura leve, prazerosa e descompromissada.

Nota: 8.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O caso Morel, de Rubem Fonseca


Capa do livro O caso Morel, de Rubem Fonseca


Rubem Fonseca é considerado um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea. Vencedor de diversos prêmios, é autor de uma vasta obra iniciada nos anos 60. Nascido em 1925, em Minas Gerais, cursou Direito no Rio de Janeiro e Administração no estrangeiro. Trabalhou, entre outros, como policial e crítico de cinema antes de se dedicar inteiramente à literatura.

Sua produção tem por principais temas o sexo e a violência presentes no meio urbano. Ele trabalhou esses temas tabus de forma direta e crua, causando grande impacto nos leitores acostumados a uma reprodução do cotidiano pela arte de forma filtrada pelos valores moralizantes presentes na sociedade.

Fotografia de  Rubem Fonseca

Resenha de O caso Morel 

O Caso Morel, publicado em 1973, é um exemplo do quão impactantes são as obras de Fonseca. No romance, ele se utilizou da literatura policial como pano de fundo para compor uma história repleta de carga emocional, tendo por protagonista Morel: um artista preso por um crime do qual o leitor não tem informações. Com isso, o mistério em torno de sua prisão prende o leitor, que acompanha a reconstituição da vida de Morel até a sua detenção.

A história é narrada por três perspectivas, sendo elas:

Morel, que reconstitui sua vida até a sua prisão;

Uma narração em terceira pessoa, nos momentos de Morel na cadeia;

A narração em primeira pessoa por um outro personagem que acompanha a reconstituição da vida de Morel.

A narrativa do livro faz com que fiquemos com a impressão de que lemos um livro dentro de outro livro. Ou seja, temos um narrador contando uma história e, dentro dessa história, temos a narrativa de Morel. Enquanto está preso, Morel decide escrever um romance baseado em suas experiências; com isso, pede o auxílio de um escritor experiente para avaliar seus escritos. O contato com o escritor é facilitado pela polícia, que acredita que Morel irá revelar detalhes do seu crime na obra.

Com isso, enveredamos pela reconstituição da vida de Morel até a sua prisão. Morel é um pintor respeitado, contudo desiludido com a vida e com a arte. Ele passa a maior parte do seu tempo vagando pelo Rio de Janeiro em busca de sentido para a sua vida. Temos contato com suas aventuras amorosas. Cansado das regras sociais impostas — o romance foi escrito no auge da Ditadura Militar — Morel busca criar um novo tipo de família, que destoa totalmente do modelo de família difundido na sociedade. Para tanto, ele convida quatro mulheres para morarem com ele, formando, assim, uma família baseada na total liberdade moral e sexual.

As quase duzentas páginas do romance são preenchidas ora com as aventuras amorosas de Morel, ora com suas divagações acerca da falência da arte e da liberdade individual, devido à avalanche cultural em um país dominado por um regime autocrático e censurador, pautado na moralização da sociedade segundo valores cristãos deturpados.

Morel apresenta-se como um sobrevivente em um mundo desprovido de sentido para um artista que tem por único compromisso a liberdade artística. Nesse mundo castrador, as pulsões humanas são postas de lado em favor de uma falsa decência que poda a liberdade humana.

Fotografia do Rio de Janeiro nos anos 70


O romance cumpre com o prometido; Morel, a cada página, choca o leitor, pois suas depravações parecem não ter fim.

Este romance traz à tona a natureza humana de forma livre, sem compromisso com qualquer tipo de censura moral. Talvez nos dias atuais, nos quais a censura direta está superada — apesar de continuar a existir uma censura velada — o romance possa não ter o mesmo poder de impactar o leitor já acostumado com uma maior liberdade sexual. Contudo, dificilmente as aventuras de Morel deixarão de causar estranheza e questionamentos sobre a natureza humana em todos aqueles que se aventurarem na leitura do livro.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Prelúdio da Fundação, de Isaac Asimov


Capa do livro Prelúdio da Fundação, de Asimov


Prelúdio à Fundação é um livro pertencente à série "Fundação" escrito por Asimov no ano de 1988. Asimov, sendo um dos maiores autores da ficção científica mundial, foi autor da série "Fundação", reconhecida por parte da crítica especializada como a melhor série de ficção científica e de fantasia de todos os tempos. 

A série Fundação tem uma ordem de lançamentos que diverge da ordem dos acontecimentos, porquanto Asimov, nos anos 50, escreveu os três livros que, para ele naquela época, comporiam a série Fundação, sendo eles: Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação. Contudo, anos depois, devido à pressão de fãs, decidiu expandir a série escrevendo dois outros livros que se passam após os acontecimentos narrados nos três livros iniciais, sendo eles: Limites da Fundação e Fundação e Terra.

Nos anos oitenta, Asimov decidiu escrever mais dois livros que se passam antes dos acontecimentos dos três primeiros livros, sendo eles: Prelúdio à Fundação e Origens da Fundação. Com isso, levando-se em consideração a ordem dos acontecimentos, a série Fundação possui a seguinte ordem: 
Prelúdio à Fundação, Origens da Fundação, Fundação, Fundação e Império, Segunda Fundação, Limites da Fundação e Fundação e Terra.

Resenha de Prelúdio à Fundação

A série é ambientada em um futuro distante no qual o planeta Terra não existe mais e a humanidade foi obrigada a habitar diversos planetas de uma galáxia onde existem condições propícias para a vida humana. O sistema político vigente da galáxia é o Império, estando toda a galáxia subordinada ao imperador que vive em seu palácio no planeta Trantor, planeta sede do Império.

O planeta Trantor é o mais importante e desenvolvido da galáxia. Ele é quase todo recoberto por uma cúpula que o protege das intempéries do tempo. Com isso, a condição climática do planeta é produzida artificialmente. Além disso, eles contam com naves que voam na velocidade da luz e elevadores muito parecidos com aqueles da série Futurama, nos quais a pessoa é sugada por um tubo.

Psico-história


Nesse mundo futurista, um matemático chamado Hari Seldon desenvolve os princípios de uma união entre matemática e comportamento social, chamada por ele de psico-história. Para ele, a psico-história seria capaz, através de cálculos matemáticos, de prever os possíveis futuros, segundo as decisões que a humanidade tomasse. Essa psico-história chama a atenção dos poderosos, inclusive do imperador Cleon I, que deseja utilizar Seldon como um oráculo, com o intuito de manipular a ciência para atender aos seus desejos. Com ajuda de um homem misterioso chamado Chetter Hummin, Seldon consegue escapar das garras do Imperador, tendo a possibilidade de desenvolver a psico-história.

Prelúdio à Fundação é o primeiro livro da série, porém, em ordem de lançamento, é o penúltimo publicado. Nele, temos contato com Seldon jovem, ainda em vias de desenvolver a psico-história. Apesar de a mesma ainda não estar efetivada, ela já desperta o interesse de diversos poderosos que querem se utilizar dela para seus propósitos.

Com a ajuda de Hummin e Dors Venabili — uma historiadora que toma para si a tarefa de proteger Seldon durante a fuga — Seldon empreende uma jornada pelo planeta de Trantor, tendo em seu encalço os homens do Imperador Cleon e outros poderosos que querem se apoderar de Seldon e sua psico-história.

Reprodução de uma cidade futurista

Prelúdio à Fundação é centrado na fuga de Seldon, juntamente com as primeiras tentativas do matemático de desenvolver a psico-história. Ao longo de sua fuga, Seldon passa por diversas regiões do planeta Trantor, cada região com uma cultura própria. A força do livro está na descrição dessas regiões, bem como nas confusões que aguardam Seldon em cada uma delas. Pode-se destacar: uma região em que todos os habitantes raspam todos os pelos do corpo, inclusive do couro cabeludo. Para eles, os pelos do corpo são extremamente eróticos, sendo indecente mostrá-los em público. Outra curiosidade sobre essa região é que, apesar de não existir religião, todos os habitantes carregam consigo um livro que conta a história daquele povo quando habitavam um outro planeta chamado Aurora, em uma época em que todos os seres humanos habitavam um único planeta.

Outra região que chama a atenção é uma área periférica do planeta, podendo ser considerada uma região subdesenvolvida dominada pela violência. Nela, Seldon e Dors passam por diversos perigos, além de visitarem uma mulher considerada uma vidente. Através dela, eles têm contato com a lenda de que a raça humana surgiu inicialmente em um único planeta, chamado Terra. Segundo ela, nesse planeta existiam robôs que se pareciam com os humanos, ou seja, inteligência artificial.

Neste primeiro livro, não temos muito contato com a psico-história, sendo a história centrada na fuga de Seldon, personagem carismático, assemelhando-se muito ao personagem Sr. Pickwick, de Dickens. Seldon é um matemático extremamente inteligente, porém deslocado da realidade. Com isso, é incapaz de perceber os perigos que o cercam, além da necessidade de seguir as convenções sociais. As confusões em que ele se mete rendem momentos engraçados que, juntamente com a descrição dos lugares por onde passa, fazem com que a leitura seja muito agradável.

Fundação é uma série de ficção científica que empolgou e continua a empolgar leitores por todos os cantos da galáxia, sendo uma leitura fundamental para os fãs do gênero.
Aproveite e leia a nossa resenha de outro clássico da ficção científica: O caçador de Androides, de Philip Dick