sábado, 5 de novembro de 2016

Arsenal de Família, de Paul Theroux

Capa do livro Arsenal de Família, de Paul Theroux

Romance de Paul Theroux, "Arsenal de Família" tem por tema o terrorismo urbano, sendo o tema abordado através dos diversos pontos de vista de personagens com visões de mundo distintas, tendo a cidade de Londres o papel de teia que faz com que suas vidas se cruzem, em um urbano cada vez mais desenvolvido, fruto de uma hierarquização social baseada no poder de consumo.

Resenha de Arsenal de Família


O romance, publicado originalmente em 1974, retrata uma metrópole europeia que vive um crescente desenvolvimento capitalista aliado a um aumento das desigualdades sociais, sendo um lugar de contradições. A crise econômica pela qual o país atravessa gera um sentimento de desconfiança na população, que vê cada vez mais intensificadas as desigualdades sociais. Nesse cenário, surgem grupos dispostos a modificar, através do caos, a lógica dominante.

Agindo à margem da sociedade através de roubos e ataques a bomba, buscam através do caos modificar as estruturas de poder, levando a população a sair do seu estado de sonolência e enxergar as contradições presentes no mundo moderno. Contudo, esse grupo não se apresenta homogêneo, sendo composto por diferentes pessoas movidas por diferentes ideias. Alguns membros desse grupo se intitulam anarquistas, outros marxistas; no entanto, o autor não entra no mérito dessas ideologias, mostrando personagens com conhecimentos superficiais sobre esses temas.

Dentre os personagens, dois se destacam, sendo eles: Hood e Gawber. Hood, americano, fixa residência no subúrbio de Londres após abandonar um cargo no Departamento de Estado americano. É um personagem misterioso, não sendo possível compreender aonde realmente ele quer chegar ao se filiar ao grupo terrorista. Ao juntar-se a esse grupo, ele se oferece para chefiar uma ofensiva do grupo em Londres. Hood não suporta ver a exploração sofrida pelo povo; ao avistar um senhor e seu pequeno filho recolhendo papéis na rua, sente-se compelido a livrá-los dessa situação humilhante, apesar de não conhecê-los:

"Aquilo pareceu a Hood um imerecido castigo... desejando poder livrá-los de um trabalho que ele próprio não faria."

Sendo impulsivo e destemido, não aparenta ter medo de nada, pondo-se em perigo sem buscar preservar sua vida. Em determinado trecho, Hood faz menção ao Vietnã como estopim para abandonar sua antiga vida. Sendo um personagem misterioso, os motivos que o movem como um carro desgovernado não ficam explícitos no romance.

Gawber apresenta-se como antítese de Hood, sendo pequeno, frágil e metódico, proveniente da antiga classe média inglesa. Possui um emprego de contador e uma casa em um antigo bairro londrino. Ao contrário de Hood, Gawber vive em uma perpétua rotina do trabalho para a casa. Contudo, apesar de sua rotina e aparência, ele esconde um sentimento de revolta para com o rumo que seu país está tomando. Enquanto Hood detesta o sistema pelo fato de o mesmo ter gerado constantes desigualdades sociais, Gawber detesta o sistema pelo fato de ele ter gerado uma crescente onda de migração de populações de países periféricos para Londres — populações essas que foram habitar em bairros tradicionais, como o de Gawber, trazendo consigo suas culturas e modificando a paisagem desses bairros.

Como contador, ele prevê um colapso econômico iminente, colapso esse que trará caos e instabilidade ao país:

"Ele vira os algarismos e sentira fumaça; a economia estava precisando de uma completa reestruturação."

Gawber chega a desejar esse colapso, porquanto não suporta ver as modificações ocorridas pela migração em seu país, sendo que, para ele, esse colapso provocará a saída dessas populações em busca de outro lugar para viver:

"...tudo isso fez com que ele desejasse um holocausto purificador — uma crise visível..."

Em uma Londres repleta de contradições e conflitos, a população vive suas vidas tentando ignorar essas tensões. As frases pichadas em muros, apesar de fazerem alusão aos times de futebol do país, trazem à tona a instabilidade desse urbano que tenta equilibrar uma ordem e hierarquização social com o caos gerado pelas contradições do sistema capitalista. A frase "Arsenal Domina" simboliza, apesar das diversas visões de mundo da população londrina, um movimento de caos que cada vez mais se instala na metrópole.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O Monstro de Florença, de D. Preston e M. Spezi


Capa do livro O Monstro de Florença, de D. Preston e M. Spezi



Assassinatos em série, uma bela cidade italiana palco de muitas das maiores criações artísticas do Renascimento, mutilação de cadáveres e diversos suspeitos detidos, além de teorias envolvendo rituais satânicos. Estes são alguns dos elementos presentes em uma narrativa que facilmente se equivale às mais fantasiosas histórias de serial killers já escritas; contudo, trata-se de uma história real, tão real ao ponto de um dos escritores, Spezi, ter sido oficialmente acusado de ter participação na série de homicídios. Com isso, um relato iniciado como reconstituição dos assassinatos torna-se uma tentativa de Spezi provar sua inocência.

Resenha de O Monstro de Florença


Durante o final dos anos sessenta até meados dos anos oitenta, oito casais foram assassinados na cidade de Florença, na Itália, tendo em comum nesses homicídios a arma utilizada — um revólver — bem como o perfil dos assassinados. Todos eram jovens casais que foram mortos durante o ato sexual em seus carros, estacionados em locais afastados da cidade. Em alguns homicídios, os corpos das mulheres foram mutilados após a morte, sendo retirada a genitália das mesmas.

Apesar de a polícia italiana investigar os assassinatos por trinta e nove anos e efetuar diversas prisões — sendo muitas delas absurdas e carentes de quaisquer evidências — o caso nunca foi solucionado. Mario Spezi, um jornalista investigativo de um jornal de Florença, durante os trinta anos de investigações, acabou se tornando um estorvo para a polícia italiana, porquanto sempre discordava dos rumos tomados pelas investigações. Essa insistência em contrariar as absurdas conclusões policiais levou o mesmo a ficar na mira da polícia italiana, culminando com a sua prisão.

"Durante o processo, Spezi e eu nos apaixonamos pela história... Com Spezi foi pior: ele foi acusado de ser o próprio Monstro de Florença."

Dentre as provas apresentadas pela promotoria, talvez a única aceitável tratava-se de uma rocha encontrada na cena de um dos homicídios, sendo posteriormente encontrada uma rocha parecida na casa de Spezi. Para o inspetor de polícia Giuttari, essa rocha, com um formato um pouco triangular, era um objeto esotérico utilizado em rituais satânicos. Essa rocha mágica, na verdade, não passava de um peso de porta muito utilizado pelos habitantes da região da Toscana.

Preston, um famoso escritor americano de livros policiais, após mudar-se para Florença com a família e tomar conhecimento da história sobre o Monstro de Florença, decidiu escrever um livro sobre esse serial killer que, segundo ele, era pouco conhecido nos Estados Unidos. Após travar conhecimento com Spezi, que era um dos maiores especialistas no assunto, decidiu juntar-se a ele na busca pelo verdadeiro Monstro de Florença.

Em alguns momentos da narrativa, as trapalhadas da polícia italiana chegam a sobressair, relegando a busca pelo verdadeiro assassino a segundo plano, evidenciando, com isso, a precariedade do setor de inteligência da polícia italiana.

"Eu não poderia me manter calado em face de uma investigação tão carente de lógica e justiça, conduzida com preconceito e dotada de confissões sustentadas a qualquer custo."

O conhecimento de Spezi referente aos detalhes dos assassinatos, juntamente com a capacidade de romancista de Preston, faz com que "O Monstro de Florença" seja uma história envolvente do início ao fim, sem em nenhum momento perder o fôlego ou gerar desinteresse no leitor, que acompanha, muitas vezes estarrecido, o desdobramento das investigações, bem como a cobertura tendenciosa da mídia italiana.





quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Os Mortos Vivos, de Peter Straub


Capa do livro Os Mortos Vivos, de Peter Straub



Peter Straub é um dos mais renomados autores do gênero horror nos Estados Unidos. Seu sucesso rendeu-lhe a possibilidade de escrever dois livros com o mestre do horror contemporâneo Stephen King: "O Talismã" e "A Casa Negra".
"Os Mortos-Vivos" é, sem dúvida, o seu romance mais vendido no Brasil, sendo difícil encontrar exemplares de seus outros livros à venda nas livrarias. Apesar do título, que pode levar o leitor ao erro de confundir com a série de filmes "Noite dos Mortos Vivos", o romance passa longe dos clichês das histórias de mortos-vivos, nas quais comedores de cérebros ambulantes atacam uma cidadezinha. O título original "Ghost Story", ou seja, história de fantasma, é um título mais condizente com o enredo do romance. Nele, não vemos mortos recém-saídos do túmulo em busca de carne humana, mas sim uma história bem amarrada que em nenhum momento perde o fôlego, apesar das mais de 500 páginas.

Resenha de Os Mortos Vivos, de Peter Straub


Cena do filme Os Mortos Vivos, de Peter Straub. Alguns homens idosos reunidos

A história gira em torno de um grupo de amigos sexagenários que guardam um terrível segredo envolvendo uma mulher misteriosa. Esses homens fundaram um clube particular, onde se encontram quinzenalmente para contar histórias. Paralelamente, um jovem escritor de livros de horror se envolve com uma mulher misteriosa, que posteriormente se envolve com seu irmão, levando o mesmo ao suicídio. A morte do irmão do escritor, bem como a morte de um membro do grupo dos sexagenários, transforma-se em um gatilho que inicia uma série de acontecimentos bizarros na pequena cidadezinha da costa leste americana, levando o escritor a travar conhecimento com os sexagenários. Essa pequena cidade transforma-se em um palco de diversos acontecimentos sobrenaturais, aliados à chegada de uma nova mulher à cidade; com isso, monta-se o palco para a famosa luta do bem contra o mal.

Apesar de o romance conter alguns clichês, a atmosfera da cidadezinha, que passa por um inverno rigoroso, torna a história atraente. Esse inverno rigoroso cria um isolamento da cidade, bem como uma dificuldade para que ela possa gerar uma união nessa luta contra o mal. Com isso, apenas um pequeno grupo de homens composto por três velhos, um homem e um adolescente, trava combate com esse poderoso inimigo aparentemente invencível. Os sexagenários, após a morte de um membro do grupo, aliado aos sonhos compartilhados cada vez mais terríveis, decidem contatar o sobrinho do falecido, que é autor de histórias de horror.

"Talvez a parte mais estranha de minha presença aqui seja o fato de os amigos de meu tio darem a impressão de que receiam terem sido envolvidos em alguma história de horror da vida real. Pensam que sou algum profissional decidido, um especialista em sobrenatural."

Uma série de mortes misteriosas de animais e humanos justifica o medo dos sexagenários, evidenciando estar algo sobrenatural ocorrendo na pequena cidade.

"Você pisa num pedaço de chão com toda a aparência de sólido e descobre que desmorona sob seu pé; olha para baixo e, ao invés de ver relva, terra, a solidez que esperava, avista uma caverna comprida, onde coisas rastejantes correm de um lado para o outro a fim de escaparem da luz."

No transcorrer da história, não fica evidente que tipo de criaturas são essas que assolam a cidade, contudo algumas pistas surgem sobre a origem delas.

"Essas coisas não são novas [...]. Provavelmente existem há séculos... talvez há mais tempo. E pelo menos há centenas de anos que são comentadas e pessoas escrevem a respeito. Creio que são o que as pessoas costumavam chamar de vampiros e lobisomens. Provavelmente estão por trás de milhares de histórias de fantasmas."

Uma coisa fica clara: esses seres não simplesmente atacam suas vítimas como se fossem animais ferozes, mas sim gostam de levar suas vítimas à loucura antes de matá-las, como se sentissem prazer na insanidade humana.

"Eles estavam há muito tempo à espreita, esperando por uma época em que a loucura oferecesse um panorama mais concreto dos acontecimentos do que a sanidade."

O romance, como quase todo romance de horror, sustenta-se na capacidade do leitor de aceitar alguns fatos ilógicos, tais como: sendo poderosos, por que ainda não dominaram o mundo? Contudo, a partir do momento que o leitor compra a história, a mesma cumpre com o prometido, proporcionando muitos momentos de prazer e alguns sustos. Saciando, com isso, essa necessidade do homem moderno de sentir o desconhecido, a necessidade de dialogar com os seus medos mais irracionais. 
Sem dúvida, um dos melhores livros do gênero.

Gosta de histórias de Terror ? Leia outras resenhas do gênero aqui no blog:



quarta-feira, 14 de setembro de 2016

As aventuras do Sr Pickwick, de Charles Dickens


Capa do livro As aventuras do Sr Pickwick, de Charles Dickens

Charles Dickens é indiscutivelmente um dos autores mais prestigiados da literatura universal. Os enredos de seus livros são conhecidos até por quem nunca leu um de seus volumes.

As Aventuras do Sr. Pickwick talvez seja um dos menos prestigiados livros de Dickens, não tendo o mesmo renome de Oliver Twist, David Copperfield e Grandes Esperanças. Contudo, o romance não fica atrás dos citados, tendo a capacidade de conseguir reter a atenção do leitor pelas mais de 500 páginas da obra, sem que o leitor tenha que empregar grande esforço para tanto.

Próximo ao final da leitura, o leitor sente com pesar a iminente separação. O próprio autor, nas últimas páginas do romance, confessa compartilhar dessa tristeza:

“É a sina de todos os cronistas ou autores o criarem amigos de fantasia e perdê-los, segundo o curso da arte”.

Sem dúvida, personagens tais como Pickwick e Samuel ficarão na memória dos leitores para sempre, deixando o leitor com ânsia de saber em quais aventuras esses personagens estariam metidos após o fim do romance. A história se passa no final da década de vinte do século dezenove, desenrolando-se no interior de uma Inglaterra que começava a vivenciar um crescimento demográfico e tecnológico graças à Revolução Industrial.

"Vai ver uma coisa engraçada... as pessoas de qualidade ainda não chegaram... Lugar divertido... Os funcionários superiores do arsenal da marinha não se dão com os inferiores... os funcionários inferiores não se dão com os burgueses... os burgueses não se dão com os negociantes... o comissário do governo não se dá com ninguém."

Tanto o senhor Pickwick quanto seus companheiros de aventura — Truman, Snodgrass e Winkle — percorrem o interior inglês buscando decifrar a natureza humana. Eles são membros de um clube que tem por nome Clube Pickwick, que tem por objetivo estudar a natureza humana através da observação. Com isso, os personagens viajam pelo interior inglês buscando observar e documentar os hábitos e as paisagens do interior do país como se fossem sociólogos.

"Confessamos francamente que, até o momento em que mergulhamos nos volumosos documentos do Clube Pickwick, nunca tínhamos ouvido falar em Eatanswill; e com a mesma franqueza, admitiremos haver buscado em vão uma prova da existência dessa localidade nos dias que correm. Conhecendo a profunda confiança que se deve depositar em todas as notas e declarações do Sr. Pickwick e não nos atrevendo a opor as nossas recordações às declarações expressas desse grande homem, consultamos todas as autoridades sobre o assunto de que nos poderíamos valer."

Apesar de essas visitas de campo possuírem um caráter científico, tanto apregoado pelos membros, os integrantes do clube acabam se envolvendo em situações engraçadas e até embaraçosas; contudo, essas situações não impedem os personagens de manterem a distinção e a fé na natureza humana. 

Nos lugares por onde passam, os personagens acabam se deparando com diversas histórias que lhes são narradas por diversos tipos que vão desde bêbados, encontrados em bares, até religiosos respeitados. Sendo as mesmas documentadas e narradas no livro, o leitor acaba tendo acesso a diversas tramas paralelas à história principal, sendo muitas delas de caráter místico, tais como: a história do coveiro que é levado por duendes, ou a história da cadeira que decide arranjar um marido para sua dona.

Cada membro do Clube Pickwick possui características próprias que fazem com que esse grupo seja eclético. O Sr. Pickwick, fundador do clube e espécie de mentor dos demais, aparenta ser uma figura extremamente culta e distinta, sendo em alguns casos até ingênuo. Essa ingenuidade faz com que ele se envolva em diversas situações embaraçosas, podendo-se citar: o processo iniciado pela sua senhoria, que alegou que o Sr. Pickwick havia voltado atrás em uma proposta de casamento; e as diversas armadilhas empregadas por um malandro, armadilhas essas que o Sr. Pickwick se mostra incapaz de antever.

O personagem Sam, sendo o fiel escudeiro e criado do Sr. Pickwick, se mostra, apesar de sua pouca instrução em comparação com a de seu senhor, muito mais sagaz que este, sendo responsável, muitas vezes, por livrar o Sr. Pickwick de muitas confusões. As Aventuras do Sr. Pickwick é, sem dúvida, uma excelente obra na qual o leitor tem a oportunidade de acompanhar diversas aventuras engraçadas e emocionantes, sendo um dos maiores clássicos da literatura universal.

"Despeçamo-nos do nosso velho amigo num desses momentos de felicidade sem mistura, dos que sempre encontramos alguns na vida que nos alegrem a transitória existência. Há na terra sombras negras, mas os clarões brilham com mais força, mercê do contraste. Há homens, semelhantes aos morcegos ou aos mochos, que têm melhores olhos para as trevas que para a luz. A nós, que não possuímos esse poder óptico, apraz-nos de preferência lançar o derradeiro olhar de despedida aos companheiros imaginários de muitas horas de isolamento, no instante preciso em que o rápido clarão da felicidade terrena os banha em cheio."

Leia outras resenhas de clássicos da Literatura Universal.



terça-feira, 30 de agosto de 2016

O grande Gatsby- Scott Fitzgerald

Capa do livro O grande Gatsby- Scott Fitzgerald

Publicado pela primeira vez em 1925, O Grande Gatsby retrata a costa leste da América do Norte em plena efervescência gerada pelo progresso e pela riqueza, que seriam apenas interrompidos pela Depressão de 1929.

Nesse leste americano, com ricas famílias tradicionais juntamente com o surgimento, a todo momento, de novos-ricos, vive-se o sonho americano — sonho esse de riqueza, festas e diversões infinitas. Temos contato, durante a leitura, com toda a riqueza e glamour proporcionados pelo dinheiro. Um mundo belo e colorido, porém extremamente fútil.

"O interesse de ambos quase me comoveu, fazendo com que parecessem menos ricos e distantes; {...} quanto a Tom, o fato de ele ter uma mulher em Nova York era, na verdade, menos surpreendente do que o de haver ficado deprimido com a leitura de um livro. Algo estava fazendo com que ele mordiscasse a ponta de algumas ideias sediças, como se o seu vigor físico já não alimentasse o seu coração autoritário."

Cena do filme O grande Gatsby. Um homem de terno  olhando para a tela

"Entramos numa alta biblioteca gótica {...} — A senhora não precisa dar-se ao trabalho de verificar. Eu já o fiz. São verdadeiros. — Os livros? Fez um sinal afirmativo com a cabeça. — Absolutamente verdadeiros... com páginas e tudo. Julguei que fossem feitos de belo e durável papelão. Mas na verdade, são absolutamente reais."

Entre esse nirvana proporcionado pelo dinheiro e a poderosa metrópole americana, Nova York, temos o outro lado da moeda. Lado esse deixado de lado por não ser glamoroso ou belo. Contudo, no romance, ele não passa despercebido, porquanto os ricos, para poderem sair de um local de riqueza e chegarem a outro, são obrigados a atravessar esse território de miséria.

"Esse é um vale de cinzas — uma granja fantástica onde cinzas crescem com o trigo, convertendo-se em cumeeiras, montes e jardins grotescos; onde cinzas adquirem as formas de casas {...} homens cinzentos que se movem vagamente, quase se desfazendo em meio do ar pulverulento."

De um lado temos um mundo colorido, do outro um mundo cinza, onde homens pagam o preço pela riqueza de poucos. Neste mundo antagônico, surge Gatsby, um homem misterioso que enriqueceu do nada, sendo ao mesmo tempo reservado com respeito à sua vida privada e espalhafatoso na sua vida pública, promovendo inúmeras festas frequentadas, na sua maioria, por pessoas que nunca o viram pessoalmente. Em uma América onde o progresso criou a possibilidade de se acumularem fortunas da noite para o dia, sua figura é repleta de mistérios.

Cena do filme O grande Gatsby. Um homem e mulher dançando

"Procurem vê-lo quando ele pensa que ninguém está olhando para ele. Aposto que ele já matou alguém."

No transcorrer do romance, vamos aos poucos desvendando a figura de Gatsby, bem como o seu objetivo final. Apesar de toda a riqueza, ele não se sente satisfeito e feliz. Falta para ele reconquistar o amor de sua vida. A luta por esse amor apresenta-se comprometida, de um lado pelo fato de ela ser casada e, de outro, pelo fato de Gatsby ter passado muitos anos alimentando esse amor, fazendo com que não seja mais capaz de enxergar a mulher por trás de suas fantasias.

"Quase cinco anos. Devia ter havido momentos, mesmo naquela tarde, em que Daisy ficara muito aquém de seus sonhos — não por culpa dela, mas devido à enorme vitalidade da ilusão que ele alimentara. A ilusão tinha-se projetado além dela, além de tudo. Ele lançara-se ao seu sonho com uma paixão criadora, acrescentando-lhe incessantemente alguma coisa, enfeitando-o com todas as vistosas plumagens com que deparava."

Gatsby acabou sendo vítima de seus sonhos, sempre buscando a todo custo efetivá-los; contudo, entre o sonhar e a real efetivação dos mesmos, temos nossa imaginação, que sempre estará um passo à frente da possibilidade do real.

"Gatsby acreditou no futuro que, ano após ano, se afasta de nós. Esse futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa, estenderemos mais os braços... E, uma bela manhã... E assim prosseguiremos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado."








sexta-feira, 24 de junho de 2016

Caetés- Graciliano Ramos



Capa do livro Caetés- Graciliano Ramos

Primeiro romance de Graciliano Ramos, publicado em 1933, Caetés tem por tema o cotidiano da classe média do interior nordestino na primeira metade do século XX. O romance é ambientado no município de Palmeira dos Índios, em Alagoas. O protagonista narra em primeira pessoa suas aventuras amorosas e a tentativa de lançar-se na carreira literária.

Resenha de Caetés

Inicialmente, sua paixão pela esposa de seu chefe apresenta-se como tema central do romance. O protagonista mostra-se uma pessoa sonhadora, vivendo com um pé na realidade e outro nas suas fantasias:

"Embrenhei-me numa fantasia doida por aí além, de tal sorte que em poucos minutos Adrião se finou, padre Anastácio pôs a estola sobre minha mão e a de Luíza, os meninos cresceram, gordos, vermelhos, dois machos e duas fêmeas. À meia-noite andávamos pelo Rio de Janeiro; os rapazes estavam na academia, tudo sabido, quase doutor; uma pequena tinha casado com um médico, a outra com um fazendeiro — e nós íamos no dia seguinte visitá-las em São Paulo."

Sua paixão pela esposa de seu chefe, aliada às suas fantasias, faz com que ele romantize Luíza, vendo-a como um ser perfeito, sem realmente enxergá-la como ela realmente era:
"Entretive-me durante um mês a orná-la com abundância de virtudes raras. Além das que ela possui, e que são muitas, dei-lhe outras. E lamentei que meu espírito minguado não pudesse conceber perfeições maiores para jogar sobre ela."

Com o desenvolvimento da história, sua tentativa de escrever um romance histórico acaba se destacando. Ele busca escrever um romance sobre os índigenas que habitavam a região alagoana antes da vinda dos portugueses. Contudo, encontra muitas dificuldades para terminá-lo:

"Também aventurar-me a fabricar um romance histórico sem conhecer história! Os meus Caetés realmente não têm verossimilhança, porque deles apenas sei que existiram, andando nus e comiam gente. Li, na escola primária, uns carapetões interessantes no Gonçalves Dias e no Alencar, mas já esqueci quase tudo. Sorria-me, entretanto, a esperança de poder transformar esse material arcaico numa brochura de cem a duzentas páginas, cheia de lorotas em bom estilo."

Ao tentar efetivar essa empreitada, o autor, ao analisar os costumes da sociedade na qual está inserido, acaba encontrando semelhanças entre o povo Caeté e a sociedade de Palmeira dos Índios, mesclando-os na história:

"Escrevi dez tiras salpicadas de maracás, igaçabas, penas de arara, cestos, redes de caroá, jiraus, cabaças, arcos e tacapes. Dei pedaços de Adrião Teixeira ao ajé: o beiço caído, a perna claudicante, os olhos embaçados; para completá-lo, emprestei-lhe as orelhas de padre Anastácio. Fiz do morubixaba um bicho feroz, pintei-lhe o corpo e enfeitei-o."

Quatrocentos anos de civilização separam o povo caeté dos atuais (1933) habitantes de Palmeira dos Índios. Para o protagonista, inicialmente, aqueles selvagens em nada se assemelhavam à atual sociedade de Palmeira dos Índios. Contudo, após diversas tentativas de contar a história daquele povo, finalmente percebeu que, na verdade, estava tentando contar a história de seu próprio povo:

"Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. E eu disse que não sabia o que passava na mente de um caeté! Provavelmente o que se passa na minha, com algumas diferenças. Um caeté de olhos azuis, que fala português ruim, sabe escrituração mercantil, lê jornais, ouve missas. É isto, um caeté."

O protagonista, ao analisar os caminhos que tomou em sua vida, chega à conclusão de que, apesar de estarmos inseridos em uma sociedade que se considera superior às sociedades primitivas, estando em um estágio supremo da civilização, continuamos tendo os mesmos desejos e agindo, muitas vezes, como selvagens.


"Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo — uma estrela no céu, algumas mulheres na terra..."

Gosta de Graciliano Ramos ? Leia a resenha de um dos seus livros mais famosos: São Bernardo. 









segunda-feira, 23 de maio de 2016

Os demônios -Fiódor Dostoiévski



Capa do livro Os demônios -Fiódor Dostoiévski

Apesar de Dostoiévski ser reconhecidamente um dos maiores nomes da literatura mundial, ele não era bem visto na União Soviética. Seus livros causavam certo desconforto no regime, não servindo para a propagação dos ideais comunistas. Com isso, Dostoiévski foi tachado de reacionário, relegado a um segundo plano em detrimento de outros escritores contemporâneos a ele.

O desconforto criado pelos seus livros se deve ao fato de Dostoiévski procurar, em suas obras, compreender e discutir as influências das paixões e sensações na caracterização psicológica do indivíduo, podendo ser considerado um existencialista. Para ele, o ser humano é dividido em duas vertentes: uma racional e outra mística.

Vale lembrar que, no século XIX, predominavam na Europa os ideais positivistas. Ou seja, em oposição às ideias religiosas que predominavam na Idade Média — ideias essas embasadas no criacionismo —, buscava-se organizar a sociedade através do conhecimento racional e científico, tido como verdadeiro. Contudo, Dostoiévski ia na contramão desse movimento, porquanto acreditava que o ser humano não poderia apenas ser entendido através de suas ações racionais. Para ele, o ser humano possui uma vertente mística, no sentido de não ser possível compreender determinados comportamentos através da análise científica racional.

Para ele, o ser humano é dotado de subjetividade, sendo seu comportamento fruto da racionalidade juntamente com as paixões. Após ser preso por tramar contra a vida do czar russo, Dostoiévski passou alguns anos em uma prisão na Sibéria. Essa experiência resultou no livro "Recordações da Casa dos Mortos". Na prisão, Dostoiévski conviveu com perigosos detentos, muitos deles assassinos. Ao compartilhar do mesmo cotidiano com esses detentos, Dostoiévski verificou que eles não eram  diferentes das pessoas tidas como normais. Muitos desses assassinos partilhavam das mesmas paixões e desejos encontrados em todas as pessoas, sendo capazes de ser sensíveis, simpáticos e de amarem.

Para Dostoiévski, o que os diferencia do resto da sociedade é o fato de terem cruzado a linha que determina o comportamento socialmente aceito. Com isso, Dostoiévski mostrará, através de seus livros, que as paixões humanas têm um papel importante na formação humana, sendo parte constituinte do ser humano, estando, com isso, o indivíduo em constante embate entre seu lado racional e emocional.

Resenha de Os Demônios


Em uma União Soviética que propagava ideais comunistas pautados na coletividade, essa subjetividade humana não teria espaço, porquanto haveria problemas para a efetivação desse pensamento coletivista em um mundo onde predominam as paixões individuais. O romance "Os Demônios" chegou a ser censurado na União Soviética, porquanto é tido como uma crítica aos ideais revolucionários de esquerda. Dostoiévski compara a história do romance à passagem bíblica em que Jesus encontra-se com um endemoniado. Segundo ele, os indivíduos influenciados por essa ideologia de esquerda assemelham-se ao endemoniado da passagem bíblica, devido ao fato de estarem possuídos por essa ideologia, sendo que acabam, através de coerções, transformando-se em marionetes.

Segundo o personagem Chatov, os movimentos socialistas do século XIX buscavam, através da ciência e da razão, compreender todos os aspectos da existência humana. Para ele, esses movimentos acabavam por excluir de suas análises esse lado místico do homem, criando, com isso, um modelo de sociedade que excluía os sentimentos humanos tão importantes para a compreensão do ser humano.

"Povo nenhum pôde jamais se organizar sobre a terra em bases científicas e racionais; povo nenhum o conseguiu, salvo talvez pela duração de um instante, e por estupidez pura. O socialismo na sua essência é ateu, porque proclamou desde o início que se propõe a edificar uma sociedade baseada unicamente na ciência e na razão. Por toda a parte e sempre, desde o começo dos tempos, a razão e a ciência só desempenharam na existência dos povos um papel subalterno, a serviço da vida; e assim será sempre, até o fim dos séculos."

Pintura de Dostoiévski

Para Chatov, a ciência e a razão só desempenharam um papel subalterno na existência dos povos, sendo guiados, na maior parte do tempo, pelas paixões. Muitos modelos de sociedades socialistas, pautados no coletivismo, foram idealizados sem que se fosse pensado como se dariam as relações do cotidiano entre as pessoas — relações essas impregnadas de sentimentos relacionados às características individuais, características essas que, muitas vezes, não podem ser equacionadas pela razão.

"Os povos se constituem e se desenvolvem movidos por uma força diferente, uma força soberana, cuja origem se mantém desconhecida e inexplicável. Essa força é o desejo inextinguível de atingir um fim e ao mesmo tempo a negação desse fim."

As críticas ao socialismo presentes no livro, escrito décadas antes da Revolução de 1917, acabaram se concretizando no regime soviético, pautado pela violência devido à necessidade dos governantes de controlar as paixões humanas, buscando sempre suprimir o individualismo. Contudo, a crítica aos modelos de sociedades socialistas não faz com que Dostoiévski possa ser considerado um capitalista. Em diversos trechos de seus livros, ele critica o sistema capitalista, que em muitos casos busca se aproveitar das paixões humanas para lucrar mais; vide a indústria cultural e a alienação do consumo.

Dostoiévski, como um estudioso da mente humana, traz elementos indispensáveis para o debate dos rumos que a sociedade pode tomar, devendo o fato de sua visão tornar as relações sociais mais complexas ser visto como possibilidade de uma nova compreensão das relações sociais.

Leia a resenha de outros livros de Dostoiévski: