terça-feira, 30 de agosto de 2016

O grande Gatsby- Scott Fitzgerald

Capa do livro O grande Gatsby- Scott Fitzgerald

Publicado pela primeira vez em 1925, O Grande Gatsby retrata a costa leste da América do Norte em plena efervescência gerada pelo progresso e pela riqueza, que seriam apenas interrompidos pela Depressão de 1929.

Nesse leste americano, com ricas famílias tradicionais juntamente com o surgimento, a todo momento, de novos-ricos, vive-se o sonho americano — sonho esse de riqueza, festas e diversões infinitas. Temos contato, durante a leitura, com toda a riqueza e glamour proporcionados pelo dinheiro. Um mundo belo e colorido, porém extremamente fútil.

"O interesse de ambos quase me comoveu, fazendo com que parecessem menos ricos e distantes; {...} quanto a Tom, o fato de ele ter uma mulher em Nova York era, na verdade, menos surpreendente do que o de haver ficado deprimido com a leitura de um livro. Algo estava fazendo com que ele mordiscasse a ponta de algumas ideias sediças, como se o seu vigor físico já não alimentasse o seu coração autoritário."

Cena do filme O grande Gatsby. Um homem de terno  olhando para a tela

"Entramos numa alta biblioteca gótica {...} — A senhora não precisa dar-se ao trabalho de verificar. Eu já o fiz. São verdadeiros. — Os livros? Fez um sinal afirmativo com a cabeça. — Absolutamente verdadeiros... com páginas e tudo. Julguei que fossem feitos de belo e durável papelão. Mas na verdade, são absolutamente reais."

Entre esse nirvana proporcionado pelo dinheiro e a poderosa metrópole americana, Nova York, temos o outro lado da moeda. Lado esse deixado de lado por não ser glamoroso ou belo. Contudo, no romance, ele não passa despercebido, porquanto os ricos, para poderem sair de um local de riqueza e chegarem a outro, são obrigados a atravessar esse território de miséria.

"Esse é um vale de cinzas — uma granja fantástica onde cinzas crescem com o trigo, convertendo-se em cumeeiras, montes e jardins grotescos; onde cinzas adquirem as formas de casas {...} homens cinzentos que se movem vagamente, quase se desfazendo em meio do ar pulverulento."

De um lado temos um mundo colorido, do outro um mundo cinza, onde homens pagam o preço pela riqueza de poucos. Neste mundo antagônico, surge Gatsby, um homem misterioso que enriqueceu do nada, sendo ao mesmo tempo reservado com respeito à sua vida privada e espalhafatoso na sua vida pública, promovendo inúmeras festas frequentadas, na sua maioria, por pessoas que nunca o viram pessoalmente. Em uma América onde o progresso criou a possibilidade de se acumularem fortunas da noite para o dia, sua figura é repleta de mistérios.

Cena do filme O grande Gatsby. Um homem e mulher dançando

"Procurem vê-lo quando ele pensa que ninguém está olhando para ele. Aposto que ele já matou alguém."

No transcorrer do romance, vamos aos poucos desvendando a figura de Gatsby, bem como o seu objetivo final. Apesar de toda a riqueza, ele não se sente satisfeito e feliz. Falta para ele reconquistar o amor de sua vida. A luta por esse amor apresenta-se comprometida, de um lado pelo fato de ela ser casada e, de outro, pelo fato de Gatsby ter passado muitos anos alimentando esse amor, fazendo com que não seja mais capaz de enxergar a mulher por trás de suas fantasias.

"Quase cinco anos. Devia ter havido momentos, mesmo naquela tarde, em que Daisy ficara muito aquém de seus sonhos — não por culpa dela, mas devido à enorme vitalidade da ilusão que ele alimentara. A ilusão tinha-se projetado além dela, além de tudo. Ele lançara-se ao seu sonho com uma paixão criadora, acrescentando-lhe incessantemente alguma coisa, enfeitando-o com todas as vistosas plumagens com que deparava."

Gatsby acabou sendo vítima de seus sonhos, sempre buscando a todo custo efetivá-los; contudo, entre o sonhar e a real efetivação dos mesmos, temos nossa imaginação, que sempre estará um passo à frente da possibilidade do real.

"Gatsby acreditou no futuro que, ano após ano, se afasta de nós. Esse futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa, estenderemos mais os braços... E, uma bela manhã... E assim prosseguiremos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado."








sexta-feira, 24 de junho de 2016

Caetés- Graciliano Ramos



Capa do livro Caetés- Graciliano Ramos

Primeiro romance de Graciliano Ramos, publicado em 1933, Caetés tem por tema o cotidiano da classe média do interior nordestino na primeira metade do século XX. O romance é ambientado no município de Palmeira dos Índios, em Alagoas. O protagonista narra em primeira pessoa suas aventuras amorosas e a tentativa de lançar-se na carreira literária.

Resenha de Caetés

Inicialmente, sua paixão pela esposa de seu chefe apresenta-se como tema central do romance. O protagonista mostra-se uma pessoa sonhadora, vivendo com um pé na realidade e outro nas suas fantasias:

"Embrenhei-me numa fantasia doida por aí além, de tal sorte que em poucos minutos Adrião se finou, padre Anastácio pôs a estola sobre minha mão e a de Luíza, os meninos cresceram, gordos, vermelhos, dois machos e duas fêmeas. À meia-noite andávamos pelo Rio de Janeiro; os rapazes estavam na academia, tudo sabido, quase doutor; uma pequena tinha casado com um médico, a outra com um fazendeiro — e nós íamos no dia seguinte visitá-las em São Paulo."

Sua paixão pela esposa de seu chefe, aliada às suas fantasias, faz com que ele romantize Luíza, vendo-a como um ser perfeito, sem realmente enxergá-la como ela realmente era:
"Entretive-me durante um mês a orná-la com abundância de virtudes raras. Além das que ela possui, e que são muitas, dei-lhe outras. E lamentei que meu espírito minguado não pudesse conceber perfeições maiores para jogar sobre ela."

Com o desenvolvimento da história, sua tentativa de escrever um romance histórico acaba se destacando. Ele busca escrever um romance sobre os índigenas que habitavam a região alagoana antes da vinda dos portugueses. Contudo, encontra muitas dificuldades para terminá-lo:

"Também aventurar-me a fabricar um romance histórico sem conhecer história! Os meus Caetés realmente não têm verossimilhança, porque deles apenas sei que existiram, andando nus e comiam gente. Li, na escola primária, uns carapetões interessantes no Gonçalves Dias e no Alencar, mas já esqueci quase tudo. Sorria-me, entretanto, a esperança de poder transformar esse material arcaico numa brochura de cem a duzentas páginas, cheia de lorotas em bom estilo."

Ao tentar efetivar essa empreitada, o autor, ao analisar os costumes da sociedade na qual está inserido, acaba encontrando semelhanças entre o povo Caeté e a sociedade de Palmeira dos Índios, mesclando-os na história:

"Escrevi dez tiras salpicadas de maracás, igaçabas, penas de arara, cestos, redes de caroá, jiraus, cabaças, arcos e tacapes. Dei pedaços de Adrião Teixeira ao ajé: o beiço caído, a perna claudicante, os olhos embaçados; para completá-lo, emprestei-lhe as orelhas de padre Anastácio. Fiz do morubixaba um bicho feroz, pintei-lhe o corpo e enfeitei-o."

Quatrocentos anos de civilização separam o povo caeté dos atuais (1933) habitantes de Palmeira dos Índios. Para o protagonista, inicialmente, aqueles selvagens em nada se assemelhavam à atual sociedade de Palmeira dos Índios. Contudo, após diversas tentativas de contar a história daquele povo, finalmente percebeu que, na verdade, estava tentando contar a história de seu próprio povo:

"Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. E eu disse que não sabia o que passava na mente de um caeté! Provavelmente o que se passa na minha, com algumas diferenças. Um caeté de olhos azuis, que fala português ruim, sabe escrituração mercantil, lê jornais, ouve missas. É isto, um caeté."

O protagonista, ao analisar os caminhos que tomou em sua vida, chega à conclusão de que, apesar de estarmos inseridos em uma sociedade que se considera superior às sociedades primitivas, estando em um estágio supremo da civilização, continuamos tendo os mesmos desejos e agindo, muitas vezes, como selvagens.


"Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo — uma estrela no céu, algumas mulheres na terra..."

Gosta de Graciliano Ramos ? Leia a resenha de um dos seus livros mais famosos: São Bernardo. 









segunda-feira, 23 de maio de 2016

Os demônios -Fiódor Dostoiévski



Capa do livro Os demônios -Fiódor Dostoiévski

Apesar de Dostoiévski ser reconhecidamente um dos maiores nomes da literatura mundial, ele não era bem visto na União Soviética. Seus livros causavam certo desconforto no regime, não servindo para a propagação dos ideais comunistas. Com isso, Dostoiévski foi tachado de reacionário, relegado a um segundo plano em detrimento de outros escritores contemporâneos a ele.

O desconforto criado pelos seus livros se deve ao fato de Dostoiévski procurar, em suas obras, compreender e discutir as influências das paixões e sensações na caracterização psicológica do indivíduo, podendo ser considerado um existencialista. Para ele, o ser humano é dividido em duas vertentes: uma racional e outra mística.

Vale lembrar que, no século XIX, predominavam na Europa os ideais positivistas. Ou seja, em oposição às ideias religiosas que predominavam na Idade Média — ideias essas embasadas no criacionismo —, buscava-se organizar a sociedade através do conhecimento racional e científico, tido como verdadeiro. Contudo, Dostoiévski ia na contramão desse movimento, porquanto acreditava que o ser humano não poderia apenas ser entendido através de suas ações racionais. Para ele, o ser humano possui uma vertente mística, no sentido de não ser possível compreender determinados comportamentos através da análise científica racional.

Para ele, o ser humano é dotado de subjetividade, sendo seu comportamento fruto da racionalidade juntamente com as paixões. Após ser preso por tramar contra a vida do czar russo, Dostoiévski passou alguns anos em uma prisão na Sibéria. Essa experiência resultou no livro "Recordações da Casa dos Mortos". Na prisão, Dostoiévski conviveu com perigosos detentos, muitos deles assassinos. Ao compartilhar do mesmo cotidiano com esses detentos, Dostoiévski verificou que eles não eram  diferentes das pessoas tidas como normais. Muitos desses assassinos partilhavam das mesmas paixões e desejos encontrados em todas as pessoas, sendo capazes de ser sensíveis, simpáticos e de amarem.

Para Dostoiévski, o que os diferencia do resto da sociedade é o fato de terem cruzado a linha que determina o comportamento socialmente aceito. Com isso, Dostoiévski mostrará, através de seus livros, que as paixões humanas têm um papel importante na formação humana, sendo parte constituinte do ser humano, estando, com isso, o indivíduo em constante embate entre seu lado racional e emocional.

Resenha de Os Demônios


Em uma União Soviética que propagava ideais comunistas pautados na coletividade, essa subjetividade humana não teria espaço, porquanto haveria problemas para a efetivação desse pensamento coletivista em um mundo onde predominam as paixões individuais. O romance "Os Demônios" chegou a ser censurado na União Soviética, porquanto é tido como uma crítica aos ideais revolucionários de esquerda. Dostoiévski compara a história do romance à passagem bíblica em que Jesus encontra-se com um endemoniado. Segundo ele, os indivíduos influenciados por essa ideologia de esquerda assemelham-se ao endemoniado da passagem bíblica, devido ao fato de estarem possuídos por essa ideologia, sendo que acabam, através de coerções, transformando-se em marionetes.

Segundo o personagem Chatov, os movimentos socialistas do século XIX buscavam, através da ciência e da razão, compreender todos os aspectos da existência humana. Para ele, esses movimentos acabavam por excluir de suas análises esse lado místico do homem, criando, com isso, um modelo de sociedade que excluía os sentimentos humanos tão importantes para a compreensão do ser humano.

"Povo nenhum pôde jamais se organizar sobre a terra em bases científicas e racionais; povo nenhum o conseguiu, salvo talvez pela duração de um instante, e por estupidez pura. O socialismo na sua essência é ateu, porque proclamou desde o início que se propõe a edificar uma sociedade baseada unicamente na ciência e na razão. Por toda a parte e sempre, desde o começo dos tempos, a razão e a ciência só desempenharam na existência dos povos um papel subalterno, a serviço da vida; e assim será sempre, até o fim dos séculos."

Pintura de Dostoiévski

Para Chatov, a ciência e a razão só desempenharam um papel subalterno na existência dos povos, sendo guiados, na maior parte do tempo, pelas paixões. Muitos modelos de sociedades socialistas, pautados no coletivismo, foram idealizados sem que se fosse pensado como se dariam as relações do cotidiano entre as pessoas — relações essas impregnadas de sentimentos relacionados às características individuais, características essas que, muitas vezes, não podem ser equacionadas pela razão.

"Os povos se constituem e se desenvolvem movidos por uma força diferente, uma força soberana, cuja origem se mantém desconhecida e inexplicável. Essa força é o desejo inextinguível de atingir um fim e ao mesmo tempo a negação desse fim."

As críticas ao socialismo presentes no livro, escrito décadas antes da Revolução de 1917, acabaram se concretizando no regime soviético, pautado pela violência devido à necessidade dos governantes de controlar as paixões humanas, buscando sempre suprimir o individualismo. Contudo, a crítica aos modelos de sociedades socialistas não faz com que Dostoiévski possa ser considerado um capitalista. Em diversos trechos de seus livros, ele critica o sistema capitalista, que em muitos casos busca se aproveitar das paixões humanas para lucrar mais; vide a indústria cultural e a alienação do consumo.

Dostoiévski, como um estudioso da mente humana, traz elementos indispensáveis para o debate dos rumos que a sociedade pode tomar, devendo o fato de sua visão tornar as relações sociais mais complexas ser visto como possibilidade de uma nova compreensão das relações sociais.

Leia a resenha de outros livros de Dostoiévski:



 

terça-feira, 10 de maio de 2016

O retrato de Dorian Gray- Oscar Wilde



Capa do livro O retrato de Dorian Gray- Oscar Wilde

Em uma época em que prevalecia uma literatura realista permeada de valores vitorianos, onde se buscava retratar a dinâmica social e, em muitos casos, contestá-la, surge um movimento artístico cunhado de esteticismo, pautado pela apreciação da arte por ela mesma. Ou seja: enquanto os realistas buscavam uma utilidade social para a arte, os esteticistas buscavam apreciá-la como sendo o seu único fim. Com isso, surge o termo "arte pela arte".

"Toda arte é completamente inútil."

A vida tumultuada de Oscar Wilde — ele chegou a ser preso por atos indecorosos — demonstra bem sua concepção de vida. Wilde perseguia o belo, livre de quaisquer preconceitos ou convenções sociais. Em um mundo perverso e cheio de contradições, Wilde via a arte como subterfúgio da tristeza da existência humana.

"Posso simpatizar com tudo, menos com o sofrimento [...] Com isso não posso simpatizar. É demasiado feio, demasiado horrível, demasiado aflitivo. Há algo de terrivelmente mórbido na simpatia moderna pela dor. Devemos simpatizar com a cor, com a beleza, com a alegria da vida. Quanto menos se fale das chagas da vida, tanto melhor."

Resenha de O retrato de Dorian Gray


Em determinado trecho do romance, verifica-se toda a entrega do artista na produção artística. O artista transforma-se em escravo da arte, perseguindo um ideal que transcende o nível do real. No trecho a seguir, o artista, tendo a oportunidade única proporcionada pela história, tem a oportunidade de dialogar com sua criação:

"Para mim, você se converteu na encarnação visível desse ideal invisível que nos persegue a nós, artistas, como um sonho estranho. Foi devoção o que senti por você [...]. Queria você só para mim. Só era feliz quando estava com você. [...] Havia visto a perfeição face a face e o mundo se tornou maravilhoso demais."

Muitos utopistas buscaram transformar o social no intuito de se alcançar um mundo melhor; contudo, essa busca não gerou muitos frutos. Os esteticistas, ao deixarem de lado essa busca, concentraram-se na realização humana através da arte. No romance de Wilde, o artista, Basil Hallward, encontra no jovem Dorian Gray a perfeição física e a pureza mental muitas vezes somente encontradas na juventude — época em que os vícios ainda não corromperam a beleza humana. Com isso, decide imortalizá-lo em um retrato.

Ao término da confecção do retrato, surge o amigo de Basil, Sr. Henry Wotton. Ao contrário de Basil, que vive para a arte, o Sr. Wotton vive para seu prazer, manipulando e destruindo tudo que estiver no seu caminho. Ao se deparar com o jovem Gray, o Sr. Wotton vislumbra a possibilidade de, através de jogos psicológicos, moldá-lo e corrompê-lo.

"Estava de fato convencido de que o método experimental era o único pelo qual se podia chegar a uma análise científica das paixões, e Dorian Gray era, certamente, um indivíduo feito para as suas mãos e que parecia prometer ricos e frutuosos resultados."

"Influenciar uma pessoa é transmitir-lhe a nossa própria alma. Ela já não pensa com seus pensamentos naturais, nem arde com suas paixões naturais. As suas virtudes não são reais para ela. Os seus pecados, se é que existem pecados, são emprestados. Ela se converte em eco de uma música alheia, em ator de um papel que não foi escrito para ela."

O Sr. Wotton vai aos poucos corrompendo o jovem Dorian. Através de jogos psicológicos, destrói a pureza do jovem, lançando-o nos maiores vícios e quebrando todos os tabus sociais. Dorian passa a viver para o prazer, seja ele qual for, sem preocupar-se com os efeitos dessa busca sobre si mesmo e sobre os outros.

"Nunca procurei a felicidade. Quem no mundo deseja a felicidade? Procurei o prazer."

Retrato de Oscar Wilde

Sua jovem noiva, uma atriz pobre que o encantou pelo seu talento e beleza, comete suicídio após ser abandonada por Dorian. Ele demonstra não sentir remorsos pelo ocorrido, como se tivesse perdido a capacidade de medir as consequências de seus atos.

Todas essas experiências vivenciadas de forma inconsequente por Dorian não degradaram sua beleza física e mental. Ao passar dos anos, Dorian continuava jovem e sadio. Isso se deu graças a um pacto que o mesmo fez, ainda jovem, ao vislumbrar seu retrato finalizado por Basil. Ao contemplar o quadro, percebe que sua beleza transportada para a tela permanecerá intacta apenas ali, enquanto ele envelhecerá e perderá sua juventude.

"Como é triste! Tornar-me-ei velho, horrível, espantoso. Mas este retrato permanecerá sempre jovem."

Diante disso, Dorian faz um pacto, ofertando sua alma em troca de que, em vez dele, seu retrato suporte o peso do tempo e dos vícios adquiridos. Com isso, o retrato passa a envelhecer e guardar as marcas dos vícios de Dorian, enquanto ele permanece jovem e sadio. Ao fazer esse pacto, Dorian não simplesmente se livrou da degradação física, mas também de sua alma, porquanto nossa degradação serve de alerta para que possamos repensar nossa existência.

Com o tempo, a existência do retrato atormenta Dorian, porquanto contemplá-lo é como se estivesse contemplando sua própria alma. Dorian decide destruir o retrato para recuperar seu sossego.

"Mataria o passado e tornar-se-ia livre. Mataria aquela monstruosa alma visível e, sem suas hediondas advertências, recuperaria o sossego."

Contudo, Dorian não havia compreendido que, na verdade, seu retrato continha sua humanidade e, sem ele, Dorian não existiria.





quarta-feira, 23 de março de 2016

Nihonjin - Oscar Nakasato


Capa do livro Nihonjin - oscar Nakasato


De fácil leitura, utilizando-se de uma prosa simples e direta, o romance consegue prender a atenção do leitor, que acompanha as aventuras e desventuras dos japoneses em terras brasileiras. O Brasil apresentava-se para eles como um país de idioma e cultura estranhos que vivenciava, no início do século XX, a formação de um caldeirão cultural, fruto da crescente imigração estrangeira atraída pela necessidade de mão de obra nas plantações de café.

O fim da escravidão em 1888, aliado ao desenvolvimento do cultivo do café no interior paulista, gerou a crescente necessidade de mão de obra nas lavouras, sendo essa demanda preenchida por imigrantes europeus e asiáticos que desembarcavam nos portos brasileiros em busca de oportunidades.

Resenha de Nihonjin 


O romance é narrado por um neto de japoneses que busca, através do relato de seus parentes, compreender suas origens por meio da reconstrução da trajetória de sua família em terras brasileiras.

Para os japoneses que se dirigiam para as nossas terras, o Brasil aparentava ser uma terra estranha repleta de riquezas, necessitando apenas de pessoas dispostas a trabalhar com afinco. Muitos dos que vieram acreditavam que permaneceriam apenas alguns anos em terras brasileiras, tempo suficiente para juntarem um determinado capital que seria empregado em alguma atividade lucrativa no Japão:

Hideo prosseguiu falando, agora sobre os seus projetos pessoais: teria uma loja de utensílios domésticos em Tóquio ou Osaka”.

A expectativa de adquirir capital, demonstrada pelos imigrantes, era baseada na confiança que depositavam na capacidade de decisão de seu imperador, porquanto ele incentivou a imigração de japoneses para o Brasil, afirmando ser possível ganhar dinheiro rapidamente no país do "ouro verde". Contudo, a realidade encontrada pelos imigrantes fez com que muitos se desiludissem.

O imperador do Japão enganava os agricultores pobres e os desempregados da cidade, dizendo que deveriam imigrar porque ganhariam dinheiro rapidamente no Brasil. Mas que, na verdade, era um projeto para expulsar a população pobre, pois havia muitos excedentes no país”.

Ao contrário do que esperavam, os japoneses acabaram sendo explorados nas fazendas de café, e o pouco que ganhavam era consumido nos armazéns das fazendas, que vendiam os alimentos a preços abusivos. Após o sucesso da exportação do café brasileiro, a depressão americana de 1929 fez com que os barões do café brasileiros fossem obrigados a reinvestir o capital gerado pelo café em atividades industriais na cidade de São Paulo, fato que gerou um êxodo da população do campo para a cidade. Com isso, surgiram os primeiros bairros operários de São Paulo, entre eles a Liberdade, sendo a maior comunidade japonesa no Brasil.

Apesar de todas as dificuldades, fica evidente a capacidade de perseverança e adaptação dos imigrantes japoneses às diversas reviravoltas econômicas ocorridas no final do século XIX e início do século XX. A crise econômica japonesa impulsionou a imigração para o Brasil; posteriormente, a crise do café impulsionou o êxodo do campo para a cidade. Apesar de todas essas mudanças, os imigrantes japoneses demonstraram grande capacidade de adaptação e um forte sentimento de união, buscando ao máximo preservar sua cultura.

Pode-se citar a repulsa à miscigenação como um dos fatores determinantes para a manutenção da cultura japonesa em terras brasileiras. Não era aceitável o casamento com pessoas de fora da comunidade, sendo o ato considerado uma ofensa sem perdão:

Foto de Imigrantes japoneses trabalhando em uma fazenda

“lamentava que a caçula de Oshiosun estivesse namorando um gaijim, que era vergonha para a família, que se fosse sua filha não permitiria, que se houvesse teimosia a expulsaria de casa, e então, seria como se ela tivesse morrido”.

Contudo, o surgimento de novas gerações, nascidas em solo brasileiro sem nunca terem estado no Japão, fez com que parte dessa cultura japonesa fosse sendo gradativamente modificada. Muitos jovens já incorporavam os costumes da cultura brasileira:

uma nova vida, que não era a vida japonesa nem a vida brasileira”.

Esse hibridismo cultural gerou conflitos dentro da comunidade japonesa, conflitos que resultaram em mortes e foram determinantes para a desunião de diversas famílias. O romance é finalizado com a decisão do narrador de migrar para o Japão. Seu avô, que no início do século havia realizado a trajetória inversa, demonstrou insatisfação com a decisão de seu neto, pois ele conhecia a dificuldade de se adaptar a uma nova cultura.

Contudo, ao contrário de seu avô, o rapaz não decidiu migrar somente devido a questões econômicas; ele buscava encontrar no Japão suas origens, descobrir sua identidade, acreditando ser possível encontrá-la no Japão:

Disse-lhe que o ato era ida, mas tinha para mim um sentido de retorno”

A busca pela sua identidade o motivou a tentar reconstruir a trajetória de seus ancestrais; contudo, isso não foi suficiente. Sua busca o levou a fazer o caminho inverso de seus antepassados, buscando encontrar no Japão as peças que faltavam para completar o quebra-cabeça de sua vida.





quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Fogo Morto- José Lins do Rego

Capa do livro Fogo Morto- José Lins do  Rego


José Lins do Rego foi um dos maiores nomes da literatura brasileira. Devido à conjuntura da época, os escritores brasileiros tinham por responsabilidade não somente escrever boas histórias, mas também discutir a realidade brasileira, porquanto não tínhamos sociólogos e antropólogos consolidados. Com isso, diversos intelectuais tomaram para si a responsabilidade de discutir a realidade social de um país de tamanho continental que estava dando seus primeiros passos dentro de uma realidade republicana democrática.

Rego faz parte de uma geração literária, pós-Semana de 22, denominada Regionalismo de 30. No século XIX, a maioria dos romances eram ambientados na antiga capital brasileira ou, quando muito, em São Paulo. Apesar de ser de vital importância a compreensão das relações que ocorriam no antigo centro político brasileiro, o país não se resumia ao Sudeste. Para se compreender a nação brasileira, fazia-se necessário o diálogo com outras regiões do país.

Rego fez parte de uma geração de escritores nordestinos que tomaram para si a missão de desvelar o Nordeste brasileiro, podendo citar os romances: Os Sertões, de Euclides da CunhaCapitães da areia, de Jorge Amado e Caetés de Graciliano Ramos.
O romance Fogo Morto, ambientado na Paraíba, tem por tema a decadência dos engenhos nordestinos devido ao surgimento das usinas produtoras de açúcar. Os engenhos passaram a ser simples fornecedores da matéria-prima cana, ficando a produção do açúcar a cargo das usinas. Esse enfraquecimento dos engenhos estava relacionado ao avanço do capitalismo moderno, que substituiu uma produção baseada na servidão por uma produção baseada no trabalho industrial assalariado.

Resenha de Fogo Morto


A história inicia-se na primeira metade do século XX com a decadência do engenho e, posteriormente, regride para a segunda metade do século XIX para contar como se deu o surgimento e a prosperidade do Engenho Santa Fé. O título do romance é uma referência à decadência dos engenhos brasileiros devido ao desenvolvimento da industrialização no país. Os engenhos, antes produtores da maior riqueza do país até o século XVII — o açúcar —, passaram, com o surgimento das usinas, apenas a serem responsáveis pelo fornecimento da cana. Com isso, os engenhos perderam a sua força, devido ao fato de se tornarem meros fornecedores de matéria-prima.

Agora viam o bueiro do Santa Fé. Um galho de jitirana subia por ele. Flores azuis cobriam-lhe a boca suja. — E o Santa Fé quando bota, Passarinho? — Capitão, não bota mais, está de fogo morto.”

O fim da escravidão contribuiu de forma decisiva para o declínio dos engenhos nordestinos, pois possibilitou a difusão do trabalho assalariado no país. Os engenhos tinham por característica a centralidade dos poderes e tomadas de decisões nas mãos do senhor do engenho, que o controlava com mãos de ferro, se utilizando, muitas vezes de forma cruel, de mão de obra escrava.

O romance é dividido em três partes, sendo um personagem destacado em cada uma delas. Na segunda parte do romance, o surgimento e declínio do Engenho Santa Fé é narrado tendo como destaque o personagem Lula de Holanda. Lula, educado na cidade, casou-se com a filha do Senhor de Engenho, passando a administrá-lo após a morte de seu sogro. Lula não demonstra qualquer intimidade com a vida do engenho, fato que fez com que não conseguisse geri-lo da melhor forma. Sendo defensor da escravidão e cruel com seus escravos, Lula encontra dificuldades para se adaptar ao trabalho livre; devido à crueldade com que os escravos eram tratados na sua administração, os mesmos não permanecem no engenho após a abolição.

Pintura de um engenho nordestino

Na primeira parte do romance, somos apresentados ao Mestre Amaro. O personagem José Amaro, artesão de profissão, habita as terras do engenho Santa Fé desde a infância. Apesar de habitar as terras do senhor do engenho, não paga aluguel e não presta serviços regularmente para o dono das terras como era costume, subsistindo através da confecção de selas. Com o desenvolvimento do capitalismo, os artesãos perderam sua força e prestígio, sendo seu trabalho substituído por produtos manufaturados. Mestre Amaro vivencia essa decadência na diminuição da demanda por seu trabalho. A decadência do engenho é a decadência de Mestre Amaro.

O personagem vai adentrando em um estado depressivo que só é superado após ter contato com um grupo de cangaceiros que age na Zona da Mata. Os cangaceiros não respeitam a lei e se julgam defensores dos oprimidos. Através deles, Mestre Amaro vislumbra a possibilidade de mudança. Contudo, essa esperança leva o mestre Amaro a quase um estado de loucura, pois o mesmo começa a se desprender da realidade, vivendo na ilusão de que os bons tempos seriam restaurados.

A terceira parte do romance é centralizada no personagem Vitorino Carneiro da Cunha. Um personagem difícil de compreender, devido ao fato de o mesmo estar completamente alheio ao que acontece a sua volta. O personagem pode ser comparado ao personagem Dom Quixote, de Cervantes. Enquanto Dom Quixote perseguia moinhos que acreditava ser gigantes, Vitorino perseguia inimigos que o queriam destruir; contudo, esses inimigos na verdade não estavam preocupados com Vitorino, sendo ele considerado por eles um "velho louco", digno de pena.

O romance possui uma característica pessimista, pois fica evidente que os personagens principais estão fadados ao fracasso. Tanto o engenho quanto Mestre Amaro e Vitorino estão em decadência; todos fazem parte de um Nordeste que estava chegando ao fim. Através dos romances de José Lins do Rego, podemos compreender a diversidade natural e cultural presente no Nordeste, podendo ser dividido em Zona da Mata e Sertão.

A passagem do romance em que Sr. Tomás, dono do engenho Santa Fé, viaja para o Sertão em busca de um escravo fugido evidencia a diversidade cultural presente na região. O Sr. Tomás, ao chegar no Sertão, se depara com um Nordeste diferente do seu. Acostumado a ser respeitado e temido, não encontra esse respeito no Sertão. Após algumas andanças, foi alertado de que teria dificuldades de recuperar seu escravo, porquanto no Sertão não se aceitava a ideia de um homem ser escravo de outro. A passagem demonstra serem as relações sociais diferentes na Zona da Mata e no Sertão.

Fogo Morto retrata a infância de José Lins do Rego, possuindo o romance um tom saudosista. Contudo, o fato de José ter sido neto de senhor do engenho não fez com que o mesmo escondesse as misérias e mazelas presentes nesse Nordeste da Zona da Mata, proporcionando, com isso, ao leitor um romance intenso e marcante referente a um importante pedaço do Brasil.





Gabriela, Cravo e Canela - Jorge Amado

Capa do livro Gabriela, Cravo e Canela -  Jorge Amado

Jorge Amado, em Gabriela, Cravo e Canela, nos presenteia com uma saborosa crônica de costumes ambientada na Bahia, que presenciava um crescimento econômico impulsionado pela produção do cacau.
O sul da Bahia, em fins do século XIX, presenciou lutas sangrentas pela posse da terra e o surgimento de ricos produtores de cacau, intitulados "coronéis", que, através da violência e utilizando os serviços de jagunços, desmatavam e plantavam cacau, que era amplamente exportado para o estrangeiro.

Assim era Ilhéus, naqueles idos de 1925, quando floresciam as roças nas terras adubadas com cadáveres e sangue e multiplicavam-se as fortunas.”

Resenha de Gabriela, Cravo e Canela

Jorge Amado afirma, nas primeiras páginas, existir um descompasso entre o avanço técnico-científico e o avanço nos costumes da sociedade. Para ele, o avanço técnico–científico proporciona a possibilidade do progresso e do novo; contudo, os hábitos de determinada sociedade evoluem mais lentamente, o que gera uma tensão entre o velho e o novo. A cidade acaba sendo o palco desses embates, devido ao fato de o progresso, a todo o momento, buscar transformar sua fisionomia.

Modificava-se a fisionomia da cidade, abriam-se ruas, importavam-se automóveis, construíam-se palacetes, rasgavam-se estradas, publicavam-se jornais, fundavam-se clubes, transformava-se Ilhéus. Mais lentamente, porém, evoluíam os costumes, os hábitos dos homens. Assim acontece sempre, em todas as sociedades.”

Ilhéus, bem como outras cidades do sul da Bahia que se desenvolveram graças ao cultivo do cacau, experimenta um crescimento populacional vertiginoso. Diversas famílias nordestinas se deslocam para lá fugindo da seca. O local onde costumavam se assentar ao chegarem à cidade era chamado pelo povo de "mercado de escravos". Os coronéis, necessitados de mão de obra para a lavoura, escolhem seus empregados como se estivessem escolhendo escravos, devendo os retirantes aceitar qualquer proposta feita. Contudo, muitos retirantes chegavam a Ilhéus alimentados pelo sonho de enriquecer.

A prosperidade da zona do cacau, porém, estava reservada aos poderosos coronéis cercados de jagunços, que controlavam não somente a economia como também a política daquela região. A chegada de Mundinho Falcão a Ilhéus abala o poder dos coronéis, porquanto, ao contrário dos retirantes, Mundinho — proveniente de uma família rica e influente do Sudeste, proprietária de fazendas de café — chega a Ilhéus amparado pelo poder de sua família, influente na política brasileira da República Velha.

Desenho de Jorge Amado

Mundinho estabelece-se em Ilhéus como exportador de cacau. Contudo, depara-se com a dificuldade de escoar a produção, devido ao fato de a cidade não possuir uma barra para a atracação dos navios, sendo toda a produção escoada pela cidade de Salvador. Esse fato diminui seus lucros, além de criar uma dependência de Salvador. Mundinho luta pela construção de uma barra em Ilhéus; contudo, essa construção vai contra os interesses de políticos baianos que buscam manter Ilhéus dependente. Cria-se, com isso, uma divergência de interesses, devido ao fato de os coronéis do cacau — em especial o Coronel Ramiro Bastos, homem mais poderoso da cidade — apoiarem o governo baiano.

Cria-se um embate: de um lado, Mundinho simboliza o progresso; do outro, Ramiro e os coronéis do cacau simbolizam o velho e o já estabelecido. Entre as novidades que surgem na cidade, pode-se citar a construção de estradas, uma empresa de transporte, a criação de grêmios, bibliotecas, além de casas com arquiteturas modernistas. Por trás de todas essas novidades está Mundinho, que posteriormente decide criar um partido para disputar as eleições municipais, fazendo oposição ao atual governo, tido como retrógrado.

Aos poucos, Mundinho e o progresso começam a conquistar a cidade. Contudo, velhos costumes ainda imperam em Ilhéus, fazendo contraste com o novo. Pode-se citar o duplo homicídio cometido por um importante coronel da cidade que, chegando em sua casa, se deparou com sua mulher na cama com outro homem. Apesar de confessar os homicídios, o mesmo é tratado com respeito e admiração pela cidade, que aprova seu ato.

Assim era em Ilhéus: honra de marido enganado só com sangue poderia ser lavada.”

Gabriela: a mulher indecifrável


Mulher em pose sensual

É nessa Ilhéus, agitada por disputas entre o velho e o novo, que chega a retirante Gabriela. A coincidência de o sírio Nacib, comerciante, necessitar de uma cozinheira para seu bar — um dos mais movimentados de Ilhéus — faz com que Gabriela fique em evidência, agitando ainda mais a cidade. Gabriela é indecifrável; segundo um dos personagens, sua beleza e simpatia contagiam a todos. Seu jeito simples e despretensioso é capaz de desarmar qualquer um. Fazia tudo o que sentia vontade, como se fosse livre para experimentar a felicidade, não se importando com o que era socialmente aceito.

Em uma época em que as mulheres eram extremamente oprimidas pelos maridos, sem possuírem os mesmos direitos, Gabriela quebra todos os paradigmas da época. Em determinado trecho, após se casar com o sírio Nacib, ela acaba traindo-o. Ao refletir sobre o ocorrido, Gabriela questiona o fato de a infidelidade ser permitida somente aos homens:

 “Havia uma lei, não era permitido. Só homem tinha direito, não o tinha a mulher?”.

Era socialmente aceito que os homens tivessem amantes; contudo, as mulheres não tinham esse direito. O fato de o sírio não matar Gabriela e seu amante, pedindo apenas o divórcio (anulação do casamento), é comemorado pelos entusiastas do progresso, que começam a ver mudanças nos costumes da sociedade ilheense.

Com isso, temos o embate entre o velho e o novo; os costumes antigos e a modernidade nesse maravilhoso romance do mestre Jorge Amado. 

Gosta de Jorge Amado ? Leia a resenha de outro clássico de Jorge Amado: Capitães da Areia.