segunda-feira, 23 de maio de 2016

Os demônios -Fiódor Dostoiévski



Capa do livro Os demônios -Fiódor Dostoiévski

Apesar de Dostoiévski ser reconhecidamente um dos maiores nomes da literatura mundial, ele não era bem visto na União Soviética. Seus livros causavam certo desconforto no regime, não servindo para a propagação dos ideais comunistas. Com isso, Dostoiévski foi tachado de reacionário, relegado a um segundo plano em detrimento de outros escritores contemporâneos a ele.

O desconforto criado pelos seus livros se deve ao fato de Dostoiévski procurar, em suas obras, compreender e discutir as influências das paixões e sensações na caracterização psicológica do indivíduo, podendo ser considerado um existencialista. Para ele, o ser humano é dividido em duas vertentes: uma racional e outra mística.

Vale lembrar que, no século XIX, predominavam na Europa os ideais positivistas. Ou seja, em oposição às ideias religiosas que predominavam na Idade Média — ideias essas embasadas no criacionismo —, buscava-se organizar a sociedade através do conhecimento racional e científico, tido como verdadeiro. Contudo, Dostoiévski ia na contramão desse movimento, porquanto acreditava que o ser humano não poderia apenas ser entendido através de suas ações racionais. Para ele, o ser humano possui uma vertente mística, no sentido de não ser possível compreender determinados comportamentos através da análise científica racional.

Para ele, o ser humano é dotado de subjetividade, sendo seu comportamento fruto da racionalidade juntamente com as paixões. Após ser preso por tramar contra a vida do czar russo, Dostoiévski passou alguns anos em uma prisão na Sibéria. Essa experiência resultou no livro "Recordações da Casa dos Mortos". Na prisão, Dostoiévski conviveu com perigosos detentos, muitos deles assassinos. Ao compartilhar do mesmo cotidiano com esses detentos, Dostoiévski verificou que eles não eram  diferentes das pessoas tidas como normais. Muitos desses assassinos partilhavam das mesmas paixões e desejos encontrados em todas as pessoas, sendo capazes de ser sensíveis, simpáticos e de amarem.

Para Dostoiévski, o que os diferencia do resto da sociedade é o fato de terem cruzado a linha que determina o comportamento socialmente aceito. Com isso, Dostoiévski mostrará, através de seus livros, que as paixões humanas têm um papel importante na formação humana, sendo parte constituinte do ser humano, estando, com isso, o indivíduo em constante embate entre seu lado racional e emocional.

Resenha de Os Demônios


Em uma União Soviética que propagava ideais comunistas pautados na coletividade, essa subjetividade humana não teria espaço, porquanto haveria problemas para a efetivação desse pensamento coletivista em um mundo onde predominam as paixões individuais. O romance "Os Demônios" chegou a ser censurado na União Soviética, porquanto é tido como uma crítica aos ideais revolucionários de esquerda. Dostoiévski compara a história do romance à passagem bíblica em que Jesus encontra-se com um endemoniado. Segundo ele, os indivíduos influenciados por essa ideologia de esquerda assemelham-se ao endemoniado da passagem bíblica, devido ao fato de estarem possuídos por essa ideologia, sendo que acabam, através de coerções, transformando-se em marionetes.

Segundo o personagem Chatov, os movimentos socialistas do século XIX buscavam, através da ciência e da razão, compreender todos os aspectos da existência humana. Para ele, esses movimentos acabavam por excluir de suas análises esse lado místico do homem, criando, com isso, um modelo de sociedade que excluía os sentimentos humanos tão importantes para a compreensão do ser humano.

"Povo nenhum pôde jamais se organizar sobre a terra em bases científicas e racionais; povo nenhum o conseguiu, salvo talvez pela duração de um instante, e por estupidez pura. O socialismo na sua essência é ateu, porque proclamou desde o início que se propõe a edificar uma sociedade baseada unicamente na ciência e na razão. Por toda a parte e sempre, desde o começo dos tempos, a razão e a ciência só desempenharam na existência dos povos um papel subalterno, a serviço da vida; e assim será sempre, até o fim dos séculos."

Pintura de Dostoiévski

Para Chatov, a ciência e a razão só desempenharam um papel subalterno na existência dos povos, sendo guiados, na maior parte do tempo, pelas paixões. Muitos modelos de sociedades socialistas, pautados no coletivismo, foram idealizados sem que se fosse pensado como se dariam as relações do cotidiano entre as pessoas — relações essas impregnadas de sentimentos relacionados às características individuais, características essas que, muitas vezes, não podem ser equacionadas pela razão.

"Os povos se constituem e se desenvolvem movidos por uma força diferente, uma força soberana, cuja origem se mantém desconhecida e inexplicável. Essa força é o desejo inextinguível de atingir um fim e ao mesmo tempo a negação desse fim."

As críticas ao socialismo presentes no livro, escrito décadas antes da Revolução de 1917, acabaram se concretizando no regime soviético, pautado pela violência devido à necessidade dos governantes de controlar as paixões humanas, buscando sempre suprimir o individualismo. Contudo, a crítica aos modelos de sociedades socialistas não faz com que Dostoiévski possa ser considerado um capitalista. Em diversos trechos de seus livros, ele critica o sistema capitalista, que em muitos casos busca se aproveitar das paixões humanas para lucrar mais; vide a indústria cultural e a alienação do consumo.

Dostoiévski, como um estudioso da mente humana, traz elementos indispensáveis para o debate dos rumos que a sociedade pode tomar, devendo o fato de sua visão tornar as relações sociais mais complexas ser visto como possibilidade de uma nova compreensão das relações sociais.

Leia a resenha de outros livros de Dostoiévski:



 

terça-feira, 10 de maio de 2016

O retrato de Dorian Gray- Oscar Wilde



Capa do livro O retrato de Dorian Gray- Oscar Wilde

Em uma época em que prevalecia uma literatura realista permeada de valores vitorianos, onde se buscava retratar a dinâmica social e, em muitos casos, contestá-la, surge um movimento artístico cunhado de esteticismo, pautado pela apreciação da arte por ela mesma. Ou seja: enquanto os realistas buscavam uma utilidade social para a arte, os esteticistas buscavam apreciá-la como sendo o seu único fim. Com isso, surge o termo "arte pela arte".

"Toda arte é completamente inútil."

A vida tumultuada de Oscar Wilde — ele chegou a ser preso por atos indecorosos — demonstra bem sua concepção de vida. Wilde perseguia o belo, livre de quaisquer preconceitos ou convenções sociais. Em um mundo perverso e cheio de contradições, Wilde via a arte como subterfúgio da tristeza da existência humana.

"Posso simpatizar com tudo, menos com o sofrimento [...] Com isso não posso simpatizar. É demasiado feio, demasiado horrível, demasiado aflitivo. Há algo de terrivelmente mórbido na simpatia moderna pela dor. Devemos simpatizar com a cor, com a beleza, com a alegria da vida. Quanto menos se fale das chagas da vida, tanto melhor."

Resenha de O retrato de Dorian Gray


Em determinado trecho do romance, verifica-se toda a entrega do artista na produção artística. O artista transforma-se em escravo da arte, perseguindo um ideal que transcende o nível do real. No trecho a seguir, o artista, tendo a oportunidade única proporcionada pela história, tem a oportunidade de dialogar com sua criação:

"Para mim, você se converteu na encarnação visível desse ideal invisível que nos persegue a nós, artistas, como um sonho estranho. Foi devoção o que senti por você [...]. Queria você só para mim. Só era feliz quando estava com você. [...] Havia visto a perfeição face a face e o mundo se tornou maravilhoso demais."

Muitos utopistas buscaram transformar o social no intuito de se alcançar um mundo melhor; contudo, essa busca não gerou muitos frutos. Os esteticistas, ao deixarem de lado essa busca, concentraram-se na realização humana através da arte. No romance de Wilde, o artista, Basil Hallward, encontra no jovem Dorian Gray a perfeição física e a pureza mental muitas vezes somente encontradas na juventude — época em que os vícios ainda não corromperam a beleza humana. Com isso, decide imortalizá-lo em um retrato.

Ao término da confecção do retrato, surge o amigo de Basil, Sr. Henry Wotton. Ao contrário de Basil, que vive para a arte, o Sr. Wotton vive para seu prazer, manipulando e destruindo tudo que estiver no seu caminho. Ao se deparar com o jovem Gray, o Sr. Wotton vislumbra a possibilidade de, através de jogos psicológicos, moldá-lo e corrompê-lo.

"Estava de fato convencido de que o método experimental era o único pelo qual se podia chegar a uma análise científica das paixões, e Dorian Gray era, certamente, um indivíduo feito para as suas mãos e que parecia prometer ricos e frutuosos resultados."

"Influenciar uma pessoa é transmitir-lhe a nossa própria alma. Ela já não pensa com seus pensamentos naturais, nem arde com suas paixões naturais. As suas virtudes não são reais para ela. Os seus pecados, se é que existem pecados, são emprestados. Ela se converte em eco de uma música alheia, em ator de um papel que não foi escrito para ela."

O Sr. Wotton vai aos poucos corrompendo o jovem Dorian. Através de jogos psicológicos, destrói a pureza do jovem, lançando-o nos maiores vícios e quebrando todos os tabus sociais. Dorian passa a viver para o prazer, seja ele qual for, sem preocupar-se com os efeitos dessa busca sobre si mesmo e sobre os outros.

"Nunca procurei a felicidade. Quem no mundo deseja a felicidade? Procurei o prazer."

Retrato de Oscar Wilde

Sua jovem noiva, uma atriz pobre que o encantou pelo seu talento e beleza, comete suicídio após ser abandonada por Dorian. Ele demonstra não sentir remorsos pelo ocorrido, como se tivesse perdido a capacidade de medir as consequências de seus atos.

Todas essas experiências vivenciadas de forma inconsequente por Dorian não degradaram sua beleza física e mental. Ao passar dos anos, Dorian continuava jovem e sadio. Isso se deu graças a um pacto que o mesmo fez, ainda jovem, ao vislumbrar seu retrato finalizado por Basil. Ao contemplar o quadro, percebe que sua beleza transportada para a tela permanecerá intacta apenas ali, enquanto ele envelhecerá e perderá sua juventude.

"Como é triste! Tornar-me-ei velho, horrível, espantoso. Mas este retrato permanecerá sempre jovem."

Diante disso, Dorian faz um pacto, ofertando sua alma em troca de que, em vez dele, seu retrato suporte o peso do tempo e dos vícios adquiridos. Com isso, o retrato passa a envelhecer e guardar as marcas dos vícios de Dorian, enquanto ele permanece jovem e sadio. Ao fazer esse pacto, Dorian não simplesmente se livrou da degradação física, mas também de sua alma, porquanto nossa degradação serve de alerta para que possamos repensar nossa existência.

Com o tempo, a existência do retrato atormenta Dorian, porquanto contemplá-lo é como se estivesse contemplando sua própria alma. Dorian decide destruir o retrato para recuperar seu sossego.

"Mataria o passado e tornar-se-ia livre. Mataria aquela monstruosa alma visível e, sem suas hediondas advertências, recuperaria o sossego."

Contudo, Dorian não havia compreendido que, na verdade, seu retrato continha sua humanidade e, sem ele, Dorian não existiria.





quarta-feira, 23 de março de 2016

Nihonjin - Oscar Nakasato


Capa do livro Nihonjin - oscar Nakasato


De fácil leitura, utilizando-se de uma prosa simples e direta, o romance consegue prender a atenção do leitor, que acompanha as aventuras e desventuras dos japoneses em terras brasileiras. O Brasil apresentava-se para eles como um país de idioma e cultura estranhos que vivenciava, no início do século XX, a formação de um caldeirão cultural, fruto da crescente imigração estrangeira atraída pela necessidade de mão de obra nas plantações de café.

O fim da escravidão em 1888, aliado ao desenvolvimento do cultivo do café no interior paulista, gerou a crescente necessidade de mão de obra nas lavouras, sendo essa demanda preenchida por imigrantes europeus e asiáticos que desembarcavam nos portos brasileiros em busca de oportunidades.

Resenha de Nihonjin 


O romance é narrado por um neto de japoneses que busca, através do relato de seus parentes, compreender suas origens por meio da reconstrução da trajetória de sua família em terras brasileiras.

Para os japoneses que se dirigiam para as nossas terras, o Brasil aparentava ser uma terra estranha repleta de riquezas, necessitando apenas de pessoas dispostas a trabalhar com afinco. Muitos dos que vieram acreditavam que permaneceriam apenas alguns anos em terras brasileiras, tempo suficiente para juntarem um determinado capital que seria empregado em alguma atividade lucrativa no Japão:

Hideo prosseguiu falando, agora sobre os seus projetos pessoais: teria uma loja de utensílios domésticos em Tóquio ou Osaka”.

A expectativa de adquirir capital, demonstrada pelos imigrantes, era baseada na confiança que depositavam na capacidade de decisão de seu imperador, porquanto ele incentivou a imigração de japoneses para o Brasil, afirmando ser possível ganhar dinheiro rapidamente no país do "ouro verde". Contudo, a realidade encontrada pelos imigrantes fez com que muitos se desiludissem.

O imperador do Japão enganava os agricultores pobres e os desempregados da cidade, dizendo que deveriam imigrar porque ganhariam dinheiro rapidamente no Brasil. Mas que, na verdade, era um projeto para expulsar a população pobre, pois havia muitos excedentes no país”.

Ao contrário do que esperavam, os japoneses acabaram sendo explorados nas fazendas de café, e o pouco que ganhavam era consumido nos armazéns das fazendas, que vendiam os alimentos a preços abusivos. Após o sucesso da exportação do café brasileiro, a depressão americana de 1929 fez com que os barões do café brasileiros fossem obrigados a reinvestir o capital gerado pelo café em atividades industriais na cidade de São Paulo, fato que gerou um êxodo da população do campo para a cidade. Com isso, surgiram os primeiros bairros operários de São Paulo, entre eles a Liberdade, sendo a maior comunidade japonesa no Brasil.

Apesar de todas as dificuldades, fica evidente a capacidade de perseverança e adaptação dos imigrantes japoneses às diversas reviravoltas econômicas ocorridas no final do século XIX e início do século XX. A crise econômica japonesa impulsionou a imigração para o Brasil; posteriormente, a crise do café impulsionou o êxodo do campo para a cidade. Apesar de todas essas mudanças, os imigrantes japoneses demonstraram grande capacidade de adaptação e um forte sentimento de união, buscando ao máximo preservar sua cultura.

Pode-se citar a repulsa à miscigenação como um dos fatores determinantes para a manutenção da cultura japonesa em terras brasileiras. Não era aceitável o casamento com pessoas de fora da comunidade, sendo o ato considerado uma ofensa sem perdão:

Foto de Imigrantes japoneses trabalhando em uma fazenda

“lamentava que a caçula de Oshiosun estivesse namorando um gaijim, que era vergonha para a família, que se fosse sua filha não permitiria, que se houvesse teimosia a expulsaria de casa, e então, seria como se ela tivesse morrido”.

Contudo, o surgimento de novas gerações, nascidas em solo brasileiro sem nunca terem estado no Japão, fez com que parte dessa cultura japonesa fosse sendo gradativamente modificada. Muitos jovens já incorporavam os costumes da cultura brasileira:

uma nova vida, que não era a vida japonesa nem a vida brasileira”.

Esse hibridismo cultural gerou conflitos dentro da comunidade japonesa, conflitos que resultaram em mortes e foram determinantes para a desunião de diversas famílias. O romance é finalizado com a decisão do narrador de migrar para o Japão. Seu avô, que no início do século havia realizado a trajetória inversa, demonstrou insatisfação com a decisão de seu neto, pois ele conhecia a dificuldade de se adaptar a uma nova cultura.

Contudo, ao contrário de seu avô, o rapaz não decidiu migrar somente devido a questões econômicas; ele buscava encontrar no Japão suas origens, descobrir sua identidade, acreditando ser possível encontrá-la no Japão:

Disse-lhe que o ato era ida, mas tinha para mim um sentido de retorno”

A busca pela sua identidade o motivou a tentar reconstruir a trajetória de seus ancestrais; contudo, isso não foi suficiente. Sua busca o levou a fazer o caminho inverso de seus antepassados, buscando encontrar no Japão as peças que faltavam para completar o quebra-cabeça de sua vida.





quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Fogo Morto- José Lins do Rego

Capa do livro Fogo Morto- José Lins do  Rego


José Lins do Rego foi um dos maiores nomes da literatura brasileira. Devido à conjuntura da época, os escritores brasileiros tinham por responsabilidade não somente escrever boas histórias, mas também discutir a realidade brasileira, porquanto não tínhamos sociólogos e antropólogos consolidados. Com isso, diversos intelectuais tomaram para si a responsabilidade de discutir a realidade social de um país de tamanho continental que estava dando seus primeiros passos dentro de uma realidade republicana democrática.

Rego faz parte de uma geração literária, pós-Semana de 22, denominada Regionalismo de 30. No século XIX, a maioria dos romances eram ambientados na antiga capital brasileira ou, quando muito, em São Paulo. Apesar de ser de vital importância a compreensão das relações que ocorriam no antigo centro político brasileiro, o país não se resumia ao Sudeste. Para se compreender a nação brasileira, fazia-se necessário o diálogo com outras regiões do país.

Rego fez parte de uma geração de escritores nordestinos que tomaram para si a missão de desvelar o Nordeste brasileiro, podendo citar os romances: Os Sertões, de Euclides da CunhaCapitães da areia, de Jorge Amado e Caetés de Graciliano Ramos.
O romance Fogo Morto, ambientado na Paraíba, tem por tema a decadência dos engenhos nordestinos devido ao surgimento das usinas produtoras de açúcar. Os engenhos passaram a ser simples fornecedores da matéria-prima cana, ficando a produção do açúcar a cargo das usinas. Esse enfraquecimento dos engenhos estava relacionado ao avanço do capitalismo moderno, que substituiu uma produção baseada na servidão por uma produção baseada no trabalho industrial assalariado.

Resenha de Fogo Morto


A história inicia-se na primeira metade do século XX com a decadência do engenho e, posteriormente, regride para a segunda metade do século XIX para contar como se deu o surgimento e a prosperidade do Engenho Santa Fé. O título do romance é uma referência à decadência dos engenhos brasileiros devido ao desenvolvimento da industrialização no país. Os engenhos, antes produtores da maior riqueza do país até o século XVII — o açúcar —, passaram, com o surgimento das usinas, apenas a serem responsáveis pelo fornecimento da cana. Com isso, os engenhos perderam a sua força, devido ao fato de se tornarem meros fornecedores de matéria-prima.

Agora viam o bueiro do Santa Fé. Um galho de jitirana subia por ele. Flores azuis cobriam-lhe a boca suja. — E o Santa Fé quando bota, Passarinho? — Capitão, não bota mais, está de fogo morto.”

O fim da escravidão contribuiu de forma decisiva para o declínio dos engenhos nordestinos, pois possibilitou a difusão do trabalho assalariado no país. Os engenhos tinham por característica a centralidade dos poderes e tomadas de decisões nas mãos do senhor do engenho, que o controlava com mãos de ferro, se utilizando, muitas vezes de forma cruel, de mão de obra escrava.

O romance é dividido em três partes, sendo um personagem destacado em cada uma delas. Na segunda parte do romance, o surgimento e declínio do Engenho Santa Fé é narrado tendo como destaque o personagem Lula de Holanda. Lula, educado na cidade, casou-se com a filha do Senhor de Engenho, passando a administrá-lo após a morte de seu sogro. Lula não demonstra qualquer intimidade com a vida do engenho, fato que fez com que não conseguisse geri-lo da melhor forma. Sendo defensor da escravidão e cruel com seus escravos, Lula encontra dificuldades para se adaptar ao trabalho livre; devido à crueldade com que os escravos eram tratados na sua administração, os mesmos não permanecem no engenho após a abolição.

Pintura de um engenho nordestino

Na primeira parte do romance, somos apresentados ao Mestre Amaro. O personagem José Amaro, artesão de profissão, habita as terras do engenho Santa Fé desde a infância. Apesar de habitar as terras do senhor do engenho, não paga aluguel e não presta serviços regularmente para o dono das terras como era costume, subsistindo através da confecção de selas. Com o desenvolvimento do capitalismo, os artesãos perderam sua força e prestígio, sendo seu trabalho substituído por produtos manufaturados. Mestre Amaro vivencia essa decadência na diminuição da demanda por seu trabalho. A decadência do engenho é a decadência de Mestre Amaro.

O personagem vai adentrando em um estado depressivo que só é superado após ter contato com um grupo de cangaceiros que age na Zona da Mata. Os cangaceiros não respeitam a lei e se julgam defensores dos oprimidos. Através deles, Mestre Amaro vislumbra a possibilidade de mudança. Contudo, essa esperança leva o mestre Amaro a quase um estado de loucura, pois o mesmo começa a se desprender da realidade, vivendo na ilusão de que os bons tempos seriam restaurados.

A terceira parte do romance é centralizada no personagem Vitorino Carneiro da Cunha. Um personagem difícil de compreender, devido ao fato de o mesmo estar completamente alheio ao que acontece a sua volta. O personagem pode ser comparado ao personagem Dom Quixote, de Cervantes. Enquanto Dom Quixote perseguia moinhos que acreditava ser gigantes, Vitorino perseguia inimigos que o queriam destruir; contudo, esses inimigos na verdade não estavam preocupados com Vitorino, sendo ele considerado por eles um "velho louco", digno de pena.

O romance possui uma característica pessimista, pois fica evidente que os personagens principais estão fadados ao fracasso. Tanto o engenho quanto Mestre Amaro e Vitorino estão em decadência; todos fazem parte de um Nordeste que estava chegando ao fim. Através dos romances de José Lins do Rego, podemos compreender a diversidade natural e cultural presente no Nordeste, podendo ser dividido em Zona da Mata e Sertão.

A passagem do romance em que Sr. Tomás, dono do engenho Santa Fé, viaja para o Sertão em busca de um escravo fugido evidencia a diversidade cultural presente na região. O Sr. Tomás, ao chegar no Sertão, se depara com um Nordeste diferente do seu. Acostumado a ser respeitado e temido, não encontra esse respeito no Sertão. Após algumas andanças, foi alertado de que teria dificuldades de recuperar seu escravo, porquanto no Sertão não se aceitava a ideia de um homem ser escravo de outro. A passagem demonstra serem as relações sociais diferentes na Zona da Mata e no Sertão.

Fogo Morto retrata a infância de José Lins do Rego, possuindo o romance um tom saudosista. Contudo, o fato de José ter sido neto de senhor do engenho não fez com que o mesmo escondesse as misérias e mazelas presentes nesse Nordeste da Zona da Mata, proporcionando, com isso, ao leitor um romance intenso e marcante referente a um importante pedaço do Brasil.





Gabriela, Cravo e Canela - Jorge Amado

Capa do livro Gabriela, Cravo e Canela -  Jorge Amado

Jorge Amado, em Gabriela, Cravo e Canela, nos presenteia com uma saborosa crônica de costumes ambientada na Bahia, que presenciava um crescimento econômico impulsionado pela produção do cacau.
O sul da Bahia, em fins do século XIX, presenciou lutas sangrentas pela posse da terra e o surgimento de ricos produtores de cacau, intitulados "coronéis", que, através da violência e utilizando os serviços de jagunços, desmatavam e plantavam cacau, que era amplamente exportado para o estrangeiro.

Assim era Ilhéus, naqueles idos de 1925, quando floresciam as roças nas terras adubadas com cadáveres e sangue e multiplicavam-se as fortunas.”

Resenha de Gabriela, Cravo e Canela

Jorge Amado afirma, nas primeiras páginas, existir um descompasso entre o avanço técnico-científico e o avanço nos costumes da sociedade. Para ele, o avanço técnico–científico proporciona a possibilidade do progresso e do novo; contudo, os hábitos de determinada sociedade evoluem mais lentamente, o que gera uma tensão entre o velho e o novo. A cidade acaba sendo o palco desses embates, devido ao fato de o progresso, a todo o momento, buscar transformar sua fisionomia.

Modificava-se a fisionomia da cidade, abriam-se ruas, importavam-se automóveis, construíam-se palacetes, rasgavam-se estradas, publicavam-se jornais, fundavam-se clubes, transformava-se Ilhéus. Mais lentamente, porém, evoluíam os costumes, os hábitos dos homens. Assim acontece sempre, em todas as sociedades.”

Ilhéus, bem como outras cidades do sul da Bahia que se desenvolveram graças ao cultivo do cacau, experimenta um crescimento populacional vertiginoso. Diversas famílias nordestinas se deslocam para lá fugindo da seca. O local onde costumavam se assentar ao chegarem à cidade era chamado pelo povo de "mercado de escravos". Os coronéis, necessitados de mão de obra para a lavoura, escolhem seus empregados como se estivessem escolhendo escravos, devendo os retirantes aceitar qualquer proposta feita. Contudo, muitos retirantes chegavam a Ilhéus alimentados pelo sonho de enriquecer.

A prosperidade da zona do cacau, porém, estava reservada aos poderosos coronéis cercados de jagunços, que controlavam não somente a economia como também a política daquela região. A chegada de Mundinho Falcão a Ilhéus abala o poder dos coronéis, porquanto, ao contrário dos retirantes, Mundinho — proveniente de uma família rica e influente do Sudeste, proprietária de fazendas de café — chega a Ilhéus amparado pelo poder de sua família, influente na política brasileira da República Velha.

Desenho de Jorge Amado

Mundinho estabelece-se em Ilhéus como exportador de cacau. Contudo, depara-se com a dificuldade de escoar a produção, devido ao fato de a cidade não possuir uma barra para a atracação dos navios, sendo toda a produção escoada pela cidade de Salvador. Esse fato diminui seus lucros, além de criar uma dependência de Salvador. Mundinho luta pela construção de uma barra em Ilhéus; contudo, essa construção vai contra os interesses de políticos baianos que buscam manter Ilhéus dependente. Cria-se, com isso, uma divergência de interesses, devido ao fato de os coronéis do cacau — em especial o Coronel Ramiro Bastos, homem mais poderoso da cidade — apoiarem o governo baiano.

Cria-se um embate: de um lado, Mundinho simboliza o progresso; do outro, Ramiro e os coronéis do cacau simbolizam o velho e o já estabelecido. Entre as novidades que surgem na cidade, pode-se citar a construção de estradas, uma empresa de transporte, a criação de grêmios, bibliotecas, além de casas com arquiteturas modernistas. Por trás de todas essas novidades está Mundinho, que posteriormente decide criar um partido para disputar as eleições municipais, fazendo oposição ao atual governo, tido como retrógrado.

Aos poucos, Mundinho e o progresso começam a conquistar a cidade. Contudo, velhos costumes ainda imperam em Ilhéus, fazendo contraste com o novo. Pode-se citar o duplo homicídio cometido por um importante coronel da cidade que, chegando em sua casa, se deparou com sua mulher na cama com outro homem. Apesar de confessar os homicídios, o mesmo é tratado com respeito e admiração pela cidade, que aprova seu ato.

Assim era em Ilhéus: honra de marido enganado só com sangue poderia ser lavada.”

Gabriela: a mulher indecifrável


Mulher em pose sensual

É nessa Ilhéus, agitada por disputas entre o velho e o novo, que chega a retirante Gabriela. A coincidência de o sírio Nacib, comerciante, necessitar de uma cozinheira para seu bar — um dos mais movimentados de Ilhéus — faz com que Gabriela fique em evidência, agitando ainda mais a cidade. Gabriela é indecifrável; segundo um dos personagens, sua beleza e simpatia contagiam a todos. Seu jeito simples e despretensioso é capaz de desarmar qualquer um. Fazia tudo o que sentia vontade, como se fosse livre para experimentar a felicidade, não se importando com o que era socialmente aceito.

Em uma época em que as mulheres eram extremamente oprimidas pelos maridos, sem possuírem os mesmos direitos, Gabriela quebra todos os paradigmas da época. Em determinado trecho, após se casar com o sírio Nacib, ela acaba traindo-o. Ao refletir sobre o ocorrido, Gabriela questiona o fato de a infidelidade ser permitida somente aos homens:

 “Havia uma lei, não era permitido. Só homem tinha direito, não o tinha a mulher?”.

Era socialmente aceito que os homens tivessem amantes; contudo, as mulheres não tinham esse direito. O fato de o sírio não matar Gabriela e seu amante, pedindo apenas o divórcio (anulação do casamento), é comemorado pelos entusiastas do progresso, que começam a ver mudanças nos costumes da sociedade ilheense.

Com isso, temos o embate entre o velho e o novo; os costumes antigos e a modernidade nesse maravilhoso romance do mestre Jorge Amado. 

Gosta de Jorge Amado ? Leia a resenha de outro clássico de Jorge Amado: Capitães da Areia. 


























sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

São Bernardo - Graciliano Ramos



Capa do livro São Bernardo - Graciliano Ramos


O romance São Bernardo é considerado uma das maiores obras da literatura brasileira, sendo uma das que melhor representam o Regionalismo de 30, corrente literária modernista que tem por traço marcante evidenciar o cotidiano das diversas regiões do Brasil. Enquanto a literatura pré-modernista muitas vezes centralizava suas histórias na antiga capital do Brasil, a literatura regionalista busca mostrar um país distante dos grandes centros, revelando o cotidiano de outras regiões. Podemos citar como grandes romances regionalistas: Os Sertões, de Euclides da CunhaFogo Morto- José Lins do RegoGabriela, Cravo e Canela - Jorge Amado, Capitães da areia, de Jorge Amado

Resenha de São Bernardo - Graciliano Ramos

Graciliano Ramos escrevendo

São Bernardo cumpre com maestria esse propósito, pois, além de ser ambientado no interior de Alagoas, foi escrito em formato de memórias, sendo sua linguagem próxima da utilizada no cotidiano do interior nordestino. O autor das memórias, Paulo Honório, afirma nas primeiras páginas ser incapaz de escrevê-las devido ao seu pouco conhecimento sobre as letras:

Não pretendo bancar o escritor. É tarde para mudar de profissão.”

Contudo, após se desculpar de sua ignorância, o autor narra como se apossou e administrou a propriedade São Bernardo. Honório, sem ter conhecido seus pais, foi obrigado desde pequeno a se virar sozinho, tendo exercido diversas profissões. Sempre com o sonho de enriquecer, sua ambição o levou por caminhos tortuosos até acumular certo capital:

Sofri sede e fome, dormi na areia dos rios secos, briguei com gente que fala aos berros e efetuei transações comerciais de armas engatilhadas.”

Através de táticas legais e ilegais, Honório consegue se apossar da propriedade São Bernardo. Apesar de sua pouca instrução, buscou adquirir conhecimentos de agricultura e pecuária, administrando sua propriedade com mãos de ferro. Contudo, apesar do sucesso, Honório não esconde sua insatisfação consigo mesmo:

“Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos de outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.”

Após o suicídio de sua esposa, Honório começa a questionar no que sua ambição desenfreada o transformou, chegando a desejar nunca ter enriquecido:

Se houvesse continuado a arear o tacho de cobre da velha Margarida, eu e ela teríamos uma existência quieta. Falaríamos pouco, pensaríamos pouco...”

Honório tenta, através de suas memórias, expressar sua angústia, uma angústia que o leva a questionar sua existência. Uma existência pautada pela ambição desenfreada e pelo desejo de acumular bens, contudo, após o suicídio de sua mulher, tudo deixa de fazer sentido na sua vida. Madalena, esposa de Honório, teve uma infância sofrida como a de seu marido, contudo essa infância difícil não a impactou da mesma forma.

O fato de ter tido uma infância difícil fez com que ela sentisse compaixão pelos pobres, buscando ajudá-los na medida do possível. Ao contrário dela, Honório não demonstrava qualquer compaixão ou simpatia por seus funcionários, utilizando-se, muitas vezes, de violência para com os mesmos:

Para ser franco, declaro que esses infelizes não me inspiram simpatia. Lastimo a situação em que se acham, reconheço ter contribuído para isso, mas não vou além.”

Essa divergência de pensamento entre os dois foi motivo das primeiras brigas do casal, que seriam intensificadas com o passar dos anos devido ao crescente ciúme de Honório. Contudo, esse ciúme está relacionado ao medo de perder sua esposa enquanto propriedade (posse), e não de perder o amor de Madalena. Em diversos trechos, Honório afirma não compreender sua esposa, sendo que a instrução adquirida por ela contribuiu para a distância entre os dois:

Usar aquele vocabulário, vasto, cheio de ciladas, não me seria possível. E se ela tentava empregar a minha linguagem resumida, matuta, as expressões mais inofensivas e concretas eram para mim semelhantes às cobras: faziam voltas, picavam e tinham significação venenosa.”

Em um Nordeste árido e repleto de dificuldades, Honório se tornou um homem árido, seco, movido apenas pela busca do lucro, terminando seus dias questionando a finalidade de sua existência.




quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O cortiço- Aluísio de Azevedo



Capa do livro O cortiço- Aluísio de Azevedo

Aluísio de Azevedo é um dos maiores mestres da literatura brasileira. É responsável por uma das análises mais impactantes da transição do Império para a República e o fim da escravidão.

Resenha de O cortiço

A história é ambientada em um cortiço localizado no bairro de Botafogo, no município do Rio de Janeiro, em fins do Império. Apesar de o romance conter diversos personagens marcantes, o personagem principal da obra é o próprio cortiço. O local exerce influência sobre a personalidade dos que o habitam, o que pode ser evidenciado através do comportamento de diversos personagens, destacando-se:

Jerônimo, vindo de Portugal, possuía uma personalidade compatível com o estereótipo do europeu, sendo calmo, reservado, centrado e responsável. Após ir habitar o cortiço, Jerônimo mudou completamente a sua personalidade, porquanto deixou de sentir saudade de sua terra e passou a ser preguiçoso e leviano no trabalho e nos gastos, vivendo quase que por instinto — personalidade que o autor associa ao estereótipo do brasileiro:

“o português abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, luxurioso e ciumento”.

Sua mulher, Piedade, antes trabalhadeira, forte e sempre disposta a cumprir suas obrigações, após ser abandonada por Jerônimo, passou a ser leviana com o serviço e a se embriagar diariamente, participando de danças e festas, tal como o estereótipo da "mulher baiana" construído na obra.

A filha de Jerônimo e Piedade, antes mantida em um colégio interno para não ter contato com o cortiço, após ir morar no local, tem seu destino profetizado pelo autor: ela se tornará uma prostituta, seguindo o caminho de outras duas moças da habitação:

o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria.”

Pensamento naturalista 


Pintura de Aluísio de Azevedo

O Cortiço é considerado uma das primeiras obras da literatura brasileira de cunho realista-naturalista. Essa vertente é marcada pela influência do pensamento naturalista — uma espécie de cientificismo que busca leis para explicar o comportamento humano. Este seria condicionado por fatores determinados, tais como: raça, meio social e momento histórico. Com isso, a subjetividade humana é esquecida em favor de fatores quantificáveis pela ciência da época, o que gera uma visão estereotipada da realidade. Outro clássico da literatura brasileira de cunho naturalista  é a obra Os sertões , de Euclides da Cunha.

Em determinado trecho, o autor atribui a inconstância da baiana Rita Baiana ao fato de ser mestiça: “ela, apesar de volúvel como toda mestiça...”. Ou seja, o fato de ser mestiça a torna volúvel, como se todas as mestiças estivessem determinadas a sê-lo.

Contudo, a característica naturalista da obra não impede o romance de ser uma forte crítica social, porquanto o autor evidencia a distinção de classes sociais presente na sociedade carioca. Ao lado do cortiço, ergue-se imponente o sobrado de um rico negociante português, Miranda. Na obra de Gilberto Freyre, essa distinção evidenciava-se pela Casa-Grande e a Senzala; na obra de Azevedo, evidencia-se pelo sobrado e o cortiço.


Com isso, temos a oportunidade de vivenciar, com o desenvolvimento urbano, o surgimento de uma proximidade física entre as diversas classes sociais na cidade carioca. Contudo, essa proximidade não impede a existência de uma separação social, pois, apesar de vizinhos, os dois mundos não se relacionam.

Em um Brasil que começava a participar ativamente do sistema capitalista, a figura do capitalista sovina é personificada no dono do cortiço. João Romão vive para aumentar seus bens, buscando a todo custo adquirir vantagens, sem considerar o próximo ou seu próprio bem-estar:

Só tinha uma preocupação: aumentar seus bens (...) aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero em acumular”.

Devido a isso, o cortiço é construído utilizando-se dos piores materiais possíveis e aproveitando cada palmo de terra, dando origem a habitações precárias — característica que se tornaria marcante nas periferias das metrópoles. O crescimento das cidades, impulsionado pelo processo de industrialização e pelo êxodo rural, gerou um aumento da massa de trabalhadores que se viram obrigados a habitar esses espaços, ficando à mercê de capitalistas como João Romão, que lucram às custas do sofrimento da população carente.

Desenho de um cortiço

O espaço é uma construção social, fruto das relações humanas e dotado de um caráter dinâmico. Com isso, as teses naturalistas que buscam condicionar o comportamento ao meio mostram-se ultrapassadas. Ao analisar o espaço, deve-se levar em conta sua dinamicidade e o caráter subjetivo do ser humano enquanto construtor de sua própria realidade.