sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

São Bernardo - Graciliano Ramos



Capa do livro São Bernardo - Graciliano Ramos


O romance São Bernardo é considerado uma das maiores obras da literatura brasileira, sendo uma das que melhor representam o Regionalismo de 30, corrente literária modernista que tem por traço marcante evidenciar o cotidiano das diversas regiões do Brasil. Enquanto a literatura pré-modernista muitas vezes centralizava suas histórias na antiga capital do Brasil, a literatura regionalista busca mostrar um país distante dos grandes centros, revelando o cotidiano de outras regiões. Podemos citar como grandes romances regionalistas: Os Sertões, de Euclides da CunhaFogo Morto- José Lins do RegoGabriela, Cravo e Canela - Jorge Amado, Capitães da areia, de Jorge Amado

Resenha de São Bernardo - Graciliano Ramos

Graciliano Ramos escrevendo

São Bernardo cumpre com maestria esse propósito, pois, além de ser ambientado no interior de Alagoas, foi escrito em formato de memórias, sendo sua linguagem próxima da utilizada no cotidiano do interior nordestino. O autor das memórias, Paulo Honório, afirma nas primeiras páginas ser incapaz de escrevê-las devido ao seu pouco conhecimento sobre as letras:

Não pretendo bancar o escritor. É tarde para mudar de profissão.”

Contudo, após se desculpar de sua ignorância, o autor narra como se apossou e administrou a propriedade São Bernardo. Honório, sem ter conhecido seus pais, foi obrigado desde pequeno a se virar sozinho, tendo exercido diversas profissões. Sempre com o sonho de enriquecer, sua ambição o levou por caminhos tortuosos até acumular certo capital:

Sofri sede e fome, dormi na areia dos rios secos, briguei com gente que fala aos berros e efetuei transações comerciais de armas engatilhadas.”

Através de táticas legais e ilegais, Honório consegue se apossar da propriedade São Bernardo. Apesar de sua pouca instrução, buscou adquirir conhecimentos de agricultura e pecuária, administrando sua propriedade com mãos de ferro. Contudo, apesar do sucesso, Honório não esconde sua insatisfação consigo mesmo:

“Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos de outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.”

Após o suicídio de sua esposa, Honório começa a questionar no que sua ambição desenfreada o transformou, chegando a desejar nunca ter enriquecido:

Se houvesse continuado a arear o tacho de cobre da velha Margarida, eu e ela teríamos uma existência quieta. Falaríamos pouco, pensaríamos pouco...”

Honório tenta, através de suas memórias, expressar sua angústia, uma angústia que o leva a questionar sua existência. Uma existência pautada pela ambição desenfreada e pelo desejo de acumular bens, contudo, após o suicídio de sua mulher, tudo deixa de fazer sentido na sua vida. Madalena, esposa de Honório, teve uma infância sofrida como a de seu marido, contudo essa infância difícil não a impactou da mesma forma.

O fato de ter tido uma infância difícil fez com que ela sentisse compaixão pelos pobres, buscando ajudá-los na medida do possível. Ao contrário dela, Honório não demonstrava qualquer compaixão ou simpatia por seus funcionários, utilizando-se, muitas vezes, de violência para com os mesmos:

Para ser franco, declaro que esses infelizes não me inspiram simpatia. Lastimo a situação em que se acham, reconheço ter contribuído para isso, mas não vou além.”

Essa divergência de pensamento entre os dois foi motivo das primeiras brigas do casal, que seriam intensificadas com o passar dos anos devido ao crescente ciúme de Honório. Contudo, esse ciúme está relacionado ao medo de perder sua esposa enquanto propriedade (posse), e não de perder o amor de Madalena. Em diversos trechos, Honório afirma não compreender sua esposa, sendo que a instrução adquirida por ela contribuiu para a distância entre os dois:

Usar aquele vocabulário, vasto, cheio de ciladas, não me seria possível. E se ela tentava empregar a minha linguagem resumida, matuta, as expressões mais inofensivas e concretas eram para mim semelhantes às cobras: faziam voltas, picavam e tinham significação venenosa.”

Em um Nordeste árido e repleto de dificuldades, Honório se tornou um homem árido, seco, movido apenas pela busca do lucro, terminando seus dias questionando a finalidade de sua existência.




quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O cortiço- Aluísio de Azevedo



Capa do livro O cortiço- Aluísio de Azevedo

Aluísio de Azevedo é um dos maiores mestres da literatura brasileira. É responsável por uma das análises mais impactantes da transição do Império para a República e o fim da escravidão.

Resenha de O cortiço

A história é ambientada em um cortiço localizado no bairro de Botafogo, no município do Rio de Janeiro, em fins do Império. Apesar de o romance conter diversos personagens marcantes, o personagem principal da obra é o próprio cortiço. O local exerce influência sobre a personalidade dos que o habitam, o que pode ser evidenciado através do comportamento de diversos personagens, destacando-se:

Jerônimo, vindo de Portugal, possuía uma personalidade compatível com o estereótipo do europeu, sendo calmo, reservado, centrado e responsável. Após ir habitar o cortiço, Jerônimo mudou completamente a sua personalidade, porquanto deixou de sentir saudade de sua terra e passou a ser preguiçoso e leviano no trabalho e nos gastos, vivendo quase que por instinto — personalidade que o autor associa ao estereótipo do brasileiro:

“o português abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, luxurioso e ciumento”.

Sua mulher, Piedade, antes trabalhadeira, forte e sempre disposta a cumprir suas obrigações, após ser abandonada por Jerônimo, passou a ser leviana com o serviço e a se embriagar diariamente, participando de danças e festas, tal como o estereótipo da "mulher baiana" construído na obra.

A filha de Jerônimo e Piedade, antes mantida em um colégio interno para não ter contato com o cortiço, após ir morar no local, tem seu destino profetizado pelo autor: ela se tornará uma prostituta, seguindo o caminho de outras duas moças da habitação:

o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria.”

Pensamento naturalista 


Pintura de Aluísio de Azevedo

O Cortiço é considerado uma das primeiras obras da literatura brasileira de cunho realista-naturalista. Essa vertente é marcada pela influência do pensamento naturalista — uma espécie de cientificismo que busca leis para explicar o comportamento humano. Este seria condicionado por fatores determinados, tais como: raça, meio social e momento histórico. Com isso, a subjetividade humana é esquecida em favor de fatores quantificáveis pela ciência da época, o que gera uma visão estereotipada da realidade. Outro clássico da literatura brasileira de cunho naturalista  é a obra Os sertões , de Euclides da Cunha.

Em determinado trecho, o autor atribui a inconstância da baiana Rita Baiana ao fato de ser mestiça: “ela, apesar de volúvel como toda mestiça...”. Ou seja, o fato de ser mestiça a torna volúvel, como se todas as mestiças estivessem determinadas a sê-lo.

Contudo, a característica naturalista da obra não impede o romance de ser uma forte crítica social, porquanto o autor evidencia a distinção de classes sociais presente na sociedade carioca. Ao lado do cortiço, ergue-se imponente o sobrado de um rico negociante português, Miranda. Na obra de Gilberto Freyre, essa distinção evidenciava-se pela Casa-Grande e a Senzala; na obra de Azevedo, evidencia-se pelo sobrado e o cortiço.


Com isso, temos a oportunidade de vivenciar, com o desenvolvimento urbano, o surgimento de uma proximidade física entre as diversas classes sociais na cidade carioca. Contudo, essa proximidade não impede a existência de uma separação social, pois, apesar de vizinhos, os dois mundos não se relacionam.

Em um Brasil que começava a participar ativamente do sistema capitalista, a figura do capitalista sovina é personificada no dono do cortiço. João Romão vive para aumentar seus bens, buscando a todo custo adquirir vantagens, sem considerar o próximo ou seu próprio bem-estar:

Só tinha uma preocupação: aumentar seus bens (...) aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero em acumular”.

Devido a isso, o cortiço é construído utilizando-se dos piores materiais possíveis e aproveitando cada palmo de terra, dando origem a habitações precárias — característica que se tornaria marcante nas periferias das metrópoles. O crescimento das cidades, impulsionado pelo processo de industrialização e pelo êxodo rural, gerou um aumento da massa de trabalhadores que se viram obrigados a habitar esses espaços, ficando à mercê de capitalistas como João Romão, que lucram às custas do sofrimento da população carente.

Desenho de um cortiço

O espaço é uma construção social, fruto das relações humanas e dotado de um caráter dinâmico. Com isso, as teses naturalistas que buscam condicionar o comportamento ao meio mostram-se ultrapassadas. Ao analisar o espaço, deve-se levar em conta sua dinamicidade e o caráter subjetivo do ser humano enquanto construtor de sua própria realidade.







domingo, 25 de outubro de 2015

As Ilusões Perdidas- Honoré de Balzac



Capa do livro As Ilusões Perdidas- Balzac


"As ilusões perdidas", romance de H. de Balzac publicado na primeira metade do século XIX, revela a dura realidade dos grandes centros da Europa daquela época. O romance tem por objetivo demonstrar a realidade em uma época em que predominava uma literatura romântica. Até meados do século XIX, a literatura europeia era dominada por um estilo de composição tido como romântico, que buscava idealizar a realidade, ou seja, adequá-la aos ideais buscados pela sociedade da época. 

Resenha de As Ilusões Perdidas


Fotografia de Balzac

Balzac pode ser considerado um dos precursores de uma literatura realista que, em contraposição ao romantismo da época, buscava retratar o real. O romance “As ilusões perdidas”, como o próprio título sugere, despeja um balde de água fria nos românticos da época, mostrando uma Paris longe de ser glamorosa, sendo problemática, caótica e corrompida. Evidenciam-se essas características na seguinte passagem do romance:

Em Paris, os conjuntos das construções e das atividades urbanas chamam logo a atenção: o luxo das lojas, a altura das casas, a afluência das carruagens, os permanentes contrastes que apresentam o extremo luxo e a extrema miséria. [...] Para o jovem poeta habituado a encontrar eco para cada um dos seus sentimentos, um confidente para todas as suas ideias, uma alma para compartilhar as suas menores sensações, Paris ia ser um espantoso deserto”.

O autor não poupa a imprensa da época, mostrando que os jornais da cidade, longe de serem meios de propagação de informações e discussões, acabavam sendo utilizados como um negócio. Nas palavras de um dos personagens do romance:

“O jornal, em vez de ser um sacerdócio, tornou-se um meio para os partidos, e de um meio passou a ser um negócio. Não tem fé nem lei. Todo jornal é uma loja onde se vendem ao público palavras da cor que deseja”.

Fotografia de Paris no século dezenove

O protagonista do romance, Luciano, deixa a província em busca de fama em Paris através de sua pena, levando consigo um livro recém-escrito e alguns poemas. Luciano imaginava que tudo correria da melhor forma possível, devendo o seu talento ser reconhecido instantaneamente, mas não é isso que ocorre.

Na capital, ele encontra uma sociedade mais preocupada com títulos e vestuários do que com talento. Um lugar onde, sem a ajuda de poderosos, nada poderia ser conquistado. O fato de Luciano ser filho de um farmacêutico fez com que todas as portas se fechassem para ele. É importante lembrar que a França da época passava por um período de restauração da monarquia, ou seja, após a queda de Napoleão, a monarquia voltou a reinar no país e os ideais monárquicos foram restaurados.

Após a queda inicial, Luciano foi obrigado a trabalhar em um dos muitos jornais de Paris. A cidade, ao longo do romance, vai corrompendo o jovem poeta, que acaba abrindo mão de seus ideais, empregando a sua pena conforme a possibilidade de lucro. Um fato que ilustra essa corrupção se dá nas críticas aos espetáculos escritas pelo jornal no qual ele trabalha. O jornal ganha uma participação no lucro dos espetáculos, fato que leva os jornalistas a escreverem críticas positivas; mas, quando os donos dos teatros deixam de pagá-los, os jornalistas escrevem críticas condenando o espetáculo, muitas vezes já haviam escrito críticas favoráveis — problema facilmente resolvido com a utilização de um pseudônimo.

O dinheiro ganhado por Luciano no jornal é rapidamente torrado em festas e mulheres, fazendo com que Luciano fosse obrigado a pedir ajuda financeira ao seu cunhado, que ficou na província. Chegando, em alguns momentos, a falsificar a assinatura do cunhado no intuito de conseguir empréstimos. Fato que, posteriormente, leva o cunhado à falência.

O cunhado do poeta pode ser considerado sua antítese. Enquanto Luciano vive em Paris, seu cunhado se empenha, através de um trabalho árduo e honesto, na descoberta de uma pasta que facilitaria a confecção de livros, barateando-os. 

O romance de Balzac pode ser considerado uma das primeiras obras de cunho realista escritas na Europa, sendo uma crítica tanto à aristocracia quanto à burguesia: sendo a primeira criticada por sua hierarquização baseada em títulos, onde o mérito e o talento ficam relegados a um segundo plano; e a burguesia, que busca de forma desenfreada o lucro, tendo como motivo e finalidade de sua existência o acúmulo de capital.

Gosta de Literatura Clássica ? Leia a resenha de grandes clássicos da Literatura europeia:

Grandes Esperanças, de Charles Dickens;
O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski;
O processo, de F. Kafka;
Notas do Subsolo, de Dostoievski;
O grande Gatsby- Scott Fitzgerald;
Pais e Filhos - Ivan Turgueniev.





    

domingo, 18 de outubro de 2015

Pais e Filhos - Ivan Turgueniev



Capa do livro Pais e Filhos - Ivan  Turgueniev. Vermelha


O romance de Turguêniev tem por temática a transição, ocorrida na Europa, de um pensamento econômico, político e cultural pautado em uma lógica feudal baseada em laços de subordinação tidos como naturais. Nesse modelo, a posição do indivíduo na sociedade é definida por leis de sangue tidas como divinas, tendo como base desse sistema a servidão. Essa lógica transita para um pensamento capitalista, sendo a sociedade baseada na capacidade do indivíduo de acumular capital e tendo como base do edifício social o conhecimento científico positivo, em contraposição ao pensamento religioso dominante no período feudal.

Com isso, houve a mudança de uma produção de bens baseada na servidão para uma produção baseada no trabalho assalariado, devido à necessidade capitalista de circulação de riquezas através do poder de compra, desenvolvendo um mercado consumidor. Esta transição gerou uma nova reorganização da sociedade europeia, tanto econômica quanto política e culturalmente, devido ao fato de a organização social passar a se basear na acumulação de capital, sendo o desenvolvimentismo técnico-científico o motor desse processo.

Apesar de esses processos estarem a todo o vapor, em meados do século XIX, na Europa, a Rússia começava a participar ativamente dessa transição. Na época, a Rússia tinha um acanhado desenvolvimentismo industrial e um sistema econômico baseado na agricultura, além de um sistema político retrógrado: o tsarismo. Entretanto, a Rússia começava a se adequar à nova ordem europeia, podendo-se destacar o fim da servidão, que gerou o trabalho assalariado. Com isso, o mujique, que antes era tido como um servo, passou a ser encarado como igual, partilhando de uma relação de trabalho com o que antes era o seu senhor.

Resenha de Pais e Filhos


Cena da peça Pais e Filhos. Homens conversando em uma mesa

No romance, vemos como este processo modificou as relações sociais no país através do embate ideológico entre os pais, homens aristocratas partidários de um sistema social baseado em laços naturais quase místicos, e os filhos, jovens que se intitulam niilistas. Estes têm por premissa a negação de qualquer tipo de convenção social imposta por qualquer tipo de autoridade, buscando enxergar o mundo com uma visão crítica, baseando-se apenas no conhecimento científico positivista.

"Niilista é o homem que não se curva perante nenhuma autoridade e que não admite como artigo de fé nenhum princípio, por maior respeito que mereça".

Esses jovens se interessam apenas pelo conhecimento científico, desprezando qualquer experiência que não possa ser observada, descrita e quantificada pela ciência, como, por exemplo, as emoções e a arte. O personagem Bazarov, niilista, ao ser questionado sobre a importância da arte, afirmou ser um bom químico vinte vezes mais útil que um poeta. Com isso, vemos a influência do positivismo no pensamento do personagem, ao acreditar ser possível, através da ciência, compreender e interpretar a realidade, podendo tudo ser explicado pelas leis da natureza.

"Que relações misteriosas são essas entre o homem e a mulher? Nós, fisiologistas, conhecemo-las muito bem. Estude um pouco a anatomia do globo ocular: encontrará ali algo que signifique um olhar enigmático? Tudo não passa de romantismo, fantasia, podridão, artifício".

Outro frequente motivo de discussões era a decadência da aristocracia neste novo sistema, devido à transição de uma sociedade que tinha a aristocracia como modelo do que era socialmente aceito para uma sociedade tendo a ciência como base da organização social. Segundo o personagem defensor da aristocracia, a personalidade e a noção de dignidade presente na aristocracia mantêm sólido o edifício social, sendo a sociedade construída e civilizada graças à aristocracia.

Bazarov, por sua vez, nega a utilidade dessa aristocracia que não tem, segundo ele, utilidade prática para a sociedade, sendo somente aceitável para o niilista algo que traga benefícios para a evolução da espécie humana. Segundo ele, a ciência não é importante por si só, mas sim pelo uso positivo da mesma. Sendo assim, todas as convenções sociais que não geram uma transformação humana racional são dispensáveis, devendo a sociedade se pautar somente no conhecimento positivista.


Percebe-se nos niilistas uma negação de tudo que não seja científico, comprovado e perfeitamente posto em prática. Para eles, os sentimentos não têm importância; inclusive, muitas vezes buscam, através da ciência, explicá-los de modo a desmistificá-los. Contudo, Bazarov acabou, de certa forma, traindo sua ideologia, devido ao fato de em determinado momento ter se desviado de sua busca científica positiva após ter um contato mais íntimo com uma condessa que, de certa forma, representava o modo de vida aristocrático.

Diante disso, fica o questionamento: será possível pensar em uma sociedade somente pautada na ciência positiva? Uma sociedade sem sentimentos, sem arte ou amor? No século XIX, muitos acreditavam ser possível através da ciência positiva; contudo, este pensamento levou a uma desumanização do ser humano, pois muitos dos sentimentos e sensações são partes constituintes do que nos faz seres humanos, podendo uma busca racional totalmente alheia aos sentimentos levar a humanidade ao caos e ao surgimento de ideologias racionalmente compreendidas, mas que ferem nossos sentimentos, como o nazismo e o fascismo.

Gosta de clássicos da Literatura russa ? Leia outras resenhas da era de ouro da literatura russa. 

O sonho de um Homem Ridículo, de Fiodor Dostoievski;
Notas do Subsolo, de Dostoievski;
Os demônios -Fiódor Dostoiévski;
Um jogador- Dostoiévski
Crime e castigo - Dostoievski.


 





quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Admirável mundo novo, de Aldous Huxley



Capa do livro Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.  Letras grandes e fundo roxo com desenhos de homens caminhando


Em Admirável Mundo Novo, nos deparamos com uma sociedade futurística baseada numa mistura de autoritarismo com tecnologia de ponta, que dá origem a seres humanos alienados e comprometidos apenas com a busca pelo prazer imediato e superficial, através de orgias, drogas e entretenimento de massa. Trata-se de uma sociedade baseada no consumo de massa, tendo Ford como seu deus, que privilegia o coletivo em detrimento do individual e que desacredita qualquer laço afetivo que possa prejudicar a consciência coletiva.

Resenha de Admirável mundo Novo

Fora dos limites desse mundo novo, encontramos os selvagens: pessoas que não participam desse mundo devido a questões naturais desfavoráveis, sendo as áreas onde habitam pouco atrativas para a anexação a esse mundo novo. O selvagem John sonha em conhecer esse admirável mundo novo no qual só há espaço para a felicidade, tendo essa oportunidade após o contato com um membro dessa sociedade futurística. Apesar do deslumbre inicial com a alta tecnologia presente nesse mundo, logo o selvagem percebe o ônus de tal mundo feliz: a falta de liberdade, juntamente com a falta de sentimentos profundos que caracterizam a espécie humana.

"E esse — interveio sentenciosamente o Diretor — é o segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer. Tal é a finalidade de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social de que não podem escapar."

Os indivíduos que compõem essa sociedade são, desde o berço, inseridos em uma dada classe social através de sugestionamentos e da manipulação biológica, não havendo possibilidade de mudança posterior. Além disso, são incentivados desde cedo ao consumo de massa e à promiscuidade, não havendo incentivo para o desenvolvimento intelectual, salvo para fins de produção de bens de consumo; ou seja, as pessoas não são incentivadas a ler ou a aprofundarem seus conhecimentos referentes a questões relacionadas à vida, criando seres incapazes de possuir uma visão crítica da realidade.

"A volta à cultura. Isso mesmo, a cultura. Não se pode consumir muita coisa se se fica sentado lendo livros."

Com isso, cria-se um questionamento: a felicidade justifica a falta de liberdade? Ou seja, podemos abrir mão da liberdade em favor da felicidade coletiva? O administrador de uma das regiões que compõem esse admirável mundo novo acredita que sim. Para ele, é um preço que temos que pagar para sermos felizes, devido ao fato de a liberdade criar individualidades, enfraquecendo o coletivo, além do fato de muitas vezes podermos optar pelo sofrimento — como se vê no selvagem que, após se apaixonar, não abre mão de sofrer por esse amor ou pela perda de sua mãe.

"O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança: nunca adoecem; não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes, por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma."

Será que o sofrimento não faz parte do que é sermos humanos? Abrirmos mão dele seria abrirmos mão do que nos faz seres humanos? Segundo Huxley, o ser humano tem o livre-arbítrio de escolher entre a insanidade de um lado ou a demência do outro. O selvagem tem a opção de levar uma vida de prazeres através de drogas, orgias e entretenimentos de massa, ou levar uma vida de liberdade fora dos domínios desse mundo novo — vida essa composta, muitas vezes, por dor, sofrimento e sentimentos complexos. No fim, ele escolhe uma terceira opção.

"-- Preferimos fazer as coisas confortavelmente. --- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero poesia, quero perigo autêntico, quero a liberdade, quero bondade. Quero pecado. --- Em suma — disse Mustafá Mond — o senhor reclama o direito de ser infeliz. --- Pois bem, seja — retrucou o selvagem em tom de desafio — Eu reclamo o direito de ser infeliz. --- Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer; no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifoide; no direito de ser torturado por dores indizíveis de toda a espécie. Houve um longo silêncio. --- Eu reclamo todos — disse finalmente o Selvagem."

Leia outras resenhas de grandes obras da ficção científica.
O caçador de Androides, de Philip Dick;

segunda-feira, 23 de março de 2015

Pelos caminhos da vida , de AJ Cronin


Capa do livro Pelos caminhos da vida , de AJ Cronin. Cronin com os braços cruzados olahndo para o nada

A. J. Cronin, autor de livros de grande sucesso, tais como "O Castelo do Homem sem Alma", "A Cidadela" e "Sob a Luz das Estrelas', narra nesse livro autobiográfico momentos marcantes de sua trajetória de vida. 

Resenha de Pelos caminhos da vida 

Fotografia preto e branco de Cronin.

Deparamo-nos, nos capítulos iniciais, com um jovem Cronin lutando, apesar de todas as dificuldades, para se formar em medicina na Universidade de Glasgow. Natural de uma família de poucas posses e tendo perdido o pai na infância, Cronin viveu boa parte de sua fase de universitário alimentando-se precariamente e vestindo, segundo ele, o mesmo uniforme utilizado na Primeira Guerra Mundial.

"Vesti-me rapidamente, amaldiçoando a falta de recursos que me obrigava a usar o velho uniforme da marinha. Não era por gosto que assistia às aulas como um jovem almirante de esquadra — quando voltei da guerra, descobri que as traças haviam acabado com meu único terno civil."

Podemos resumir a vida de Cronin na palavra superação. Sempre alimentado por sonhos de grandes conquistas e riquezas, buscava a todo custo superar as limitações que a vida lhe impunha. Ao pretender uma vaga como assistente de um de seus professores na universidade, acreditando ser merecedor devido às suas excelentes notas, recebeu uma negativa do mestre, que sentenciou que Cronin nunca seria um bom cirurgião.

Tempos depois de formado, clinicando em uma pequena cidade da Escócia, ao receber no meio da madrugada um chamado, viu-se obrigado a abrir a traqueia de um menino em condições precárias. Ao operar o menino, Cronin se lembrou das palavras de seu mestre referentes à sua incapacidade de operar. Mas o desfecho foi excelente, tendo salvado a vida do garoto.

"A criança, desesperada pela dor, debatia-se como um peixe em uma rede. Céus! Onde está a maldita traqueia? Se não a encontrar logo, a criança vai morrer, vão dizer que eu a matei. Gotas de suor brotaram na minha testa quando me lembrei, de repente, das palavras fatais de MacEwen: 'você nunca será cirurgião'."

Acompanhamos no transcorrer da autobiografia diversas histórias emocionantes, sendo algumas tristes, como a história da garotinha de catorze anos que se sacrificava para criar os três irmãos após a morte de sua mãe; outras felizes, como a história de um pescador que vivia sozinho em um barco abandonado após ficar muito doente durante o inverno. Cronin, ao socorrê-lo, viu-se obrigado a transferi-lo para a mansão de uma jovem viúva localizada próxima ao local.
A viúva protestou veementemente ao fato de um homem praticamente mendigo ficar hospedado em sua casa. Após alguns dias, ela tentou retardar ao máximo a saída dele, afirmando que ele deveria ficar na casa até se recuperar completamente. A história termina com o casamento dos dois, sendo Cronin o padrinho.

Acompanhamos o casamento de Cronin com a sua namorada de faculdade. Logo após o casamento, ambos foram morar em uma cidade muito pobre da Escócia, que tinha por principal atividade econômica a mineração. Ali, talvez, Cronin tenha passado os momentos mais precários após sua formação. Os recém-casados moravam em uma casa de dois quartos, precariamente mobiliada. Foi ali, naquela cidadezinha, que Cronin decidiu continuar com seus estudos na tentativa de conquistar uma pós-graduação. Para alcançar esse feito, estudou durante meses nos poucos momentos de folga, tendo sido obrigado, para poder praticar para o exame, a frequentar um laboratório que ficava a uma hora e meia de distância da cidade onde morava — distância essa vencida utilizando uma velha motocicleta.

Quando foi prestar o temido exame oral, que consistia na parte final do exame, ele teve como primeira pergunta em qual das duas faculdades havia estudado: Oxford ou Cambridge. Cronin, sem jeito, afirmou ter estudado em Glasgow. O examinador não escondeu o seu desprezo.

"Um silêncio devastador. Gadsby não fez nenhum comentário, mas, levantando as sobrancelhas com ar desdenhoso, pôs diante de mim seis lâminas. [...] concentrou todo o desprezo de alguém para quem a simples menção de uma universidade escocesa era quase uma obscenidade."

Capa do livro Pelos caminhos da vida , de AJ Cronin

Mas, como quase tudo em sua vida, ele conseguiu os títulos, indo posteriormente clinicar em Londres. Já estabelecido em Londres, tendo conquistado uma boa condição financeira, Cronin passou por problemas de saúde que o levaram a buscar retiro no campo. Com bastante tempo livre, ele decidiu tentar realizar um de seus sonhos mais antigos: o de ser escritor.

Durante seis meses, Cronin passou boa parte dos seus dias sentado em frente às folhas que culminaram no seu primeiro romance, O Castelo do Homem sem Alma. O romance alcançou grande sucesso, sendo responsável por Cronin abandonar a carreira de médico e enveredar na de escritor. Nas páginas finais do livro, Cronin dedica-se à tarefa de expor suas ideias adquiridas ao longo da vida. Segundo ele, a tranquilidade conquistada após o sucesso como escritor proporcionou-lhe a oportunidade de ter tempo para meditar sobre a vida.

Nessa fase, Cronin se aproximou da religião, que, segundo ele, trouxe paz e harmonia. Passou a se preocupar com coisas que antes não considerava e a reavaliar o sentido de sua vida — uma vida pautada pela busca pelo sucesso e realização profissional, que acabou deixando de lado coisas tão importantes para a felicidade do ser humano.

"Aquele velho sonho de todos nós, a fraternidade universal, só poderá concretizar-se se a cooperação suplantar a competição entre os credos. Então, realmente, a humanidade será salva. Entretanto, tal mudança no coração do mundo tem de começar no coração de cada indivíduo; só pode ocorrer se todos que se dizem cristãos deixarem de servir a suas próprias seitas para se dedicarem ao bem da humanidade."

Nas últimas páginas, Cronin narra a sua visita às cidades europeias pós-Segunda Guerra Mundial, buscando demonstrar, através do relato do encontro em uma igreja com um senhor e sua filha paralítica, que mesmo após tantas adversidades, continuavam lutando pela felicidade. Mesmo após grandes tragédias, é possível buscar forças para continuar seguindo pelos caminhos da vida.

Gosta de Literatura Britânica ? Leia outras resenhas de mestres da Literatura britânica. 
Grandes Esperanças, de Charles Dickens;
As aventuras do Sr Pickwick, de Charles Dickens;


quarta-feira, 4 de março de 2015

A Riqueza do Homem, de Peter Jay

Capa do livro A Riqueza do Homem, de Peter Jay. Um cassino com fichas de aposta.

Jay aborda nesse livro todos os processos passados pelo homem, através dos tempos, na busca por uma melhor condição de vida, alcançada através do acúmulo de riquezas. Segundo ele, todos os indivíduos partilham da necessidade de obter bem-estar, buscando sempre melhorar sua condição de vida.

Resenha de A Riqueza do Homem


Os primeiros seres humanos viviam isolados uns dos outros, sobrevivendo através da atividade da caça. Com o passar do tempo, descobriu-se a agricultura como uma forma melhor e mais segura de suprir a fome; com isso, os seres humanos passaram a se juntar em grupos para trabalhar a terra, formando as primeiras sociedades do mundo, conhecidas como sociedades hidráulicas.

A sociedade utilizou-se da agricultura como fonte primordial de garantia de existência por aproximadamente 6 mil anos. Esse panorama foi mudado após o advento da Revolução Industrial. Jay, em conjunto com outros autores, afirma que, até o advento da Revolução Industrial, não houve substancial mudança na qualidade de vida dos seres humanos, sendo o avanço no bem-estar nos 300 anos após a revolução superior, aproximadamente, aos 6 milênios anteriores.

Após a Revolução Industrial, o homem pôde produzir excedentes, que possibilitaram um bem-estar e um acúmulo de capital. Este, através do seu investimento, proporcionou um maior desenvolvimento tecnológico, sendo o mesmo fundamental para o bem-estar do ser humano.

Após 300 anos de Revolução Industrial, vivemos em um mundo dominado pelos meios produtivos, que produzem os mais variados bens destinados ao consumo. Continuamos vendo pessoas vivendo na miséria sem acesso a esses produtos. Com isso, fica evidente que a sociedade igualitária, idealizada por muitos, não se concretizou, devido ao fato de que, apesar do aumento da capacidade do ser humano de produzir bens para o consumo, os seres humanos sempre buscam mais. Em uma tentativa frenética de sempre melhorar sua condição através do acúmulo de riqueza, poucos acabam ficando com muito e muitos acabam ficando com pouco.

Gosta de economia? Leia a resenha de Por uma outra Globalização, de Milton Santos.