Enredo de O Salário do Medo
Onde um grupo norte-americano instalaria um poço de exploração de petróleo e gás sem as condições mínimas de segurança? A resposta é um verdadeiro clichê: sem dúvida em um país subdesenvolvido.
No caso da história do escritor francês Georges Arnaud, o cenário da tragédia é a Guatemala. Trata-se de um lugar esquecido no tempo, onde a miséria convive diariamente com a ganância daqueles que deveriam cuidar dos interesses da população, mas, em vez disso, a entregam aos desejos dos países desenvolvidos.
A explosão de um desses poços coloca esse lucro em risco e, na tentativa de controlar a situação, a companhia de óleo decide enviar dois caminhões carregados de nitroglicerina para detonar a área e conter o vazamento.
Devido à morte de diversos moradores do local na tragédia, decidem contratar pessoas de fora para essa empreitada, pois eles não queriam mais problemas com o sindicato.
Nisso surgem esses quatro europeus, que estão meio esquecidos nessa região.
Por que vivem nesse lugar desolado? O autor dá algumas pistas, mas uma coisa é certa: todos querem desesperadamente ganhar dinheiro para fugir dali e recomeçar em outro lugar.
Eles sabem dos riscos que correm ao carregar essa carga explosiva; qualquer deslize, qualquer alteração brusca no movimento do caminhão, e todos irão pelos ares. Mas são movidos pelo desespero e por não terem nada a perder, como o trecho a seguir evidencia:
“Quem é que vai aparecer a responder o anúncio? – continuou o patrão. – Os vagabundos, com toda a certeza. Nesta cidade de morte, onde apenas nos retém o trabalho e as ajudas de custo, há homens que fariam não importa o que para daqui saírem. É desses que precisamos. (...) Juro-lhe que para conseguirem o dinheiro, eles fariam todo o percurso ao pé-coxinho com a carga ao ombro.”
Com isso, temos a premissa da novela. Dois caminhões carregados de nitroglicerina e quatro homens desesperados por ganhar dinheiro carregando essa carga em um trajeto de várias horas em estradas esburacadas.
Quando o medo e o desespero se encontram
A empreitada é louca e tem tudo para dar errado. Eles sabem que esses caminhões não estão preparados para carregar essa carga. Sabem dos riscos e, apesar da banca de durões, têm muito medo de morrer. Mas por que aceitaram? Ou melhor: por que continuam o trajeto? Por que não largar o caminhão no meio da estrada e sair correndo para o mais longe possível? Será que a falta de perspectivas e o fato de não enxergarem uma saída daquela cidade desoladora os movem, no sentido de que retroceder significa a morte, como se já estivessem condenados, seja indo ou ficando?
O autor constrói uma narrativa envolvente e cinematográfica; não à toa a história inspirou mais de um filme. Contudo, precisamos fazer uma ressalva. A forma como os latino-americanos são retratados pelo autor beira o racismo. O eurocentrismo berra nos nossos ouvidos a cada página virada. Apesar disso, a história entrega o que promete: muita emoção, como se estivéssemos sentados ao lado do motorista, literalmente ao ponto de sair pelos ares. Uma boa história.
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