sexta-feira, 24 de julho de 2026

O cronista esportivo, de Richard Ford

 

O cronista esportivo de Richard Ford
O cronista esportivo de Richard Ford

Enredo: Um jornalista esportivo narra o seu cotidiano em New Jersey, enquanto tenta se recuperar da morte de seu filho e de um doloroso divórcio.

​Como superar uma tragédia?

​Não conhecia o escritor Richard Ford, apesar de ele ser vencedor do Pulitzer. Enquanto olhava livros em uma estante em busca de uma nova leitura, me deparei com "O Cronista Esportivo".

Ao analisar a contracapa, não fiquei muito impressionado... parecia ser mais uma história melosa de superação. Mas, ao dar uma chance ao livro, não conseguia mais parar de ler.

O personagem principal, Frank Bascombe, é um homem próximo aos quarenta anos que trabalha para uma revista esportiva, enquanto tenta superar a morte de seu filho.

Diante de uma tragédia como essa e do posterior fim do casamento, o personagem fica em uma encruzilhada, sem saber como retomar a vida.

Frank decide encarar a vida de forma superficial, sem se aprofundar nas problemáticas da existência, como se buscasse viver anestesiado, surfando na superfície da vida.

A todo momento, os percalços da vida ameaçam essa superficialidade, como se exigissem uma reflexão por parte do personagem. Contudo, Frank sempre vai se desviando e tentando levar a vida sem emoções profundas. Mas, seguramente, essa atitude diante da vida vai cobrar um preço grande, principalmente em seus relacionamentos.

Esse livro foi o primeiro de uma série centrada no personagem Frank Bascombe, com destaque para o segundo livro, "Independência", vencedor do Prêmio Pulitzer.

Richard Ford é um mestre em prender o leitor, que acompanha o cotidiano de Frank sempre tentando entender as motivações do personagem ou suas atitudes:

Seus relacionamentos, que sempre começam com muita empolgação, mas acabam afundando; sua relação distante com os filhos e a sua falta de empolgação com o trabalho... quando jovem, Frank abandonou uma promissora carreira de escritor para se tornar um jornalista esportivo, abrindo mão dos desafios de uma carreira literária para escrever sobre o mundo esportivo (Frank encara os esportes como algo menor).

Uma leitura fundamental 

​Livro altamente recomendado. Uma leitura prazerosa, capaz de nos levar a grandes reflexões sobre a vida.

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quinta-feira, 9 de julho de 2026

O salário do medo, de Georges Arnaud

Capa do Livro o Salário do Medo



Em O salário do medo, temos quatro europeus em um país subdesenvolvido da América Central (Guatemala), carregando em dois caminhões uma carga explosiva de nitroglicerina. A falta de recursos, a ganância e a famosa “luz no fim do túnel” movem esses homens, cuja vida, ao menor movimento brusco, será ceifada.

 Enredo de O Salário do Medo 


 Onde um grupo norte-americano instalaria um poço de exploração de petróleo e gás sem as condições mínimas de segurança? A resposta é um verdadeiro clichê: sem dúvida em um país subdesenvolvido. 
 No caso da história do escritor francês Georges Arnaud, o cenário da tragédia é a Guatemala. Trata-se de um lugar esquecido no tempo, onde a miséria convive diariamente com a ganância daqueles que deveriam cuidar dos interesses da população, mas, em vez disso, a entregam aos desejos dos países desenvolvidos. 

A explosão de um desses poços coloca esse lucro em risco e, na tentativa de controlar a situação, a companhia de óleo decide enviar dois caminhões carregados de nitroglicerina para detonar a área e conter o vazamento. Devido à morte de diversos moradores do local na tragédia, decidem contratar pessoas de fora para essa empreitada, pois eles não queriam mais problemas com o sindicato. 

Nisso surgem esses quatro europeus, que estão meio esquecidos nessa região. Por que vivem nesse lugar desolado? O autor dá algumas pistas, mas uma coisa é certa: todos querem desesperadamente ganhar dinheiro para fugir dali e recomeçar em outro lugar. 

Eles sabem dos riscos que correm ao carregar essa carga explosiva; qualquer deslize, qualquer alteração brusca no movimento do caminhão, e todos irão pelos ares. Mas são movidos pelo desespero e por não terem nada a perder, como o trecho a seguir evidencia:

 “Quem é que vai aparecer a responder o anúncio? – continuou o patrão. – Os vagabundos, com toda a certeza. Nesta cidade de morte, onde apenas nos retém o trabalho e as ajudas de custo, há homens que fariam não importa o que para daqui saírem. É desses que precisamos. (...) Juro-lhe que para conseguirem o dinheiro, eles fariam todo o percurso ao pé-coxinho com a carga ao ombro.” 

 Com isso, temos a premissa da novela. Dois caminhões carregados de nitroglicerina e quatro homens desesperados por ganhar dinheiro carregando essa carga em um trajeto de várias horas em estradas esburacadas. 

Quando o medo e o desespero se encontram A empreitada é louca e tem tudo para dar errado. Eles sabem que esses caminhões não estão preparados para carregar essa carga. Sabem dos riscos e, apesar da banca de durões, têm muito medo de morrer. Mas por que aceitaram? Ou melhor: por que continuam o trajeto? Por que não largar o caminhão no meio da estrada e sair correndo para o mais longe possível? Será que a falta de perspectivas e o fato de não enxergarem uma saída daquela cidade desoladora os movem, no sentido de que retroceder significa a morte, como se já estivessem condenados, seja indo ou ficando? 

O autor constrói uma narrativa envolvente e cinematográfica; não à toa a história inspirou mais de um filme. Contudo, precisamos fazer uma ressalva. A forma como os latino-americanos são retratados pelo autor beira o racismo. O eurocentrismo berra nos nossos ouvidos a cada página virada. Apesar disso, a história entrega o que promete: muita emoção, como se estivéssemos sentados ao lado do motorista, literalmente ao ponto de sair pelos ares. Uma boa história.

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